PARARATIBUM!

Gostei muito do jogo de ontem no Maracanã, mas, sobretudo, do resultado final: Brasil 3×0 Espanha.

Gostei porque, com o jogo da Seleção, se demonstra que aquele tipo de futebol praticado pelos espanhóis, cujo modelo é o Barcelona, é das coisas mais chatas de se ver: o tal do toque de bola, cuja finalidade é o domínio de sua posse durante as partidas.

Nossa tática foi mais interessante, mais emocionante e mais eficiente.

Há pouco, na Liga dos Campeões da Europa, o futebol alemão, que muitos consideram duro, também deu, através do Bayern de Munique, este tipo de recado ao futebol tic-tac, como o chamam os súditos de Juan Carlos.

A contundência de nossa tática, no jogo de ontem, deixou perplexos os espanhóis e boa parte de nossa crítica especializada, tão basbaque diante do futebol de toques.
Futebol, caro leitor, queriam ou não os incensadores de firulas, é bola no filó. É gol! O resto é butique de perfumarias.

E o Felipão mostrou ao Del Bosque com quantos gomos se faz uma Cafusa.

A cara de paisagem de Xavi ficou muito bem ontem no novo, belo e superfaturado Maracanã. A inexpressividade facial do craque da Espanha teve a ambiência adequada à sua exposiçao: o baile verde e amarelo no templo renovado do futebol brasileiro.

De agora em diante – e acho que definitivamente – fica clara a lição de que, antes de querer ter o domínio territorial da partida, muito mais importa impedir o futebol chato e burocrático dos carimbadores de bola e buscar a contundência no ataque. Porque, apesar de termos na comissão técnica o Parreira, o gol não é um mero detalhe: é a finalidade maior do futebol.

Aí é só pegar as castanholas para dançar o flamengo nas touradas em Madri.

Pararatibum! Bum! Bum! Bum!

O TREM VAI FEDER!

Vai começar a Copa das Confederações. Sinal de que o trem vai feder. É só ler o meio da palavra Confederações.

Para o Taiti, que não é aqui como o Haiti – e é bom que não se confunda um com outro, embora ambos falem francês – vai feder em dobro. Periga que a poderosa esquadra insular seja batida sem dó, nem piedade, pelos adversários. Tudo porque o Taiti não será adversário de ninguém. A seleção taitiana não chega a esse estágio ainda.

A ilha, que é uma Dependência Francesa perdida no Pacífico, tem apenas 45km em sua extensão mais longa. Quer dizer: de Miracema a Bom Jesus dá para serem colocados dois Taitis e ainda sobra uma rebarba para fazer vários campos de futebol.

Já para o Brasil a coisa pode feder, se a Seleção não apresentar um futebol convincente, audacioso, ofensivo, mas consistente. No nosso caso, inclusive, o que periga é ter um estádio cheio de torcedores aborrecidos vaiando o time.

Para as demais equipes, nada federá. Nem aqui, nem no Ceará. Essa Copa das Confederações serve apenas de ensaio para a Copa do Mundo. Aí sim, quem tiver mais garrafas para vender, como diziam os espertinhos comentaristas dos anos oitenta, pode sair com a taça na mão.

Contudo, enquanto a copa que vale não vem, vale a copa que está aí e não vale quase nada.

Mais ou menos por aí! Embora eu não vá a nenhum jogo de corpo presente, porque estou por aqui com a FIFA.

Parte da seleção de Taiti – os outros vêm depois do trampo (imagem em pt.fifa.com).

A INAUGURAÇÃO DO MARACANAÇO

Perdemos uma boa oportunidade de reinaugurar o nosso mítico estádio de futebol, o Maracanã, com um Maracanaço, como ocorrido em 1950.

Naquele ano, o primeiro da sua existência, ocorria a quarta Copa do Mundo no Brasil, e a nossa gloriosa Seleção entrou em campo dependendo apenas do empate – regulamento da época -, para que se sagrasse campeã do mundo pela primeira vez. Começamos vencendo e levamos a virada: 2×1.

