OLHOS QUE VÃO E VÊM

Lund
Lund

 

Meus olhos foram passear pelos escondidos da Escandinávia e pelos amores de Roma. E viram coisas de se boquiabrirem – como se fosse possível –, de se encantarem, de se admirarem, como pela primeira vez olhos de menino vissem um novo brinquedo.

Andaram por Malmoe, Lund e Gotemburgo, na Suécia, e Copenhague, na Dinamarca. Flanaram por ruas cheias de gente e por avenidas largas e quase vazias. Viram coisas de mil anos e coisas novas. Viram as pessoas nas ruas e não sentiram nenhum receio, nenhuma estranheza, apesar da diversidade tão diversa quanto é o bicho homem. Em Roma, mais parecida conosco, percorreram ruas mais estreitas, mais apinhadas de gente. Sentiram a festa que é a capital italiana. E durante os trajetos pelas vias, quanto mais os táxis pareciam se perder propositadamente – não tenho certeza! –, encontravam a cada quarteirão um pedaço da história, agora com mais de dois mil anos, engastado em edifícios e monumentos de muitas épocas.

Como que por milagre, sentiram o paladar diverso da culinária, o sabor das cervejas e dos vinhos nacionais, a preços razoáveis, e as estranhas formas de se beber um simples cafezinho.

Viram que viram por onde andaram, sem que – malgrado todo o novo – disso houvesse um deslumbramento, porque já entrados em presbiopias, hipermetropias e miopias de muitos janeiros. São olhos que veem com admiração, porém não chegam mais ao deslumbre, como se todas a coisas da vida fossem muito naturais.

E voltaram a ver o mesmo panorama da Baía da Guanabara – hoje enevoada –, as quase mesmas pessoas reconhecíveis como seus iguais, as mesmas ruas de sempre, com seu trânsito pesado, e as amendoeiras do calçadão da praia que já perderam suas folhas amareladas.

Meus olhos foram porque quiseram ver o diferente, mas estão agora no conforto das coisas corriqueiras, que fazem da vida quotidiana este porto seguro de onde podem partir – vez em quando – sempre que o bicho da novidade formigar embaixo de suas pálpebras.