NINGUÉM ESTÁ LIVRE DE UM MAU OLHADO

A superstição é nossa companheira desde o tempo das cavernas. Antes mesmo de meter o primeiro tacape na cabeça da primeira mulher, já fazíamos mandingas paleolíticas. Ainda que atualmente um e outro não o sejam, boa parte do gênero humano tem lá suas crendices, seus medos, suas fés, e procura o auxílio do transcendente para resolver certas questiúnculas cotidianas.

O brasileiro é visivelmente supersticioso. Se for botafoguense, aí a coisa complica. Caso seja baiano, então, é bom nem tentar medir o grau de superstição a que se chega.

Aliás o transcendente, este que aí está não sei onde e como, é uma entidade da moléstia. Qualquer civilização, qualquer agrupamento humano, qualquer casa tem suas devoções, a que lançar o apelo na hora fatídica do aperto.

Se os povos com cultura menos complexa são cheios de superstição, nem por isso os de cultura mais elaborada ficam livres dela.

Estou fazendo essas reflexões iniciais apenas no intuito de dizer que encontrei um despacho na civilizada Dinamarca, mais especificamente em Copenhague.

Íamos Jane, eu e uns amigos caminhando pelo cais do porto de Nyhavn (Porto Novo) na capital dinamarquesa, para apreciar a cidade, quando demos de cara com um despacho da noite anterior, junto ao canal. Paramos para observar, pedimos licença aos orixás nórdicos, que naturalmente foram invocados nele, e passamos ao largo com a reverência possível. Para não dizerem que estou mentindo, fiz uma foto (esta que ilustra a postagem).

É bem verdade que faltam àquele alguns elementos encontrados em nosso despacho tradicional. Mas também, haveremos de convir, que lá eles são outros, têm outras exigências. Farofa, galinha preta, por exemplo, não fazem parte do ritual da superstição escandinava.

Contudo ocorreu-me outra questão: será que, por ser um país de primeiro mundo, rico, sem graves problemas sociais, com baixíssimo índice de corrupção política, a mandinga de lá faz mais efeito do que a de cá? Ou será justamente o contrário: as entidades do além são mais propícias a socorrer os deserdados da sorte, que vivem em condições tão adversas como nós?

Esta é uma dúvida que me ficará para sempre sem solução.

Enfim, lá também se arreia despacho tal como aqui.

Saravá!

Despacho em Nyhavn, Copenhague (foto do autor).

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SEXTA-FEIRA, 13

Toda vez que chega sexta-feira, 13, dou gargalhadas de descrença, descrédito e débito automático. Sobretudo se ela for como a de hoje: bonita, céu de brigadeiro, cheia de fotogenia. Talvez até tenha tido algumas névoas secas pela manhã. Mas não sou dado a acordar com as galinhas. Portanto, para mim, ela começou com os auspícios dos bons dias.

Até mesmo as perdas que temos vida afora são previsíveis, contabilizadas no tal livro da vida. Sem cabalística, nem apoplexia. É assim mesmo.

A não ser que você estivesse trabalhando nas Torres Gêmeas, naquele 11/9/2001. Naquele exato momento, eu cortava meu cabelo no salão do Shopping 211 da Moreira César e, sem os óculos, pude ver um borrão calcinando na tela da tevezinha, através do espelho à minha frente. Parecia um daqueles filmes que o dono do salão sempre seleciona, para amenizar a espera dos clientes.

Nem me lembro se era sexta-feira. Só não era 13. Muito menos, agosto. Baita azar, o deles, os ianques, tão chegados a uma superstição.

Naquele instante, no Hemisfério Norte ainda era verão. Aqui, final de um inverno que nunca chega a ser rigoroso, embora gostemos de nos cobrir assim que o termômetro atinja 21ºC.

Já passei por muita sexta-feira, 13, nos mais diversos meses e, de memória, nenhuma trouxe o que não está previsto no calendário. Nem mesmo as de agosto, tão mal afamadas.

Uma bobajada essa de estar atento a um dia qualquer, só porque nosso medo secular inventou chifres em cabeças de cavalos.

Hoje pela manhã, ao tomar o café, o rádio sintonizado numa estação, a dona fulana estava dando uma simpatia para que os prezados ouvintes pudessem passar incólumes pelo dia aziago. E sempre com aquela frasezinha mixuruca: Se não fizer bem, mal não faz. Mais ou menos como certos placebos por aí.

Por isso comecei a gargalhar logo de manhã. E não anotei a simpatia, porque simplesmente o que vier a gente tem de traçar.

Apesar de tudo, espero estar vivo, lépido e fagueiro amanhã, porque ainda tenho muita coisa a não fazer nessa minha vida de aposentado.

Boa sexta-feira, 13, para todos!

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Amendoeiras de inverno (foto do autor).

CORRENTES

Não sou dado a correntes de nenhuma espécie e de nenhuma motivação. Sejam elas religiosas, econômicas, metafísicas, literárias, políticas ou apocalípticas.

Lembro-me de uma que chegava ainda em forma de carta selada, décadas atrás, via Correios, com recomendação de que copiasse a muque vinte textos semelhantes e mandasse a meus amigos, sob pena de ter a vida transformada num inferno, como ocorrera com um certo Capitán Gusmán, do glorioso exército venezuelano, o qual, tendo recebido  a dita corrente, por motivos de descrença, não a manteve e foi rebaixado ao posto de soldado raso num par de meses, foi corneado pela mulher e teve a casa incendiada por um raio, numa noite de tempestade. Era muita desgraça para quem a quebrasse, como aquele infeliz.

Jamais, em tempo algum, por nenhum motivo, acreditei nesse tipo de baboseira. Principalmente depois que deixei de acreditar em Deus. Ora, se eu não acredito em Deus, por que, cargas d’água, vou acreditar num monte de asneiras que o ser humano inventa, para aporrinhar seu semelhante. Que é, na verdade, o que o homem mais sabe fazer: aporrinhar seu igual.

Por conta disso, também deixei de acreditar em homeopatia, em alopatia e na ciência de um modo geral. Tudo porque descobri, durante minha vida de professor, que as verdades científicas, na verdade, são mentiras nem tão sinceras, cuja validade tem prazo limitadíssimo, sobretudo com o passar do tempo.

O que é verdade é o que não é verdade. Aliás, o que não se arvora a verdade.

Qualquer grande texto literário, feito com cuidado, por autor que conhece – ou conhecia – seu ofício ainda vale até hoje, não importam os séculos decorridos de sua produção. Ao contrário, qualquer texto científico de cinquenta anos atrás é hoje tido como crendice e passível de boas risadas quando o lemos.

Assim, então, não creio em correntes. Apenas nos grilhões que nos forjava da perfídia astuto ardil, como reza o Hino da Independência, composto pelo glorioso Dom Pedro I, misto de governante, músico e fauno, em parceria com o jornalista, político e poeta Evaristo da Veiga, que acabou por se tornar uma rua no Centro do Rio de Janeiro.

E não é que, vez em quando, recebo via e-mail correntes as mais diversas.

É muito engraçado: a tecnologia avança, mas o sero mano (conforme grafia de vestibulando) continua a mesma besta quadrada de sempre. Continua acreditando nas possibilidades impossíveis, com promessas vindas dos confins dos bits, dos bytes, do cacete a quatro.

Nunca dei sequência a qualquer corrente que me tenha chegado às mãos.

Talvez isso explique porque nunca ganhei na mega-sena acumulada. Ou a Luana Piovani nunca me tenha dado bola.

Vai ver!

Luana Piovani (em jaruonline.com.br).