Tenho a impressão de que ainda não haviam instituído a mutreta, hoje comum na FIFA, segundo várias teorias da conspiração futebolísticas, e, sem combinar com os uruguaios, esses pequenos vizinhos incômodos, fomos derrotados em casa, diante de um público bestial e bestificado. Obdúlio Varela, herói da partida, calou quase duzentos mil torcedores.

Ontem, na partida contra a Inglaterra, considerada a inventora do nobre esporte bretão (Deve ser mesmo: bretão se refere à Britânia, nome antigo da Inglaterra.), os súditos de chuteiras da Rainha-Velha quase nos fazem a mesma desfeita. Começamos a ganhar, levamos a virada e só não pagamos novo mico, porque os deuses do futebol não estavam nem aí para aquela insossa partida.

Na verdade, esse time do Filipão (Toda vez que temos má vontade com um time, é assim que nos expressamos.) é um bando de gente querendo aparecer. Não há padrão de jogo, e nem mesmo os melhores foram selecionados. Há uns e outros ali de que eu mesmo, apaixonado por futebol, não ouvi nem péssimas referências, quanto mais, ótimas.

Diz o Gavião Bueno que estamos indo para a Copa das Confederações com esta equipe.

Que Deus nos proteja!

 

Ficheiro:World-cup-poster-brazil-1950.jpg

Cartaz da 4ª Copa do Mundo (imagem em pt.wikipedia.org).

MARACANÃ SEGURO

Soube por fontes radiofônicas deletérias, mas fidedignas, que os ingleses estão boquiabertos com a história do jogo entre os súditos de chuteira da Rainha-Mãe e os cucarachos tupiniquins.

Jornais como o The Times e o The Guardian chegaram a falar em caos no Brasil, diante da decisão da juíza em proibir o jogo por falta de segurança e, logo em seguida, decidir pela revogação da sua própria decisão por já ter outro entendimento da situação.

Ou os ingleses são inocentes ou não conhecem, de fato, o país a que vêm para a inauguração oficial do templo do futebol, que é o Maracanã.

Por isso é que lhes – aos ingleses – quero informar que não há, nem nunca houve, caos nenhum no país por conta desse proíbe/permite para o jogo. Ninguém no Brasil em sã consciência – ou mesmo em péssimas condições mentais –, muito menos a magistrada que atendeu a solicitação do Ministério Público, acreditava que o jogo não fosse realizado.

Eu mesmo, que não sou especialista em Direito – apenas em Errado – e muito pouco entendo deste nosso glorioso país, que não está aí para ser entendido, senão desconfiado, afiancei no final da postagem de ontem que a liminar seria cassada. Errei por pouco: ela foi, de fato, revogada.

Porque, se há alguma coisa de certa entre nós, tal coisa é a cassação de liminares. Dificilmente há alguma que sobreviva mais do que 72 horas. Aliás, no país, a liminar foi criada para ser cassada. E estamos combinados assim.

Portanto, senhores súditos da Rainha-Avó, não há nada de caótico no país, a não ser as coisas que já são naturalmente caóticas, a começar pelo tráfego e o tráfico, pelas ideologias políticas nacionais e pela base de sustentação do Governo, que não se sustenta a uma análise perfunctória e imediata, e sem qualquer base ideológica. Mais ou menos, por aí!

Podem vir tranquilos, como se viessem para pegar o sol de outono em Copacabana. Agora, quando escrevo, há nuvens sobre a Guanabara (Ih! fez um solzinho rápido, que já se escondeu!), mas para o jogo entre Patropi x Súditos Apavorados da Rainha-Bisavó o céu será de brigadeiro, como garante a revogação da liminar da juíza que, tendo por base um laudo de 29 de maio, suspendeu a partida. E a revogou em seguida, apoiada em laudo de 30 de maio. Coisa assim de somenos importância para nós brasileiros, que vivemos no caos sem o saber. E muito menos o sentir.

Assim, como num passe de mágica, em menos de vinte e quatro horas, o Maracanã passou de local inseguro para o público, para local seguro pra caramba. E olhe lá!

Habebimus jocum! Como diriam os latinos.

Nerival Rodrigues, Pelada de futebol (em ajursp.blogspot.com).

