POEMA DO AMOR INTERROMPIDO

Há quanto tempo não te abraço!
Há quanto tempo não te beijo,
Não chego junto num cafuné,
Não saímos de mãos dadas pelo calçadão da praia
Nomeando as pedras no mar
Em que batem ondas seculares:
Pedra da Baleia, Pedra da Tartaruga, Pedra do Tubarão,
Nomes escolhidos por teus sentidos de menino.
Quanto tempo, meu pequeno amigo!
Que até nem acompanhei teu crescimento nesse ano tão sofrível
Porque desgraçadamente
Ao avô e ao neto
Tão pouca coisa foi possível.

Francisco com bigode de açaí (foto do avô).

MARIA ANDARILHA

(Para Maria, minha netinha.)

Um dia
Maria acordou andarilha
Andou da porta do quarto
Por uma trêmula trilha
Dos braços do seu irmão
– O Bruno então sorria
Ao ver o risco no chão
Tão invisível se via –
Até onde os olhos davam
O que fez a Gabriela
Que de tudo desconfia
Achar que a irmã mais nova
Não conseguisse a magia
De andar por suas pernas
Tão pequenina inda é ela
Mas a miúda Maria
Ciosa do que queria
Andou dos braços do Bruno
Até a porta da cozinha!
E foi a primeira vez
Que tal fato acontecia.
Agora anda por pátios
Playgrounds e companhia
Pisando passadas firmes
Enquanto o vento assovia
Nos seus cabelos penteados
Como maria-chiquinha.

 

Imagem relacionada

Diego Velázquez, As meninas, 1656; Museu do Prado, Madri.

PÔR DO SOL

 

Não ponho no pôr do sol
Os olhos que não tenho
Tento apenas ver aquilo que entrevejo
– como se fosse impossível vê-lo –
No largo panorama em que o sol dardeja
Os raios luminosos de longe amortecidos
Por serras nuvens árvores
De um céu capcioso – ou nem tão isso –
Que possam enternecer o modo impreciso
Com que costumo ver
Com certa incerteza
O grande espetáculo da (in)visível natureza.

 

Pôr do sol na Praia do Gragoatá, Niterói-RJ (foto do autor).
Pôr do sol na Praia do Gragoatá, Niterói-RJ (foto do autor).