UMA RAÇA RUIM

Não há pior raça que a dos torcedores de futebol. E não estou falando dessas bestas que se matam a troco de nada, numa estupidez inominável. Estou falando do torcedor normal – se é que seja possível a um torcedor ser normal –, desses que vibram, apoiam, reclamam, xingam, esgoelam-se, sofrem com os jogos do seu time.

Eu, na qualidade (ou seria defeito?) de torcedor do Botafogo, submeto-me a cada jogo – e agora duas vezes por semana – a uma variação impensada de humor: ora estou na euforia, ora estou na mais completa depressão.

Mas torcedor, por isso mesmo, está mais para distorcedor. Dificilmente vemos, no mesmo lance duvidoso, o que vê a torcida contrária, ou – pior ainda – Sua Senhoria, o homem do apito. O miserável está sempre marcando contra nós, invertendo faltas, fazendo vista grossa às botinadas do zagueiro grosso da equipe contrária, não enxergando aquele pênalti claríssimo sobre nosso jogador derrubado dentro da área nos minutos finais da partida.

Depois da quinta-feira fatídica, em que tomamos um sacode do São Paulo, no Morumbi, não quis nem ver noticiário esportivo. Fui dormir com o fígado revoltado, como se tivesse tomado um porre de traçado de licor de ovo e conhaque de gengibre. Tive pesadelos, em que me aparecia o santo, com sua veste branca, desferindo porretadas na minha cabeça. Naquele pesadelo futebolítico-religioso, ele pelo menos me acertou quatro cacetadas.

Fiquei assim com indisposição para o nobre esporte bretão até no último domingo, quando me sentei, de novo, diante da televisão para ver Botafogo x Coritiba.

Hoje (estou escrevendo esta crônica na segunda-feira), voltei a ver as resenhas esportivas da rodada. Vou ficar até o fim. É que o meu time venceu e um dos nossos maiores adversários levou o mesmo sacode que nós. E, no futebol, tanto dá gosto nossa vitória, quanto a derrota do adversário histórico.

Aí o fim de semana ficou completo. Nós ganhamos, eles perderam. E de goleada. Tal como nós no meio da semana.

Isto só para mostrar que, no futebol, estamos mais para distorcedores do que para torcedores. E que a bola, redonda como é, dá mais voltas do que supõe nossa vã infilosofia.