ANOTAÇÕES PARA FUTURAS CONSIDERAÇÕES

1. CULPA DO LOMBROSO

Cesare Lombroso teve seu período de glória no século XIX, quando criou uma teoria – a do criminoso nato –, escorraçada no início do século seguinte, baseada no estudo de aspectos somáticos do indivíduo. Mais ou menos assim: tá na cara que esse cara é criminoso.

Contudo, se ainda estivesse valendo a menor fagulha da sua esdrúxula teoria, esta médica do Hospital Evangélico de Curitiba, acusada de ter “ajudado” pacientes graves a fazerem a passagem, a irem mais rapidamente até o Criador, não ganharia nem a função de enfermeira daquele nosocômio. Suas olheiras de Mortícia e seu semblante de Frankstein são assustadores.

Era praticamente impossível doente grave resistir àquela visão catastrófica.

Cesare Lombroso, 1835-1909 (em pt.wikipedia.org.).

2. OS INOCENTES DE ITAQUERA

A torcida do Curintcha, o campeão mundial de 2012, produziu um crime nos Andes bolivianos, mais precisamente em Oruru, em jogo pela Copa Libertadores.

A polícia daquele país trancafiou doze manos suspeitos pela morte de um jovem. Tenho a impressão de que aleatoriamente, baseada no fato de que não há torcida organizada isenta de culpa.

Chega agora um jovem paulistano de dezessete anos, que viajou até lá para torcer, e confessa que foi sua a culpa, por ter detonado o tal sinalizador que vitimou o adolescente boliviano.

Aqui, ele tem o beneplácito da lei, que o julga inimputável, por ter apenas dezessete anos.

Lá, ele levaria pelas costas as penas da lei.

Contudo, é de se perguntar se há algum torcedor corintiano, membro de torcida organizada, mesmo de dezessete anos, inocente?

3. LANÇADA A CAMPANHA ELEITORAL

Para as próximas eleições federais e estaduais ainda distantes, os políticos já falam como candidatos.

Vamos ter de suportar essa cantilena até meter o voto na urna.

Embora eu só creia no sistema democrático de eleições diretas, livres e transparentes, com a possibilidade de alternância do poder, mesmo que isto aqui no nosso país não signifique muito, pelo que se observa, os políticos nos fizeram eleitores compulsórios, sem a mínima vontade de acreditar neles e em sua boa vontade. Eles cavaram seu próprio túmulo.

Haja saco!

4. BRINCAR DE GOVERNAR

Não sei se estou errado, porém me parece que o governo de Santa Catarina esteja brincando de governar, com o caso dos incêndios criminosos que vêm ocorrendo no estado.

Será verdade que o crime está mais organizado que o governo estadual, que não consegue coibir isso?

No entanto, a grande verdade é que, mesmo num estado tido sempre como tranquilo, a criminalidade é gigantesca. Há muito bandido até mesmo em Santa Catarina.

O país está cada vez mais desgovernado, na banguela, morro abaixo.

5. LIGHT, A AL-QAEDA BRASILEIRA, CONTINUA A OPERAR

Já não se tem ouvido notícia sobre explosões de bueiros da Light. Parece que a coisa está agora sob fiscalização um pouco mais atenta.

Mas a Light não quer ficar fora da mídia e providenciou, por quatro vezes neste fim de semana, a suspensão de fornecimento de energia elétrica para a Adutora do Guandu, responsável pelo abastecimento de água do Rio de Janeiro e de vários municípios da Baixada Fluminense.

Estão sem água em suas torneiras cerca de nove milhões de habitantes da Região Metropolitana.

Quando não é por explosões, é por boicote ao suprimento de água da população.

A Light é um dos inimigos públicos do cidadão fluminense.

NOTAS ESPARSAS

Desenho de Diogo, em blogs.estadao.com.br.

1. O MILAGRE DO MALUF

Maluf é um homem extraordinário!

Alçado à política durante a ditadura militar, a qual apoiou sempre e dela se nutriu, passou o tempo todo sendo alvo de denúncias diversas, sobretudo quanto à lisura no trato com o dinheiro público. No Brasil, passa incólume por polícia, ministério público e justiça. Nem mesmo o grito de “pega ladrão!” o incomoda. É um homem honrado.

Contudo, há cerca de três anos, não pode pôr os pés fora de seu querido país, pois tem mandado de prisão da Interpol, a polícia internacional que caça todo tipo de criminoso que circula por aí. Agora, para acrescentar mais uma cereja a seu bolo de merda, a justiça das Ilhas Jersey o condenou a devolver dez milhões de dólares que mantém em bancos daquele paraíso fiscal, porque chegou à conclusão de que tal soma foi obtida por corrupção, em desvio dos cofres públicos.

A justiça das Ilhas Jersey é mais ciosa com o erário brasileiro, que a justiça tupiniquim.

Vejam, então, o poder do Maluf: conseguiu fazer funcionar a justiça de um minúsculo país a milhares de quilômetros daqui. Só que deu azar: funcionou contra ele mesmo.