SE PAGAREM A GENTE TORCE

Por PEDRO NEIVA DE MELLO

Em 12 de julho de 1998, no subúrbio de Paris, dentro de um quarto de hotel, eu me tornei um homenzinho! Não pense você que estou expondo aqui as minhas intimidades. Este foi o dia da final da Copa do Mundo de 98. Este foi o dia em que o futebol deixou de ser parte da minha vida e passou a ser somente futebol.

Ir à Copa do Mundo foi um sonho e um presente que meu pai me deu naquele ano. Passamos mais de 20 dias por lá alternando futebol a pães, museus e longas caminhadas pela capital francesa até o fatídico dia 12. Pouco me importou a convulsão do Ronaldo ou os 3 gols da França. O que mais me marcou naquele dia 12 foi entender que eu era uma peça manobrável do grande negócio que é o futebol. A peça menos relevante.

Como vários brasileiros eu e meu pai fomos impedidos de entrar no estádio na final da Copa por interesses da FIFA. Meu ingresso, comprado e sonhado, foi novamente vendido e entregue a algum francês apaixonado bissexto pelo esporte bretão. Tive que ver aquele jogo numa tv de 14” no quarto do hotel. Ali, ouvindo o hino, chorando enrolado à camisa da seleção, deixei de ser menino. Deixei de ser inocente. Ficava claro pra mim que nem o meu choro, nem as minhas mandingas, nem todas as horas gastas dos então 21 anos de vida de torcedor significavam nada. Eu, meu pai e todos aqueles brasileiros ali éramos nada pra FIFA, pra Copa e pro futebol. Para sacramentar o nosso desprazer vimos o brasileiríssimo João Havelange ir a TV francesa dizer que aquela final era para o povo comedor de baguete. Que nós morenos nem deveríamos ter espaço no Stade de France. Liberté, egalité et fraternité uma ova!

De lá pra cá coloquei o futebol, e principalmente a seleção, no seu devido lugar na minha vida. Não fiz mais promessas, não mais repeti a meia da sorte ou me mantive sentado à direita do meu pai durante os jogos. O futebol passou a ser futebol: o meu esporte favorito, mas só isso.

Hoje, me parece, que todos nós brasileiros passamos, de algum modo, pelo mesmo processo de separação que eu tive em 98. Estamos prestes a sediar a Copa do Mundo e é evidente que o povo, a Copa e a seleção não se falam. Estamos tão empolgados com a Copa como quem vai ao posto de saúde se vacinar. É bem capaz de trabalharmos normalmente nos dias de jogos. Aposto que ninguém vai colecionar o tradicional álbum. Aposto que ninguém vai reunir os amigos em casa a não ser que os patrocinadores paguem por isso. 

Taí! O povo brasileiro topa simular a velha corrente pra frente das décadas de 70 e 80 se a Coca-Cola pagar. A Coral, além de dar as tintas, vai pagar o pintor pra colorir as ruas da cidade. A Brahma vai distribuir cerveja de graça e com teor alcoólico turbinado pro povo alucinar que está em 1950. A Fiat diz que a rua é a maior arquibancada do Brasil. Tolinha…criando seus factoides de pseudoempolgação popular. Fiat, querida, ou libera Palio pra galera ou a rua vai ficar vazia! Só assim…porque se depender do povo não teremos Alzirão e nem Pelourinho. Nem trio elétrico e nem caxirola. 

FIFA e CBF, a regra é clara! Não levem pro pessoal, são só negócios…e vocês sabem, né? Quem quer rir tem que fazer rir. Caso contrário a maior arquibancada do Brasil vai ser o sofá da sala e olhe lá.

Stade de France (em commons.wikimedia.org).

E A BOLA ROLOU ENLAMEADA NESSE FIM DE SEMANA

Às vezes falo de futebol. Nem sempre quando o Botafogo vence. Ou perde. Ou empata. Falo porque quero e o blog é igual a papel: aceita tudo.

Embora não pareça, sou apaixonado por futebol. Contudo não gosto de discutir, de sacanear o derrotado, apesar de o fazer algumas vezes – até mesmo contra a minha vontade, mas há ocasiões em que isto é necessário para a continuação da vida –, nem de ficar conjecturando o que poderia ter sido e não foi.

