POEMAS MÍNIMOS IV

 

POEMINHA SINESTÉSICO (com aliteração)

Ribombam cores tépidas
Sob lençóis sombrios
A pele recende a salgado
Que silva em rubros cios

POEMINHA ANESTÉSICO

Não sinto dor fome ou sede
Estou na rede deitado informe
Até que o tempo transforme em gente
Aquilo que me é apenas aparente

POEMINHA PROFÉTICO

Vai a lua a caminho do dia cedo
O sol vem a reboque fazer do medo
Da noite que passou soturna
O carnaval de um dia pleno

POEMINHA ÉTICO

Todo partido parece íntegro na cobiça
E não há parceiro que não ganhe o seu
A ética fraqueja nas dependências do poder
Enquanto a lua peja o sol rasteja e o cidadão moureja

POEMINHA COM RIMA E SEM SENTIDO

Embora em Bora-Bora a aurora surja
Pintando de cores a manhã
Agora em minha horta a desoras
Coaxam rãs nos canteiros de hortelã

 

Baía de Guanabara ao pôr do sol (foto do autor).

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PÔR DO SOL

 

Não ponho no pôr do sol
Os olhos que não tenho
Tento apenas ver aquilo que entrevejo
– como se fosse impossível vê-lo –
No largo panorama em que o sol dardeja
Os raios luminosos de longe amortecidos
Por serras nuvens árvores
De um céu capcioso – ou nem tão isso –
Que possam enternecer o modo impreciso
Com que costumo ver
Com certa incerteza
O grande espetáculo da (in)visível natureza.

 

Pôr do sol na Praia do Gragoatá, Niterói-RJ (foto do autor).

Pôr do sol na Praia do Gragoatá, Niterói-RJ (foto do autor).

CENA NO MERCADO

Lá vai ele
Lá vai ela
Ele novo
Ela velha
Ele com a bengala à esquerda
Manquitolando da perna
À direita ela e sua bengala
Caída a espinhela
Ele para
Ela alheia
Passa desembestada
Vai encontrar a amiga
Com a bengala amarela
E vão de conversa ligeira
Alternando bengaladas

 

Imagem em cadernosdedanca.wordpress.com.

EM MIRACEMA (II)

Em Miracema
Quando você não tiver mais nada a fazer
Escreva um poema
Assim a esmo
Ou então mate um porco
E faça linguiça chouriço e torresmo
E dê a tarefa por completa
Quando recitar os versos entre conversas
Palavra molhada língua solta
Às gargalhadas
Com a última patacoada
Do parceiro que divide com você
O líquido sabor de uma cerveja
Umbigo encostado ao balcão do botequim

E que assim seja!

 

Árvore ao pôr do sol em Miracema (foto do autor).

Árvore ao pôr do sol em Miracema (foto do autor).

 

É DURO SER POETA

É duro ser poeta
Quando uma lâmpada queimada
Grita por sua troca
E a escada com o degrau degradado
Ainda pode precipitar ao chão
Aquele que rimará amor com dor
Beijo com pão de queijo
Teu corpo adocicado com algum pote de melado

A literatura há de esperar por certo
Que esta vida dura seja consertada
Antes do próximo soneto

 

Imagem em papeisdeparedehd.com.