EM DEFESA DAS CALÇADAS DE PEDRAS PORTUGUESAS E DO QUEIJO DA SERRA DA ESTRELA

Hoje as tevês estão com dois itens na pauta de notícias que me preocupam bastante. Costumo ficar preocupado com questões menores. As maiores, aquelas cabeludas, deixo para os políticos que elegemos resolverem, pois sei que sempre vai rolar algum, e eu não estarei no bolo da divisão. E também porque sou muito miudinho para resolver grandes questões.

Porém uma das questões de hoje diz respeito a uma consulta pública que um bairro de Lisboa está fazendo aos seus habitantes, para saber se querem manter ou substituir as tradicionais calçadas de pedras portuguesas, por uma mais “moderna” feita de concreto. A outra é a recente implicância do Parlamento Europeu contra o queijo da Serra da Estrela.

Já de saída quero afirmar que sou contra a substituição das calçadas tradicionais, que se espalharam por outros países, sob a alegação de que são perigosas para os transeuntes. Substituí-las por calçadas de concreto não resolverá o problema das quedas, se nenhuma delas tiver manutenção. Os buracos produzidos em qualquer tipo de calçada devem ser tratados de imediato. O que se exige é uma manutenção preventiva, a fim de que não se desfigure uma cidade, em função da presunção de se proteger a saúde do seu morador. Em qualquer calçada, haverá quedas, pois somos propensos a cair, já que andamos com duas pernas. Necessário, então, é manter a calçada em ordem.

Quanto ao queijo, aí acho a coisa até suspeita! Alega o Parlamento Europeu que a flor do cardo, que é utilizado na fabricação do queijo como coalho, não é reconhecido como tal pelo douto Parlamento. À merda com a sabedoria do Parlamento! O queijo existe desde o século XII, é um dos produtos mais emblemáticos de Portugal, reconhecido no mundo inteiro por sua qualidade excepcional e paladar indescritível. Vem agora, depois de quase mil anos, o Parlamento Europeu dizer que desconhece a flor de cardo com esta função! E o que sabe de sabores, paladares, prazeres, o Parlamento Europeu? O que entende ele de culinária, queijaria e quejandos, para ficar cagando regras sobre a utilização popular e tradicional de uma cultura nacional?

Há alguns anos ele se meteu a cagar regras sobre a qualidade das bananas importadas pela Europa, o que praticamente impossibilitaria a entrada da fruta no continente. Os alemães, os maiores comedores de bananas do mundo, se revoltaram e o Parlamento Europeu retrocedeu nas exigências.

Às bananas o PE!

Há pouco, e já referi isto em postagem em Asfalto&Mato, a Secretaria de Saúde de Bom Jesus do Itabapoana, minha terra natal, se meteu na comercialização de queijos artesanais, proibindo sua venda no comércio local. É uma pretensão descabida! Que se faça a fiscalização sobre a higiene na produção, mas que não se leve um tradição culinária ser extinta por pretensa preocupação com a saúde pública.

Vejam esta rápida história, para notarem a diferença entre comportamentos. Quando tinha lá meus vinte anos, fui acometido por uma sinusite incomodativa. Meu tio avô Raul Figueiredo, quando soube, disse para minha mãe que tinha um remédio tradicional infalível: buchinha do norte. Fui, então, ao médico em Itaperuna – Bom Jesus não tinha médicos da especialidade, à época –, para me certificar de que, de fato, era sinusite. Feito o competente exame de raio-X, o médico confirmou a sinusite e passou uma receita, que, segundo ele, iria aliviar os sintomas, já que, àquela altura, a cura era difícil. Corajosamente lhe disse:

– Doutor, vim aqui ao senhor para confirmar se é realmente sinusite. Tenho um tio que faz uma infusão de buchinha do norte que é tiro e queda.

Sabiamente humilde, o médico me respondeu:

– Pode usar. Infelizmente não posso receitar, mas é a única coisa que cura sinusite.

Vejam a diferença de postura de um homem de ciência, que sabe reconhecer o valor das tradições e do saber do povo.

Agora, os pretensiosos deputados do Parlamento Europeu se metem a besta com uma das joias de Portugal!

Em defesa das calçadas de pedras portuguesas e do queijo da Serra da Estrela! Abaixo o Parlamento Europeu e o concelho do bairro lisboeta!

 

Queijo da Serra da Estrela (imagem em entrepratosecopos.xpg.uol.com.br.

RECORDAÇÕES DE PORTUGAL

Revirando nossas caixas de fotografias, encontrei a foto abaixo. É da aldeia de Azenhas do Mar, pertencente ao concelho de Sintra, freguesia de Colares. Devo confessar aos amigos leitores que não entendo a divisão política de Portugal. Talvez seja o equivalente a vila, no Brasil. Mas não é isso que interessa aqui.

A foto em questão foi obtida quando da viagem que Jane e eu, acompanhados dos diletos amigos Laura Dutra e Rogério Fernandes, fizemos por Portugal, Espanha e França em setembro/outubro 2003. Lá se vão, então, dez anos e alguns meses.

Eu havia visto numa revista portuguesa de viagem foto semelhante, com informações sobre a vila, motivo por que ela foi incluída no roteiro que fizemos desde Lisboa até Paris, dirigindo um carro de aluguel.

Como à época ainda não se dispunha de GPS, levamos um poderoso atlas rodoviário da Península Ibérica e outro da França tão detalhados, que, em tom de pilhéria, dizia ser possível encontrar as casas de seu Manuel, dom Pablo e monsieur Jean.

Saímos de Lisboa em direção a Sintra, para conhecer a cidade e o famoso Palácio da Pena e de lá, depois do almoço, seguimos para Azenhas do Mar.

Ocorreu que, lendo o mapa rodoviário, nos metemos por uma estrada que, a cada quilômetro, se mostrava menos povoada, embora isso seja raro por aqueles lados de Portugal, país pejado de cidades e vilas por onde se anda. É quase impossível andar cinco minutos nas estradas, sem que se veja uma casa, no mínimo. Por isso é que paramos diante de uma espécie de bar-mercearia para pedir informações sobre a correção de nosso trajeto. Atendeu-me uma simpática mulher com seu filhinho ao colo. Ela, então, chamou o marido, dizendo que ele me poderia dar a informação com mais detalhes. Disse-lhe que éramos brasileiros em férias por terras lusitanas e que estávamos indo em direção a Azenhas. Ele confirmou o trajeto, explicando que, embora fosse um pouco mais distante que outras opções, era até mais atrativo, pelas belezas do caminho. Tão logo me dirigi para o carro, parado dez metros adiante, ouvimos fogos de artifícios. Voltou-se o meu informante lusitano rapidamente e me perguntou:

– Estás a ouvir os fogos?

Como respondi afirmativamente, ele continuou:

– Agora estou a lembrar. A cada dezessete anos, há a procissão de Nossa Senhora dos Navegantes aqui na região, e ela está a acontecer neste exato instante. Não vás por aí!

E me indicou outro trajeto.

Rimos bastante da coincidência de estarmos ali exatamente no dia, dezessete anos após, da dita procissão. Contudo seguimos sua orientação e demos em outra estrada, também interrompida por guardas rodoviários, que nos indicaram o caminho a tomar, a fim de que chegássemos a Azenhas do Mar. Chegamos já quase no fim da tarde e pudemos desfrutar desta vista maravilhosa: uma aldeia branca como um presépio encarapitada sobre um promontório diante do Atlântico.

Azenhas do Mar, Portugal, set/2003 (foto do autor).
Azenhas do Mar, Portugal, set/2003 (foto do autor).