TÍMIDA PRIMAVERA

Ainda é timida a primavera. Pelo menos, é o que pude constatar em Itaipava neste último fim de semana. Ficamos hospedados numa pousada a cerca de seis quilômetros da vila, em lugar de conforto visual e contato com a natureza, e tive esperança de que que teria a primavera a nos inundar. Mas estamos nos trópicos, apesar da altitude do distrito de Petrópolis, e as flores esperadas ainda são muito poucas, quase nada. Mesmo assim, me municiei da câmara fotográfica e saí a cata de alguns exemplares. Vi até jacus no espaço entre árvores frondosas. Embora eu seja de pequena vila do interior, só sei de algumas dessas aves por ouvir falar. Meu pai sempre se referia a diversas delas, mas me dizia que estavam sumidas, em virtude de excesso de caça. A política de preservação tem feito um grande bem à nossa fauna. Em setenta anos de vida, foi a primeira vez que vi jacus. Francisco, com quatro, já teve esta oportunidade.

Aí estão alguns registros da primavera na Serra Imperial de Petrópolis.

  

MUDANÇA DE ESTAÇÕES

O interessante das mudanças de estações no Brasil, especificamente na região do Rio de Janeiro, é que elas mudam e você quase não percebe.

– Ué, já mudou?! Nem senti! Estava distraído.

Até poeticamente se pode cometer alguma coisa falando de outono, inverno, primavera e verão, embora não sintamos verdadeiramente na carne alterações substanciais de uma para outra.

Agora mesmo entrou o outono. Saudei-o com mais um poema a ser postado em breve em Asfalto&Mato. Mas percebe-se que, na realidade, ele não entra de sola, como beque ignorante. Talvez no Hemisfério Norte, na Islândia, por exemplo, destino preferido de minha sobrinha Sheila, para ver fendas geológicas e catástrofes naturais eternizadas em gelo e neve, tais câmbios se façam mais sensíveis. Aqui, não!

Aqui, pelo menos por enquanto, tudo continua como dantes. Andou até fazendo uma temperatura um pouco melhor, isto é, mais branda. Contudo, neste verão, também ocorreram dias de termômetro civilizado. Em dezembro, por exemplo, nem tanto calor fez. Apenas em alguns poucos dias, o bico do maçarico ficou ligado, sobretudo em janeiro e fevereiro.

Vi, certa vez, num jornal televisivo local, diante do mar do Arpoador, um meteorologista falando sobre a chegada do outono. Dizia ele, então, que essa estação é um tanto sem personalidade: ora quer ser verão, ora quer ser inverno. Pode ser. Não sou psicanalista ou psicólogo, para chegar a esse ponto de análise.

Possivelmente as pessoas alérgicas sintam, com um pouco mais de intensidade, a chegada do outono. Diziam-me no curso primário, lá em Carabuçu, na década de 50, que é o tempo dos frutos, que o ar estaria cheio de pólen para a fecundação das plantas. Realmente nunca prestei muita atenção a isto. Quando a goiaba estivesse madura, eu aproveitava. Ou jenipapo! Porém nunca sabendo a época em que isto se dava.

O inverno, por seu lado, como diz Priscilla Ann Goslin, em seu livro How to be a carioca, destinado a turistas que vêm ao Rio de Janeiro, dura uma semana. Quando é muito rigoroso, dura duas. E sempre com temperaturas suportáveis para suecos e finlandeses, siberianos e esquimós.

Depois do inverno vem a primavera. E eu nunca notei nada de diferente. Talvez aquelas duas semanas de inverno rigoroso não aconteçam mais. Porém a profusão de flores, a explosão colorida da natureza, nunca se percebe. A não ser que você seja trabalhador em floriculturas em Holambra, Nova Friburgo ou Barbacena. Ou trabalhe no CADEG, em Benfica, vendendo flores e plantas. Daqui do décimo terceiro andar onde moro, nada se nota de primaveril no ar.

Provavelmente apenas o verão seja a nossa grande estação, apesar de algumas vezes aprontar com dias mais suaves. Ela começa logo depois do fim das férias escolares do meio do ano e termina um pouco antes das festas de São João do ano seguinte. A trégua, no interregno, tenho a impressão, é só para permitir que se possa acender uma fogueira, assar uma batata e botar para dentro do peito algumas doses de quentão.

Ah! e também encher de biquínis mínimos nossas praias.

Acho que vou oferecer meus conhecimentos meteorológicos para uma emissora de tevê por aí. Sou muito bom nisso!

Inverno em Carabuçu (imagem em hypescience.com).

PRIMAVERA, VERÃO, OUTONO, INVERNO

 

Imagem em blog.ibero.it.

Como diz o músico poeta, “Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos…”, setembro está pelo meio e, oficialmente, ainda estamos no inverno. A cada ano, o seu anúncio traz a esperança da primavera.

Quando criança pequena lá em Carabuçu – e aluno do Grupo Escolar Marcílio Dias –, gostava muito desse nome: primavera. Ele me sugeria uma prima bonita, morena, por nome Vera, que chegaria a qualquer momento. A professora, ao nos ensinar sobre as tais estações do ano, garantia que ela era a das flores, a preferida dos poetas e dos amantes. Menino, nunca notava muito nelas, a não ser no inverno, em que a temperatura costumava cair mais.

Naquele tempo, lembro-me de que – deveria ter meus oito ou nove anos –, num mês de julho, o termômetro do meu pai marcou oito graus. Acho que, depois, nunca mais fez tanto frio assim. O que mais nos afligia, o que mais regulava nossas vidas, era a alternância de chuvas torrenciais e estiagens prolongadas.

Aqui no Brasil as estações do ano são semelhantes às estações de trem de subúrbio: tudo mais ou menos parecido, sem muitas distinções e charmes especiais. Basta dizer que, nesta semana mesmo, houve uma sucessão delas: segunda-feira foi verão; terça, primavera; quarta, outono; e ontem, quinta-feira, inverno. Hoje, sexta-feira, ainda não sei bem qual a predominante. Olhando pela fresta da janela, presumo que seja outono, com cara de inverno. Ou inverno, com cara de outono.

Talvez por isso é que encontro alguns vizinhos de narizes vermelhos congestionados, olhos mortiços, reclamando de gripes monumentais, com duração de mês e tal. Até mesmo as gripes são diferentes.

Eu mesmo nunca fui muito chegado a gripes e resfriados – por que não sei – e, agora também, uso de minha prerrogativa de terceira idade para tomar a tal vacina antigripal, que deve funcionar realmente.

Daqui a pouco entrará a primavera com suas promessas retóricas, já anunciando o calor do final de 2012 e do princípio de 2013, com as catástrofes das tempestades.

Talvez a natureza saiba distingui-las perfeitamente e faça sua parte. Nós que estamos aqui na superfície, fazendo o diabo para atrapalhar, é que teremos de pagar pelas intervenções danosas ao planeta, que tentará, de todas as formas, fazer valer o que ele tem planejado para funcionar há bilhões de anos: a diferença entre as estações. Como as dos metrôs de Moscou e Estocolmo, em que cada estação é completamente distinta uma da outra.