JON LORD E DEEP PURPLE

Assumo, logo de cara, sem a vergonha que seria típica para um senhor adentrado na terceira idade como eu, minha condição de purplemaníaco, aproveitando a notícia da morte de Jon Lord, tecladista, compositor e um dos fundadores do grupo inglês de hard rock, Deep Purple, ocorrida na segunda-feira.

Mas devo confessar, também, que não sou um fã típico. Quer dizer, não fui e não sou fissurado. Sou equilibrado. Abestadamente equilibrado!

Na década de 70 do século passado, comprei minha primeira bolacha do Deep Purple – Fireball – e senti que ali pulsava uma música interessante.

Alguns podem até me dizer que é estranho associar música a hard rock. Mas como amante de música, desde a música medieval e renascentista, passando por Vivaldi e Bach, meus compositores clássicos favoritos, vejo e sinto música no rock mais barulhento, mais estranho que possa haver. Aliás, a música está presente nos mais diversos estilos. É só ser feita com qualidade.

Concomitantemente, tinha o hábito de comprar, ler e colecionar a imprensa alternativa daquela época, aí incluída a versão pirata brasileira do jornal Rolling Stone, que difundiu o mito de que fãs do Deep Purple não poderiam ser fãs do Led Zeppelin. Seria uma incompatibilidade de gênios. E eu entrei nessa!

Contudo, não me arrependo disto, apesar de meu sobrinho-neto Lucas fazer um esforço danado para que eu “largue mão desta besteira”. Não que não reconheça qualidade na música do Zeppelin. Eu não seria abestado a este extremo, pois me considero uma pessoa razoavelmente esclarecida. Porém vamos dizer que não fui acostumado a ouvir a música do Led Zeppelin e fui iniciado na música do Deep Purple. Mais ou menos assim como religiosos de denominações cristãs diferentes, que acham que apenas a sua igreja seja a verdadeira e que as demais, apenas uma contrafação da verdade, apesar de cultuarem o mesmíssimo deus.

Como disse na postagem anterior sobre a morte de Jon Lord, que lamentei com toda a sinceridade, tenho quase toda a obra do Deep Purple em bolachas de vinil 33rpm e CDs, além de alguns DVDs de shows, e até mesmo o último de Jon Lord, com orquestra sinfônica, em uma peça de caráter erudito.

Quase todas as vezes que o Purple esteve no Brasil, no Rio de Janeiro, fui vê-lo, inclusive levando meu filho. Até mesmo num concerto com sua formação clássica, no Maracanãzinho de péssima acústica, lá pela década de oitenta/noventa – sei lá –, quando Pedro era ainda adolescente.

Até os discos mais recentes, Bananas (2003)e Rapture of the deep (2005), em que a formação é distinta, mantidos basicamente Roger Glover e Ian Paice, a pegada – ou o punch, como gostam de dizer os entendidos – mantém-se a mesma. São discos que não desmerecem o prestígio que o grupo adquiriu ao longo de sua trajetória.

Não citarei aqui a série de sucessos que o Deep Purple enfiou nas paradas. Apenas quero lembrar que os riffs de guitarra mais famosos – aqueles de que todos se lembram – pertencem à guitarra incendiária de Ritchie Blackmore.

E o Purple tinha um quinteto de músicos extremamente talentosos. Além de Balckmore, compunham a banda Ian Gillan, apelidado Silver voice, que atingia agudos e graves extremos com facilidade, como em Child in time; Ian Paice, que solava, com sua poderosa bateria, várias passagens musicais, com em The mule; e o baixo de Roger Glover, na pulsação acelerada de cada rock que o grupo debulhava nos discos e nos shows.

Relativamente ao órgão de Jon Lord, vou transcrever o que, no Facebook, meu amigo Rogério Fernandes, baixista de muitos méritos, dele falou, a respeito da inovação trazida à maneira de se executar o instrumento: “Ele era realmente extraordinário e seu som de Hammond que era único vai fazer falta. Ele tinha uma coisa bem curiosa na maneira de tocar o órgão. Ao contrário de outros organistas contemporâneos e roqueiros como ele, não passava o órgão diretamente pela caixa Leslie como todo mundo fazia. Ele ligava o instrumento num amplificador de guitarra com o botão de drive bem alto, para poder obter um som mais agressivo e distorcido do instrumento. Ele explica isso no DVD Classic Albuns do Machine Head. E fica a lembrança do solo matador, bem bachiano, em Highway Star, marca registrada dele. R.I.P, Jon!”

Salve Purple! Ave Lord!

O Deep Purple nos áureos tempos: Lord, Paice, Gillan, Blackmore e Glover (em vandohallen.com.br).

MORRE JON LORD

Do meu quase exílio mensal em Bom Jesus, soube agora à noite da morte de Jon Lord, tecladista e compositor do emblemático grupo de rock inglês Deep Purple, e posso dizer aos que me prestigiam com a leitura que fiquei realmente sentido.

A barulhenta e acelerada música do Deep Purple embalou minha juventude. E até hoje é, no estilo conhecido como Hard Rock, a minha preferida. E confesso que, mesmo na idade provecta em que me mantenho sobre a face do planeta, não passo muito tempo sem voltar a ouvi-la. Meu amigo, Rogério Fernandes, baixista dos bons, sabe muito bem disto e não opõe reparo. Até, inclusive, me deu dicas sobre coletâneas que não encontramos normalmente no mercado brasileiro, que tiveram de ser importadas.

Tenho sua discografia quase completa, em vinil e em cds, além de alguns dvs de shows.

Jon Lord colocou seu teclado nervoso a serviço da massa sonora do grupo. O longo solo inicial de Lazy, uma das faixas de Machine head, é um belo exemplo disto.

Diferentemente de outros da mesma linhagem estética, o Purple não abrandava a pegada vigorosa com alguma canção dolente, para permitir que o fã relaxasse por breve instante. Seus discos eram, com frequência, uma pauleira só, como costumávamos dizer, do princípio ao fim. E, o mais interessante, com melodias facilmente assobiáveis, malgrado o peso.

E, se o Purple teve na guitarra de Ritchie Blackmore um de seus pilares, teve também no órgão de Lord um nervo exposto a cada solo, assim como na voz inconfundível de Ian Gillan, assessorados pela cozinha de Ian Paice, na bateria, e Roger Glover, no baixo, em sua clássica formação.

O rock faz centenas, milhares de heróis. Alguns, tristes heróis, que se deixaram imolar absurdamente pelas drogas. Lord morre prosaicamente como um cidadão comum, acometido por um câncer de pâncreas, que o levou a uma embolia pulmonar.

A vida o deixou sem fôlego, como os seus rocks vibrantes, pesados, nos deixavam a cada audição.

Hoje, para mim, é uma noite negra, de um púrpura escuro, profundo. Mas Lord passa como uma bola de fogo pelo horizonte sacudindo minha preguiça de Bom Jesus.

Rest in peace, Jon Lord, the lord of keyboards!

Capa da primeira bolacha que adquiri do Deep Purple, Fireball, de 1971. Lord, ainda jovem, é o primeiro em cima.