ANOTAÇÕES À MARGEM DO JOGO

 

Ontem o Botafogo não jogou bem contra a Portuguesa, mas ganhou. Três pontos e a liderança do Brasileirão.

No primeiro tempo, não entramos no Canindé. Quiçá não tenhamos desembarcado em Congonhas ou no Terminal Tietê (a grana do time anda um tanto curta). Até mesmo Seedorf, sempre destaque por sua técnica refinada, não jogou nada e reclamou além da conta com os companheiros, chegando a dar um tapa no braço do Gilberto, enquanto discutia com ele.

Embora o holandês seja um jogador diferenciado – e muito rodado – não tem o direito de tratar assim um colega de clube, ainda que este seja um garoto inexperiente.

Outro que tem deixado a desejar – e já há alguns jogos – é o uruguaio Lodeiro. Sempre que ele é convocado para a seleção do seu país, volta sem reconhecer a bola. Sua saída coincidiu com a melhora do time no segundo tempo, mas não sei realmente se foi isso.

O que me parece que ocorreu foi que, com a saída de Lodeiro, Rafael Marques se deslocou para a esquerda e deu melhor seguimento às jogadas que estavam ocorrendo por ali.

Então melhoramos um pouco. Soubemos superar a desorganização do primeiro tempo e certa apatia de alguns, para construir um placar em que já não acreditava mais: 3×1. Talvez mesmo a Portuguesa, apesar de seu fraco desempenho no campeonato, não merecesse neste jogo tal placar. Porém o futebol não tem complacência, desde que não ajam forças estranhas ao jogo, e a Lusa paulista sucumbiu à melhor equipe.

Ganhamos e somos líder.

Não vemos ninguém na nossa frente!

Imagem em jocapereira.wordpress.com.
Imagem em jocapereira.wordpress.com.

LÍNGUA ESTROPIADA

Começa que depauperado não é o cara que fez cirurgia de fimose.

E aí as pessoas vão confundindo as coisas, usando as palavras de qualquer maneira, sem pensar um pouco. Esquecem-se de que o pensamento precede a expressão. Então é preciso refletir, antes de abrir a boca e deixar sair uma enxurrada de besteiras.

Tive uma colega de trabalho que fingia ter feito Direito – ou, de fato, teria feito, só que nas coxas – e se metia a falar difícil, a usar frases feitas, expressões consagradas, completamente deslocadas do contexto ou, simplesmente, misturadas. Nessas oportunidades, sempre que ia soltar uma pérola, ajeitava os óculos, como que a conferir autoridade no que diria. Ouvi-a, por exemplo, dizer que certo fato era “o inferno de Cervantes” e que uma atitude temerária de um colega, em prol da categoria, havia sido uma “atitude pixotesca”.

Há pessoas que ouvem o galo cantar, sem saber onde. Querem colher o ovo, antes que a galinha o ponha.

A língua dever servir como instrumento de comunicação. Já dizia Chacrinha, o grande filósofo da televisão brasileira (Hahaha!), que quem não se comunica se trumbica.

Há pessoas que falam, falam, falam, e, no final, você diz: Hã? E lá se foi todo aquele caudal verborrágico pelo ralo abaixo.

Por outro lado, a sabedoria popular diz que em boca fechada não entram moscas, num sério conselho a que nos mantenhamos calados. Ou, pelo menos, que falemos o menos possível. Como recomendado nos ônibus: só o indispensável.

Contudo falar só o indispensável pode ser muito pouco, muito lacônico, conciso.

Pode não parecer, mas eu sempre tive um grande pendor pela economia das palavras. Certa vez, a professora de Literatura Francesa, no Instituto de Letras da UFF, pediu que respondêssemos às questões da prova sobre determinada leitura de um livro, com concisão. Ao trazer a prova corrigida, verifiquei que ela me tirara dois pontos, embora minhas respostas tivessem tocado os pontos certos. Reclamei. Ela alegou que as respostas haviam sido muito curtas.

– Mas a Senhora pediu concisão!

– Nem tanto, nem tanto!

E perdi lá meus dois pontos. Foi o que me fez lutar um pouco contra essa tendência.

Também quem fala menos, menos estropia a língua. Menos tem oportunidade para errar.

Uma colega de trabalho, há algum tempo, me perguntou por que as pessoas no Rio de Janeiro dizem “soltar do ônibus”. Respondi que é porque falam errado. Deve ser “saltar do ônibus”. “Ah!”, disse ela, compreendendo a expressão.

Semelhantemente ocorreu comigo, logo que cheguei a Niterói. Havia um camelô na esquina da Avenida Amaral Peixoto com Visconde Uruguai, que vendia uma traquitana para picar temperos. Aos gritos e fazendo funcionar o aparelho, anunciava:

– Não resta prática, nem tampouco habilidade!

Comentei com meu amigo Walter Bretas, manifestando meu estranhamento no uso do verbo restar. Ele, que também é de Niterói, e conhecia o camelô, deslindou o mistério:

– Ele quer dizer: não requer prática.

– Ah! – fiz eu, entendendo a linguagem estropiada do camelô.

Coitada da língua!

Imagem em seriesfreaks.blogspot.com.