NO TEMPO EM QUE NÃO HAVIA PSICOLOGIA

Há cerca de uns oito/dez anos, reclamei com minha mãe sobre o fato de não ter aprendido a nadar, em moleque, lá em Carabuçu, por culpa dela. Minha irmã Cristina, psicóloga, disse-me certa vez, em tom de pilhéria, que para uma pessoa ter problemas na vida basta que tenha mãe, o que, convenhamos, significa haver problemas o tempo todo, para todo mundo. Ninguém nasce de chocadeira!

Naquela época, Dona Zezé proibia os filhos – eu e Guth – de ir para os valões, sem um adulto responsável. Nos seus cuidados de mãe, não queria ser surpreendida por notícia de afogamento de menino em algum poço traiçoeiro. Seria dor demais para seu coração materno, moldado na canção de Vicente Celestino.

Sou mais velho que o meu irmão dois anos e pouco. Eu jamais fui para a beira dos valões que contornavam a vila. Guth nunca deixou de ir. Por isso, ele aprendeu a nadar; eu, não. Sempre fui obediente; o Guth flexibilizava um pouco o ato de obedecer. Vejam que não estou dizendo que eu tivesse méritos e ele fosse o filho desesperado. Eu era assim e pronto. Cada um a seu talante.

Então reclamei com ela o fato de sempre dar uma ordem única para os dois filhos, bem diferentes entre si. E lhe atribuí diretamente a culpa:

– Mãe, não sei nadar até hoje por culpa sua. Eu era obediente e não ia para os valões. A senhora tinha de saber que eu e o Guth éramos bem diferentes.

Minha mãe, embora não tenha tido educação formal, sempre foi uma mulher sábia e me respondeu com o seu proverbial bom humor:

– Meu filho, na época não havia psicologia. Aí era uma única ordem para os dois.

E ai de quem não cumprisse e fosse pego em flagrante delito!

Claro que já havia psicologia por aí, pelos estrangeiros ou nas cidades grandes. Talvez nas casas de gente rica e metida a besta. Naqueles cafundós que era Carabuçu, numa família simples de interior, isto era matéria desconhecida. Tempos depois a escolarização das pessoas começou a difundir algumas dessas ideias estranhas ao viver tradicional, e as famílias passaram a, canhestramente, aplicar seus postulados. Em lugar de boas chineladas, de mandar a castigo com a cara para a parede, os pais experimentaram dialogar com os filhos. Passaram a levar em conta as diferenças individuais. Flexibilizaram, por seu turno, a antiga lei de chineladas, tapas na bunda e castigos.

Aí a coisa desandou.

O que há de gente complicada hoje em dia, por conta dessa flexibilização é um despropósito! Nunca os consultórios de psicologia estiveram tão cheios de gente mal adaptada à existência, sem condições de, por si só, levar uma vida mais ou menos normal, naquilo que se pode entender por normalidade. Se é que haja normalidade nisso!

Felizmente, eu mesmo nunca necessitei de lançar mão de conselheiro externo. Vou caminhando conforme os caminhos se fazem, sem turbulências que não possa suportar.

Só não sei nadar até hoje. Por isso é que gosto tanto de banho de chuveiro.

E a culpa é da minha mãe!

 

Foto de Silva Júnior/Folhapress (em www1.folha.uol.com.br).

RÉVEILLON

Essa história de réveillon só foi aparecer em minha vida quando vim para Niterói, em 1967.

Na minha terra, à época, não havia comemorações de passagem de ano. Ou, antes, não se dava importância ao fato, afinal percebido corriqueiro como toda mudança de dia e mês. Talvez o que mais marcasse, na minha casa, fosse a substituição na parede da antiga folhinha do Sagrado Coração de Jesus por uma nova. Gesto, aliás, que minha mãe repete até hoje.

Mesmo em Niterói, por aquele tempo, não ocorriam os festejos de agora. Porém me lembro de que, um pouco depois da minha chegada, fiquei na pensão onde morava, durante a virada do ano, e, para não deixar a data passar em branco como de hábito, comprei uma garrafa de cidra, a única que meu dinheiro e meu conhecimento de bebidas permitiam adquirir então.

Fui para o quarto, que dividia com Luís do Bá, meu conterrâneo que viajara para Bom Jesus, e Milton Guanabara, que fora noivar ali por perto, onde sua amada morava.

Tomei a metade da cidra. A outra metade deixei para o Milton, numa tentativa de confraternização sem o outro. Coloquei a garrafa sobre a mesinha aos pés da sua cama e me deitei. Não me lembro se já havia rompido o ano.

Como o Milton demorasse a chegar e com receio de que o calor do verão estragasse a bebida, tomei a outra metade e fui dormir ligeiramente mareado. Acordei no outro dia como se nada acontecera.

Não dei muita importância ao fato de estar sozinho. Nunca me incomodou muito ficar só, mas devo confessar que, olhando retrospectivamente, foi um tanto estranho. Não havia quase ninguém na pensão naquele réveillon. E, embora a casa ficasse na primeira quadra da praia, Icaraí não tinha a queima de fogos que foi adotada posteriormente.

Quando Jane e eu começamos nossa história, em 1973, as coisas tomaram outro rumo, completamente diverso. O que eu tinha de tímido, reservado, sossegado, virou fumaça, porque ela era (é ainda) justamente o oposto disto. E o réveillon, assim como todos os outros tipos de comemoração, entrou na agenda da minha vida.

E passei a comemorá-lo na esteira da animação da Jane. Fizemos boas confraternizações em nossa casa, cercados dos amigos de sempre. Estivemos em outras tantas. Viajamos para alguns lugares em busca de diferentes comemorações, diferentes festas. Algumas grandiosas, outras simplíssimas, quase inexistentes. Em grandes metrópoles e em vilas. Em praias e em serras.

Em Niterói, sempre nos dirigimos para a Praia de Icaraí, onde hoje se concentram tais festejos.

E, ao longo do tempo, noto que, cada vez mais, as pessoas se preocupam em manifestar uma alegria inusitada, uma euforia quase carnavalesca, sobretudo no momento da contagem regressiva para a chegada do ano novo. 

Embora possa dizer que já estou mais habituado agora, continuo achando bastante esquisito que nos juntemos num determinado local apenas para comemorar a mudança de calendário, que, na verdade, não representa mudança nenhuma. Tudo continua na mesma. É só prestarmos atenção às contas que vão chegando para nós – IPTU, extratos do cartão de crédito, conta de energia, telefone, matrícula das crianças, IPVA, multas das infrações cometidas há um/dois meses, e por aí afora. Mais todos os compromissos que estão a nos esperar, assim que a ressaca nos deixar pensar um pouco mais.

Nossos credores, por exemplo, não estão nem aí para o novo ano. Aliás, estão sim: mandam suas novas contas, a nos sinalizarem que tudo continuará como antes.

E ai daquele que não continuar pulando feito cabrito, para dar conta de tudo.

Em todo caso: ATÉ O PRÓXIMO RÉVEILLON!

Imagem em blogs.ne10.uol.com.br.