Há algum tempo, vi um escritor português, de cujo nome não me lembro, dizer na tevê que gosta de futebol. Mas apenas dos noventa minutos de bola rolando. Nada do que se diz antes, nem bulhufas do que se diz depois. Eu, por exemplo, acho mesa-redonda esportiva a coisa mais inútil do mundo. Até mesmo mais que fósforo usado!

Contudo, há algumas coisas que não podem ficar acontecendo por aí e um cara interessado como eu ficar olhando, com cara de pastel. Por exemplo, o que ocorreu no jogo de sábado entre Flamengo e Figueirense, realizado em Volta Redonda, portanto mando do time carioca.

Como todos sabem, até a imensa torcida rubro-negra, o time do Flamengo é bem chinfrim. Lamentável, mesmo! E está há algumas rodadas de namoro com a zona de rebaixamento, agora apelidada de Z4.

Pois muito bem! No jogo de sábado, como dizia, o Figueirense foi miseravelmente, vergonhosamente garfado, em favor do Fla. Fez dois gols legítimos no primeiro tempo, e os teve anulados por marcação de impedimento pelo mesmo bandeirinha, que estava em cima do lance e, portanto, não tinha o direito à dúvida.

Imagem (lamentável, aliás) em portaltimonfim.com.br.

E continuou tendo assinalados impedimentos inexistentes ao longo da partida. Até que o time da Patrícia Amorim, a ineleita, marcou um belo gol com um jogador lá cujo nome não me interessa, porque não joga no meu time e eu quero que ele se dane.

E o Figueirense amargou uma derrota, ao apito final, imerecida e canalhamente roubada. Tenho a impressão de que, para a arbitragem, funcionou mais ou menos assim: se alguém tem de cair, que seja o Figueira, cuja torcida oferece bem menos perigo.

Mas continuo, apesar de tudo, assistindo a jogos de futebol, porque gosto muito. E vejo os que posso. Entretanto dá uma vontade danada de deixar isso pra lá, pois percebo que há outros interesses em jogo, sem trocadilho.

Então, domingo pela manhã, ligo a tevê e está lá o futebol de salão entre Brasil e Líbia. Automaticamente estacionei no canal. Depois de alguns minutos de um joguinho bem furreco, tomei consciência e fui procurar futebol de verdade. Lá estava, em outro canal, Old Park Rangers x Reading*, que nunca havia visto mais gordos, pela Premier League inglesa. O controle sossegou nele. E fiquei lá vendo aqueles pernas de pau maltratando a bola, até que um lampejo de lucidez, tal o famoso estalo de Vieira, trouxe-me de volta à vida e decidi parar com isso. Pelo menos até que começasse a rodada do Brasileirão, com Botafogo x Palmeiras, que não vou comentar aqui, para não dizer uns palavrões que o leitor amigo não merece ler.

E tenho dito!

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*PS: O jogo só serviu para que eu procurasse no Google onde, diabos, se sediam esses times. Aprendi até coisas como Inner London, Outer London.

PAI PRUDENÇO EXPLICA O VEXAME

Última foto obtida de Pai Prudenço (em telesvale.blogspot.com).

Bati um fio espiritual para Pai Prudenço, o assessor do blog para assuntos esotéricos, espirituais e fantasmagóricos, para falar sobre o fiasco do Botafogo diante do Bahia, tendo em vista que eu mesmo havia encomendado um quebranto forte contra o time da Boa Terra.

Pai Prudenço tinha combinado comigo sacrificar um bode preto, o mais fedorento que ele achasse, com mais alguns acessórios de muito valor mandingueiro, numa clareira virgem de uma mata idem, diante de uma cachoeira nem tanto.

Pelo trabalho, paguei não sei quanto – não vou dizer aqui, para que, depois, o leão do imposto de renda vá em cima do meu guru – e aguardei a mudança de rumo do jogo, até o apito final de Sua Excelência, que no dia de hoje não pôde ter sua genitora xingada em hipótese nenhuma. Ele esteve isento de culpa.

