MOVIMENTOS NACIONAIS

Os movimentos nacionais estão na ordem do dia. Movimenta-se por tudo e por tão pouco: por vinte centavos, por exemplo. Mas também pelos gastos astronômicos das obras dos estádios para a Copa da FIFA 2014.

Ora, eu que adepto fervoroso da preguiça física acompanho os movimentos apenas pela tevê. Já fui a alguns, quando mais jovem: como o das Diretas Já. E, mais entrado em anos, fui a um pelo fim da violência em Niterói. A violência só cresceu depois disso. Contudo acho que, quanto aos gastos, o movimento está atrasado – mais que as obras -, já que deveria ter ocorrido antes delas. Agora, com quase todas em fase de conclusão, não adianta mais.

Quanto aos vinte centavos, que pode ser pouco para mim e para você leitor, no entanto, é pouco mesmo para qualquer um. Com vinte centavos você não compra nada. Se as passagens são caras, não o são pelos vinte centavos. Já vêm caras de há muito.

Então fico aqui olhando os movimentos se movimentando por várias cidades brasileiras. Em algumas, as notícias dão conta de que houve redução no preço da passagem dos transportes públicos.

E isso adiantará alguma coisa? Por outro lado, a maioria esmagadora dos trabalhadores brasileiros recebe vale transporte. Estudante tem passe livre. Idoso vai no beiço. Então é esquisito tanta gente protestando por causa de vinte centavos.

Quero informar a todos que não sou petista e não estou aqui desclassificando o movimento. Quero apenas que ele tenha um foco mais preciso, como qualquer jogador de futebol que entra em campo focado. Pode até perder a partida, o que será um mero detalhe. O importante é estar focado.

Em São Paulo, por exemplo, ontem, a multidão caminhava pela Ponte Estaiada e pela Marginal Pinheiros. Taí uma boa lição: por que é que não vão para casa a pé? Assim trocarão os engarrafamentos de automóveis pelos engarrafamentos de gente, que, com certeza, poluirão menos.

Millôr Fernandes, numa época em que ser politicamente correto ou incorreto não fazia a menor diferença, lapidou uma frase saborosíssima: “O melhor movimento feminino ainda é o dos quadris.”

Estou mais ou menos nessa linha milloriana. Portanto não me chamem para movimentar um único músculo por meros vinte centavos ou pelos gastos que já foram feitos e que nós vamos pagar, bufando ou não.

Se for para salvar o país, pode ser que eu me levante da rede. Mas só em último caso! No momento exato da queda da Bastilha!

Movimento dos quadris parado (imagem em allthelikes.com.

VOU FUNDAR UMA IGREJA, PORQUE NÃO SOU BOBO

Lá por volta d 1988, tínhamos em casa uma funcionária de prendas do lar. Era uma jovem – tinha cerca de vinte anos –, era bonitinha, evangélica e tímida, embora gostasse de conversar comigo, sempre que eu chegava do trabalho.

Certo dia, me disse que estava com muita pena de um irmão que não podia mais frequentar a igreja. Perguntei-lhe a razão, imaginando algum problema de saúde, e ela me disse que ele estava desempregado e não podia pagar o dízimo. Assim não lhe era permitido frequentar regularmente os cultos.

Na época, já militava nas fileiras satânicas do ateísmo e lhe falei da minha estranheza em, justamente numa fase de agruras como aquela, a igreja se recusar a ajudar o irmão necessitado.  Ela ficou sem graça e não soube explicar as razões religiosas da interdição. Que eu sabia! Eram razões dizimais. Não pagou, não frequenta.

Um pouco depois, ocorreu o escândalo do pastor televisivo norte-americano Jimmy Swaggart, flagrado com prostituta num motel no Texas.

Ao chegar a casa, ela me disse um tanto espantada:

­- Seu Saint-Clair, o pastor foi pego com a irmã num motel.

Ela, então, achava que a prostituta, naturalmente paga em dólares, fosse uma irmã de fé. Do alto (ou do baixo, nunca se sabe!) da minha total apostasia, disse-lhe uma frase que, tenho para mim, foi uma das mais bem cunhadas nesta minha vida de mediocridades. E que lhe causou estupefação.

– O pastor também é filho de Deus!

Sempre fui um cara comedido, centrado. Isto não é, absolutamente, virtude. Sou assim e pronto. Como se eu fosse canhoto, zarolho ou capenga. É minha condição, que não tem mérito nenhum. Mas, nesse caso do pastor – a esbórnia e a luxúria –, creio que todo ser humano deveria ter direito a desfrutá-las. Não acredito na conta a se pagar depois.

É mais ou menos o que pensa o pastor que agora foi pego com a boca na botija – o Marcos Pereira –, em seu apartamento de oito milhões de reais e muitas fieis passadas a fio de pênis abençoado.

Multiplicam-se no país as notícias dos homens “devotados a Deus” e suas práticas desregradas. Aos “homens de Deus” exige-se um mínimo de compostura, de vergonha na cara, de recolhimento e abdicação de bens materiais e prazeres mundanos. Se não, por que se dedicaram à causa? Melhor seria seguir o desregramento normal de qualquer um.

No entanto há um bando que sai por aí criando, cada um, a sua própria igreja. Não porque pense um pouco diferente do outro e tenha lá uma interpretação particular da palavra sagrada. Mas simplesmente para não dividir com o outro o produto do botim, do assalto, do achaque que faz à credulidade de uma multidão de desesperados, que esperam que a solução de seus problemas caia do céu.

Minha mãe conta o caso de um conterrâneo nosso lá de Bom Jesus – Bejota, para os íntimos -, analfabeto de pai e mãe, que se metia a pregador. Uma vez, indagado como fazia para saber o teor do texto bíblico sobre o qual fazer suas pregações, disse do alto de sua proverbial ignorância:

– Minha muié lê, e nóis tepreta!

Hoje, no Brasil, a melhor forma de se ganhar dinheiro, com isenção de impostos e sem dar duro num eito de lavoura, é fundar uma igreja. Ninguém sabe nada mesmo de p* nenhuma e está disposto a acreditar no primeiro espertalhão que lhe venda a ilusão de um mundo melhor, sob o pagamento de dízimo.

Para você, leitor amigo, ver até onde chega a canalhice desta gente, digo-lhe que vi a propaganda de uma pastora que criou um perfume com o cheiro de Cristo, a ser vendido, naturalmente, para uma multidão de inocentes úteis. Que é isso?!

Aprendi com a vida que os espectadores nunca ficavam até o final das sessões de cinema gratuitas. Naquelas que eles pagavam para ver, ainda que fossem de péssima qualidade, ficavam até o final, para justificar o dinheiro gasto.

É mais ou menos o que ocorre com essas pessoas que compram o Paraíso a prestações e enchem o rabo de espertalhões de dinheiro. E, quanto mais dinheiro, mais sacanagem na vida, pois o poder corrompe inexoravelmente.

Millôr Fernandes disse algo mais ou menos assim (li há muito e não me recordo exatamente da fonte): Desconfie sempre daqueles que ganham dinheiro com aquilo em que acreditam. O que é matéria de fé não pode render dividendos, penso como consequência.

Em todos os casos, como ando meio necessitado de fazer um pé de meia, acho que vou criar uma igreja. Porque posso ser tudo nesta vida, menos bobo! Além do mais, ainda há a hipótese de passar na cara algumas fieis mais bonitinhas.

Meu guru Millôr Fernandes, um dos homens mais lúcidos deste país (imagem em veja.abril.com.br).