AS LIÇÕES DO FOGO

Toda tragédia deveria ter algum valor pedagógico, isto é, deveria ensinar ao ser humano como se portar para que não se repitam episódios semelhantes, ou, pelo menos, com o mesmo grau do precedente. Deveríamos aprender a minimizar os efeitos de ocorrências futuras.

Não sei se é possível tirar lições da tragédia da boate Kiss, em Santa Maria-RS. O brasileiro é um povo que não gosta muito de aprender com esse tipo de acontecimento. É só ver como se repetem os acidentes com barcos superlotados nos rios da Amazônia.  É só analisar as estatísticas dos acidentes automobilísticos produzidos tanto pela condução do motorista, como pelas condições das estradas. É só observar a inércia criminosa de autoridades de todos os níveis com a prevenção de catástrofes climáticas. Aqui perto de nós estão Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis que não nos deixam mentir.

Gostamos muito de fazer campanhas, prestar solidariedade, chorar nossas vítimas. Mas não gostamos muito de aprender e modificar comportamentos e atitudes. E há, ainda, os oportunistas de sempre que lucram com tais eventos.

Contudo somos chegados a uma lei. Como o povo brasileiro, ou melhor, a política nacional gosta de produzir uma lei! Para qualquer problema, antes de se procurar uma solução prática e eficiente, produz-se uma lei que o regulamente. Criamos até mesmo uma lei que proíbe pais de darem palmadas em seus filhos.

Agora, diante da tragédia de Santa Maria, em que a legislação existente não foi observada, ou, quando muito, foi aplicada frouxamente, o Congresso Nacional tem a intenção de criar uma nova lei contra incêndios.

Pelo menos é o que a Folha de São Paulo online de ontem estampa em suas páginas virtuais:

Após tragédia, Câmara planeja elaborar lei nacional anti-incêndio”.

 Como se não bastasse toda a legislação preexistente, que talvez nunca tenha sido cumprida integralmente, vai a Câmara criar nova lei, como se isso desse garantia a que semelhante sinistro não volte a ocorrer no futuro.

Pois foi, mais ou menos, o que aconteceu com a famosa e famigerada Lei Seca. Ninguém jamais havia sido punido por andar embriagado e causar acidentes. Criou-se a nova lei, para que, talvez, acaso, quiçá, possa alguém ser punido.

É bem verdade que o Estado deve estar arrecadando muito mais com a aplicação de multas pesadas por direção sob efeito de bebida alcoólica. Não sei se alguém foi efetivamente punido por ter causado acidente e matado outra pessoa.

No caso da tragédia de agora, o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), reconhece que a legislação da cidade é dura, mas que deve ter havido “problema na fiscalização”.

Ora, de que adiantará nova lei federal anti-incêndio, se o homem brasileiro responsável por sua aplicação e fiscalização não fizer seu trabalho?

Vieram especialistas à televisão mostrar que os efeitos da catástrofe da boate Kiss poderiam ter sido minimizados – mesmo imaginando que uma pessoa tivesse a infausta ideia de acender artefato pirotécnico em ambiente fechado – se se usassem materiais apropriados, retardadores da difusão do fogo.

Não trabalhamos prevendo o pior. Sempre achamos que pode haver um jeitinho – característica tão nacional – para se resolverem os problemas, até mesmo o jeitinho de subornar a autoridade, para a concessão de alvará de funcionamento a um espaço destinado a produzir centenas de mártires sem causa.

O fogo produz lições definitivas, incontornáveis e trágicas. Talvez seja hora de aprender!

Foto de Rodrigo Baleia/Folhapress (em folha.uol.com.br).

CANTIGA DE SANTA MARIA

Pelo infortúnio de cada jovem morto,
Ai de nós, Santa Maria!
Pelos sonhos defeitos a fumaça e fogo,
Ai de nós, Santa Maria!
Pelo desespero dos pais e dos amigos,
Ai de nós, Santa Maria!
Pela perda de carreiras por um país mais justo,
Ai de nós, Santa Maria!
Pelo trabalho inglório de salvação dos corpos,
Ai de nós, Santa Maria!
Pela juventude que ainda crê na vida,
Ai de nós, Santa Maria!
Pela incúria de nossas autoridades constituídas
Tende piedade de nós, Santa Maria!

                  Pôr do sol (foto do autor em flickr.com/photos/saint-clairmm).

TRAGÉDIAS A MANCHEIAS

Esta última tragédia norte-americana – o massacre de vinte e seis pessoas, a maioria crianças, em Newtown, Connecticut – não será a última. Ainda muitas outras estão sendo engendradas, neste momento, em cérebros doentios e inflados por uma política de direitos individuais que beira à insanidade, por autorizar a compra indiscriminada de armas de fogo.

Segundo noticiário, há naquele país mais armas que cidadãos, e em alguns estados é permitido que pessoas andem armadas em locais públicos, como nos tempos do faroeste.

Sabe-se que a história dos países foi feita na base da arma, da guerra, da matança. Raríssimos são os que não têm em sua história até episódios fratricidas.

Os Estados Unidos, então, têm uma história trágica com arma de fogo.

O desbravamento do Oeste americano se fez a poder de rifle e revólver. A matança era generalizada. Matavam-se primeiramente os índios que opuseram resistência à marcha branca para o Oeste. Lá instalados, os brancos matavam-se a si próprios, numa disputa por territórios e riquezas, como o próprio cinema de Hollywood registrou em centenas, talvez milhares, de filmes.

Mesmo em países em que o uso da arma é controlado – ou pretensamente controlado, como no Brasil –, há um arsenal na mão da população civil. No nosso caso particular, principalmente na mão de bandidos e marginais de toda espécie.

Ora, franquear a venda de armas e ainda permitir que se ande armado é um convite a que tragédias assim se repitam, vez que o cérebro humano é terra desconhecida e capaz das piores ideias.

Muitos dos assassinos seriais são descritos como pessoas normais, jovens estudiosos, inteligentes – como este de agora –, o que, no entanto, não é garantia de que, de posse de armas, alguém não se transforme num criminoso monstruoso.

Qual é a lógica de se permitir que isto continue acontecendo, apenas porque não se pode tirar tal direito individual? E até que ponto o direito individual pode sobrepujar o interesse público, a segurança dos demais cidadãos?

Mas os Estados Unidos estão habituados a carnificinas. Quando não é em solo estrangeiro, com as armas de seu poderoso exército – o que é aceito pacificamente pela opinião pública ianque –, é em seu próprio território. Então todos se chocam, se lamentam, choram. Principalmente quando há inocentes envolvidos.

Contudo, quantos inocentes são imolados por esse mundo afora pelas armas norte-americanas?

São tragédias a mancheias, como se dizia outrora, que nosso irmão do Norte está habituado a produzir.

Imagem em deolhonocariri.com.br.