Segundo percebi, o time do Glorioso nem chegou a Salvador, quanto mais ao Pituaçu, para a partida deste domingo. Sequer embarcou para a Bahia. Ficou em terra, amarrado por uma mandinga muito mais forte vinda do Recôncavo e com forte cheiro de azeite de dendê. Os jogadores que pensávamos ver na tela da tevê eram apenas projeções em 3D de imagens de joguinhos virtuais, obtidas via espiritual online, por poderosos hackers pais-de-santo baianos, a soldo da equipe do Bahia.

Por isso é que, tão logo terminada a refrega (e que refrega!), entrei em contato telepático, mediúnico, ou lá o que seja, com Pai Prudenço, a fim de que ele me desse as devidas explicações para o vexame alvinegro em terras de Gabriela e Jorge Amado.

Como ele não foge à responsabilidade, começou explicando que tinha comprado o bode de – em suas palavras – “um tar minino danado de falante, espigadim, cabelim lustrado de brilhantina Glostora, que atende pela graça de Tõi Carlinho, neto do homi”.

Logo desconfiei. Ele comprou o bode do neto do ex-homem forte daquele estado – e já entrado nas esferas astrais em virtude de desencarne e que agora aparece como um fantasma da pior estirpe na novela Gabriela, incorporado em outro Tõi, desta vez o Fagundes. O “minino” é o deputado almofadinha, torcedor empedernido do Bahia, que certamente mandou preparar espiritualmente o bode a ser passado a Pai Prudenço.

Chamei-o às falas. Um homem com os costados quentes como ele não pode ser enganado feito criança de cueiro e chupeta. Como é que ele me deu uma dessas? Como caiu num logro tão grande? Ameacei-o ainda de dispensar seus serviços de assessoramento espiritual-esotérico do blog. Porém ele, com uma risadinha sarcástica, raspou a garganta e sugeriu em forma de ameaça:

– Óia que ieu faço seu timim de merda baixá ni otra dimensão, hem!

Senti em dimensão a segunda divisão e voltei atrás em minhas ponderações nada ponderadas com Pai Prudenço.

Contudo, para não deixar barato e mostrar que também tenho minhas amizades poderosas, sugeri que ele fosse se consultar com Pai Sir Zatonio de Xangô, a fim de ver se, embolando suas mandingas e quebrantos de meia-tijela, possam os dois tirar o time da pasmaceira apresentada no jogo de domingo, em que até mesmo Seedorf parecia mais perdido que cachorro caído de caminhão de mudança.

Saravá!

FUTURO DE JOGADOR

Anoredino Pé-de-Chumbo era goleiro do time do Soca-Terreiro, com sede na Fazenda do Jacó. Brincava com um bando de meninos e rapazes – ele já homem feito -, para passar o tempo.

De beque-central ficava o sobrinho do dono do time, do terreirão e da propriedade. De repente, surge um ataque maciço do time adversário. E o ataque vem crescendo, vem chegando ao seu gol, até que outro garoto mete a bola na gaveta das traves feitas de bambu.

O goleiro reclamou do beque-central:

– Onde você estava na hora do ataque?

– Fui cuspir lá fora do campo.

– E por que não cuspiu dentro do campo, ô infeliz?

– Porque é falta de educação. – respondeu o menino na mais santa das inocências.

Até hoje, Anoredino Pé-de-Chumbo, os cabelos já grisalhos, ri de um menino beque-central de time de roça, que tinha a estranha educação de não cuspir dentro do campo de jogo e preferia ver um gol do adversário a sujar o terreirão de café.

Tudo isso porque o menino não tratava a bola por você, com intimidade. Mas por Excelência, Vossa Majestade, coisa e tal.

Cândido Portinari, Futebol, 1935 (em portinari.org.br).

JOGO-TREINO JUNGUIANO

O jogo amistoso de ontem, entre a seleção brasileira e a seleção chinesa – formada por jogadores de R$1,99 -, não teve objetivos táticos, técnicos ou estratégicos. Não se tratou propriamente de medição de forças futebolísticas entre diferentes escolas de futebol (se é que há escolas de futebol). Não se opôs Oriente contra Ocidente, Comunistas x Capitalistas, ou Incréus x Crédulos. Nem mesmo Falsificações x Autenticidades. O jogo, como disse Casagrande, nos comentários quase ao final da partida, serviu para a autoestima, a confiança e a segurança psicológica do grupo.

