QUEBRA ESSE GALHO AÍ PRA MIM!

No Brasil, país do jeitinho, quebrar o galho é uma instituição nacional. Dá-se o jeitinho e quebra-se o galho. No varejo e no atacado. Eu, tu, ele, nós, vós, eles. Não há pessoa do discurso que não tenha quebrado o galho para outra pessoa. E vice-versa: não tenha tido um galho quebrado por outra. Parecemos todos macacos gordos.

O jeitinho é outro caso de expediente nitidamente das cores verde e amarela. Jeitinho que, muito provavelmente, vá resultar em xabu, como com aquele bonde de Santa Teresa, cujo freio recebeu o jeitinho de um arame. E deu no que deu!

Mas, como sobreviver num país de burocracia até a loucura, se não tivéssemos essas sagradas instituições nacionais: quebrar o galho e dar um jeitinho.

E pode, às vezes, mesmo, tratar-se de alguma coisa não dentro da ética e da correção política. Quebrar o galho vale para qualquer coisa, assim como dar um jeitinho.

E o brasileiro é muito jeitoso para essa coisa de quebrar o galho.

Ao contrário, não imagino um paquistanês quebrando galho de compatriota. Lá não se quebra galho. É pão pão, queijo queijo. É adaga adaga, cimitarra cimitarra. Não tem essa! Paquistanês não se dá a desfrute de quebrar galho de ninguém.

E um afegão dando um jeitinho? A não ser que seja um talibã, que dê um jeitinho de mandar alguém para o espaço a poder de um petardo explosivo. Talibã dá o jeitinho lá dele. Mas quebrar galho nem pensar!

E os súditos da Rainha Elizabeth têm, pelo menos, cara de que saibam quebrar galho? Duvido muito! Os Beatles e os Rolling Stones podem ser tudo, até doidaços, menos quebradores de galho. Jeitinho, então, nem pensar! A fleuma britânica não foi contemplada com o DNA do jeitinho. Haja vista o entrevero das Malvinas – ou Falklands – com os argentinos. Também não quebraram o galho dos Hermanos. Partiram para a retaliação à invasão às ilhas.

Francês historicamente não é dado a casser le branche – nosso famoso quebrar galho. Caso contrário, teriam aliviado a guilhotina para Maria Antonieta e Luís XVI. E para Danton e Robespierre, os mesmo que não aliviaram para os monarcas. Até mesmo um médico lionês – JMV Guillontin – de mesmo sobrenome e profissão do inventor da máquina, o Dr. Joseph-Ignace Guillontin, cuja intenção seria minimizar o sofrimento do condenado, foi guilhotinado. E deve ter dito ao verdugo, naquele momento fatídico, antes de a lâmina implacável descer e apelando para seu parentesco:

– N’est-ce pas possible casser ce branche à moi?

Mas o verdugo, com cara e alma de carrasco desde tempos imemoriais, cortou a corda que prendia a lâmina no alto da guilhotina. E lá se foi a cabeça do aparentado do inventor da máquina de morte suave.

Aqui no Brasil, no entanto, quebra-se o galho desde a mais simplória situação, como pedir um açucareiro que realmente libere o açúcar do cafezinho no pé-sujo:

– Aí, parceiro, quebra o galho: me vê um açucareiro que funcione!

até o jeitinho para resolver o problema do grande empresário numa concorrência pública de interesse nacional, em que rolem milhões de reais.

Nesse último caso, então, o barulho que fazem os galhos sendo quebrados é de não deixar ninguém dormir.

Aí ficamos nós absolutos nesses quesitos. Somos imbatíveis na arte de quebrar o galho e dar um jeitinho.

Por isso é que, enquanto não se resolvem de vez vários e sérios problemas de natureza estrutural do país, o governo também dá seu jeitinho e vai quebrando o galho de milhões de nacionais, inventando expedientes que os ajudem a suportar as mazelas que temos pela frente.

O que pode não resolver, mas já quebra um galho danado!

 

Imagem em blogs.estadao.com.br.