2. ALKIMIN E OS PROBLEMAS ALHEIOS

Alckimin, aquele governador tipo gelatina sem sabor, está chateado com a campanha contra São Paulo, armada pela mídia, que vive divulgando a carnificina que ocorre, sobretudo, na Grande São Paulo. Segundo ele, o número de ocorrências está dentro do aceitável, já que na área metropolitana, onde moram 22 milhões de pessoas, isto é perfeitamente previsível.

Acho que o Alckimin ficou doido. Quer transferir para os meios de comunicação os problemas da cidade e do estado, fingindo que a normalidade reina em terras da garoa.

3. O MINISTRO PERIGA MORRER

O Ministro da Justiça deste nosso estranho país periga morrer. Declarou, dias atrás, que prefere a morte a ir para uma prisão brasileira.

Isto, no entanto, só foi declarado depois que políticos de expressão começaram a ser condenados pelo Supremo Tribunal Federal.

As notícias sobre as péssimas condições dos presídios, de norte a sul, de leste a oeste, vêm de longe. Os governos se sucedem e empurram com a barriga as possíveis melhorias do sistema carcerário, mas nada fazem. Este ano, mesmo, da dotação orçamentária de cerca de 270 milhões de reais para o setor, apenas se aplicou 1%. É isto mesmo que você leu – não me enganei na digitação: um por cento.

Agora, vendo colegas políticos sendo condenados às grades, foi a público manifestar seu horror mortal às prisões.

Não quero chegar à postura de alguns que dizem que, se alguém não quiser sofrer o pão que o diabo amassou em nossas prisões, não cometa crime. Porém é de se pensar que, além da pena, sempre abrandada por uma série de benefícios da legislação, o condenado sofre com as condições de cumpri-la.

4. PREFEITURA DÁ O TROCO

Em Miracema-RJ, o prefeito atual, Ivany Samel, PMDB, apostou todas as suas fichas na reeleição. Estava seguro de que se reelegeria com os pés nas costas. Perdeu fragorosamente para o candidato do 22, Joedyr, que foi seu antigo colega na administração municipal há alguns anos.

Segundo as bocas de Matilde, sua derrota é atribuída à traição de Paraíso do Tobias, um dos distritos do município, e do Morro do Cruzeiro, onde mora a população mais carente.

Agora, as mesmas bocas andam dizendo que as pessoas que se dirigem à Secretaria Municipal de Saúde para retirar remédios gratuitamente são recebidas com a seguinte frase do funcionário:

– Vai pedir ao 22.

E o cidadão volta com cara de tacho para casa, mesmo que tenha votado no perdedor.

A retaliação está sendo feita contra todos indistintamente, que é, mais ou menos, como prevê o regime democrático: sem benesses para os apaniguados.

Tenho receio de que os que necessitam de fraldas geriátricas recebam pelas platibandas:

– Vá cagar no mato!

NITERÓI PERIGOSA

Viver em Niterói, que já foi tranquilo, agora é uma atividade de risco.

Além dos problemas diários de trânsito, a violência vem fazendo da cidade um lugar de medos e tragédias.

Não temos certeza de que, se sairmos de casa em qualquer horário, voltaremos sãos e salvos. Mas, sobretudo, à noite e pela madrugada, o cidadão está mais exposto à sanha dos criminosos.

Eu mesmo, há anos, não me aventuro mais a ir até a Rodoviária Roberto Silveira à noite. E reparem que ela se localiza quase no centro da cidade. Por isso, sempre que chegam parentes do interior, peço-lhes constrangido que tomem um táxi. Ao voltarem, a mesma coisa: indico-lhes táxi. Já sofri assalto por volta das 20h de um dia comum, na esquina da Rua Barão de Amazonas com Avenida Amaral Peixoto, ao lado do Banco do Brasil, quando de lá retornava. Fora outras tentativas pela cidade: uma às sete da manhã, na Miguel de Frias; outra, no início da tarde, no Jardim São João.

E não sou pessoa dada a medos. Mas tudo tem seu limite. E é preciso cautela. A cidade faz do cidadão um prisioneiro do direito de ir e vir.

Ontem, por exemplo, foi assassinado em Icaraí, numa tentativa de assalto, o desembargador aposentado Gilberto Fernandes, de 78 anos.

Conheci doutor Gilberto quando tomei posse como funcionário do Tribunal de Justiça, nos idos de 1969. Ele já era um brilhante advogado que militava no fórum da capital do antigo Estado do Rio de Janeiro. Educado, simpático, desprovido da vaidade tão comum aos profissionais da área, sempre estava com um sorriso no rosto ao se dirigir até mesmo ao mais simples servidor, como era o meu caso.

Tempos depois, doutor Gilberto prestou concurso público para a magistratura estadual e se tornou juiz de direito e foi promovido, anos depois, ao cargo de desembargador.

Ontem, ao ir buscar seus netos adolescentes na escola, foi abordado por dois criminosos que o assassinaram friamente, como tem ocorrido com uma frequência assustadora nestes últimos tempos.

Como diz a canção popular, “viver é muito arriscoso”, mas em Niterói já está passando um pouco da conta!

A onda crescente de violência urbana

  Desenho de J. Barros (em pt.bruel.org.br).