COCOTE

Cocote, pronunciado com os /o/ fechados, era o goleiro do Liberdade Esporte Clube, o valoroso esquadrão alvianil da minha vilazinha natal. Ele defendeu a meta do time por alguns anos, tendo sido efetivado no gol tão logo atingiu a maior idade penal – de penalidade máxima, pênalti.

Embora eu tenha saído de Carabuçu aos meus dezoito anos, até então Cocote era o goleiro mais longevo do clube. Antes dele, houve o Reginaldo, rapaz do Rio de Janeiro que milagrosamente se apaixonou pela vila e por lá ficou, até que a fatalidade o colhesse em plena juventude, num fatídico banho de rio.

Pelo que me lembro, logo depois do Reginaldo, o Bié foi deslocado da ponta-esquerda para o a função de guardião das cores branca e azul, após um petardo violento de canhota que atingiu a cabeça de um menino que brincava à margem do gramado, deixando-o desacordado. João Coleto, treinador e pai do Bié, houve por bem levá-lo para o gol, antes que provocasse uma tragédia. E, segundo ainda minha memória, também não fazia feio. A voadora que Bié dava em direção à bola chutada na forquilha era muito plástica e espalhafatosa.

Contudo, após algum tempo, Cocote foi promovido a titular da meta.

Cocote era filho da Filhinha da Hortênsia, de família muito humilde, que morava na Coreia, espécie de bairro da vila minúscula. Pelo que me lembre, até o momento de ser efetivado como goleiro, não tinha trabalho certo. Sem ser alto, um tanto roliço para a função, ainda assim ficou na memória de todos aqueles que, aos domingos, iam ao Estádio Dr. César Ferolla assistir às partidas do campeonato bonjesuense, pela destreza e habilidade com que se portava.

Seu nome era Jorge, e apenas sua mãe assim o chamava Toda a vila o conhecia pelo apelido, cuja origem desconheço e imagino mesmo que nada tenha a ver com a palavra francesa cocotte, de pronúncia aberta.

Ao ser inscrito para o campeonato da Liga Bonjesuense de Desportos – LBD, Cocote deveria assinar a ficha de inscrição e a súmula de cada jogo oficial. Como fosse analfabeto e não tivesse registro civil, os dirigentes do Liberdade Esporte Clube, para facilitar as coisas, resolveram que ele se chamaria a partir de então Jorge Sá. Seria menos difícil ensiná-lo a assinar o nome. Sobretudo Sá: uma cobra e uma bolinha com rabo de porco do lado direito, mais uma cunha no alto da bolinha. Jorge foi um pouco mais complicado, mas não havia como trocar o nome dado pela mãe.

E assim foi feito! Cocote, que raramente era chamado de Jorge, sem pai conhecido, analfabeto, filho de gente humilde, passou a assinar-se Jorge Sá e a defender a meta do glorioso time de futebol de Carabuçu.

Até aqui, este é um retrato um tanto idealizado daqule goleiro que defendia o time de futebol da minha vila natal, embora saiba que, posteriormente, a vida lhe tenha reservado caminhos tortuosos e não não tão edificantes.

Resultado de imagem para goleiro desenho

Imagem em clicrbs.com.br.

Anúncios