Aplicamos uma goleada histriônica nos chineses, que até colaboraram com um golzinho de lambujem para nós, apenas para que nossos jogadores não caíssem em depressão, não parassem nas mãos de algum psicólogo esportivo ou de algum dos milhares de palestrantes motivadores que andam por aí.

Fizemos toda aquela pantomima, convocamos a torcida, de quem se cobrou precinho camarada, para assistir a uma grande sessão de descarrego de nossa incompetência futebolística recente. Talvez um desses pastores televisivos pudesse poupar o incômodo de ir até o estádio a toda essa gente.

Escolhemos a dedo o cachorro morto a ser chutado e lhe aplicamos os golpes de misericórdia, para que nossa autoestima não chegasse ao fundo do poço. Isso chega a ser sadismo!

Além disso, o jogo também serviu para aliviar a consciência do técnico Mano Menezes, seus assistentes e a direção da CBF, que vão dormir tranquilos até os próximos jogos contra a Argentina – um aqui e outro lá –, nos quais também, já se engatilhou uma razão para nosso possível fracasso: só serão convocados jogadores que atuam nos dois países. Assim, ficamos livres da ameaça Messi (para fazer uma brincadeira sonora com aquele jogadorzinho metido a bom de bola!).

E assim vamo-nos encaminhar para a gloriosa Copa de 2014, com uma preparação de faz de conta, enfrentando moinhos de vento, para que as bravatas quixotescas de nossos dirigentes soem aos ouvidos dos torcedores como vitórias contundentes, como preparação bem planejada, bem executada.

Sei não, mas a Copa de 2014 pode deixar para o brasileiro uma tragédia mais avassaladora que o Maracanaço de 1950, quando o Uruguai nos tirou a taça, como quem roubasse pirulito da mão de criança.

E aí os psicólogos não darão conta de atender a tantos torcedores.

Imagem em prosaerisos.blogspot.com.

JOGAMOS COMO TIME PEQUENO

Até que ganhamos, mas, diferentemente do jogo de quinta-feira em Belo Horizonte contra o Cruzeiro, hoje, no Engenhão, nossa casa, contra o Náutico, o Botafogo jogou como time pequeno.

Se no jogo anterior, o time deu uma aula de futebol solidário, ofensivo e inteligente, partindo para o ataque sem medo, no de hoje, após o gol meteórico de Elkeson, no primeiro minuto, o time recuou e passou a se defender, um tanto perdido, desorganizado, sem conseguir dar sequência a jogadas, e esperando as oportunidades para contratacar. Tal papel não seria nosso, mas do visitante.

E na maior parte de todo o jogo o domínio da bola foi do Náutico.

No entanto, me dirão os arautos da objetividade: Pô! ganhamos de 3×1 e isto basta!

Mas não me parece bem isto.

A partida era no nosso prego. E, no prego, o canário dono tem de fazer valer tal condição. Isto aprendi vendo briga de passarinho lá na minha vila. E o Botafogo parecia o visitante: recuado, acuado, sofrendo uma pressão miserável. Houve bola na trave, defesa milagrosa, oportunidades perdidas pelo time pernambucano. É claro que, se o Náutico fosse um pouquinho melhor – ou tivesse um pouco mais de sorte –, teria empatado o jogo e as coisas ficariam muito esquisitas para nós. Sabemos que nossa condição psicológica é vulnerabilíssima.

Fizemos três gols, com boas jogadas (e houve mais uma, em que Seedorf chutou por cima), mas ficamos só nisto. Tivemos foi é sorte, isso sim! O que faltou ao Náutico. Ainda bem!

Para fechar, quero deixar claro que, na condição de botafoguense, esta minha reclamação faz muito sentido. Para nós, não basta simplesmente ganhar. Há que mostrar que a vitória foi merecida e insofismável.