NA ESTRADA

 

Tenho viajado tanto a Miracema e Bom Jesus, que posso dizer que sou quase amigo dos quebra-molas e pardais. Pelo menos tenho recebido alguma correspondência da autoridade de trânsito me lembrando de que passei por alguns deles, no excesso da preguiça dela e na urgência da minha pressa.

Para que não me repita, escolho às vezes ir por Nova Friburgo. Outras vezes, por Teresópolis. De qualquer forma, tenho de subir montanhas, serpentear estradas, varar municípios, parar nos mais diversos pontos para um cafezinho, para o xixi, para o almoço, ou mesmo para espichar um pouco as pernas e a coluna. Enfim, para uma infinidade de motivos que alongam a viagem, mas a tornam menos cansativa e estressante. E, como tenho de repeti-la com frequência, procuro tirar o maior proveito. Tantas vezes paro para fotografias. É uma árvore florida, outra pelada, uma paisagem interessante. E lá vou eu, sempre de posse de minha câmara, registrando aspectos de uma natureza sempre propícia a se renovar.

Devo confessar que não tenho muito prazer em dirigir, mas o faço sem mortificação. Há a necessidade. E contra a necessidade não se pode ir. Por isso, aproveito.

Já conheço pessoas estrada afora, de cujo nome bem não sei, mas que já presenteei com cd ou com livros. É só puxar assunto e observar o interesse do meu interlocutor, para que me disponha a esse gesto. Sou daqueles que pensam que é melhor parar para uma prosa do que chegar cedo demais. Pode-se ganhar mais tempo com esses prazeres do que com o adiantar da hora.

Todo o caminho é o caminho que se faz, por isso a possibilidade de fazê-lo mais interessante. Eu me repito? Acho que não. Assim também é o caminho. Embora sejamos sempre os mesmos, podemos nos descobrir a cada quilômetro, a cada momento.

Tenho me repetido tanto, sendo diferente a cada vez, que já não encontro sempre as mesmas pessoas que me atendem no cafezinho, por exemplo, à beira da estrada em Ibipeba. E, por isso, tenho de me readaptar, tentar conquistar novamente a simpatia da mocinha que faz o café no momento exato em que o solicito. Depois da segunda vez, parece que sou velho conhecido.

E assim vou (re)fazendo o caminho que me faz retornar às origens – da vida e dos sentimentos –, com o prazer renovado por tão novos e mesmos trajetos.

Paisagem à margem da RJ-116, em Miracema-RJ (foto do autor).
Paisagem à margem da RJ-116, em Miracema-RJ (foto do autor).

VÁ A MINAS, MAS FAÇA UM EXAME DEPOIS

Vou fazer uma sugestão ao governo de Minas Gerais: colocar pórticos nas entradas das fronteiras do estado, com uma inscrição do tipo: Bem-vindo a Minas Gerais, só não podemos garantir a civilidade de suas taxas ao partir.

É que Minas é um atentado à normalidade de nossas mais comezinhas taxas de colesterol, triglicérides e glicose. Em relação especificamente à glicose, parece que não há ninguém lá que lute contra o fantasma da diabetes: é praticamente impossível encontrar alguma coisa diet em Minas!

Em qualquer restaurante, por mais simples que seja – e boa parte das pequenas cidades mineiras só têm restaurantes simples – é uma orgia de colesterol, representado magnificamente por carne de porco – frita, cozida, assada, refogada, grelhada, pururucada (Oh, céus!) –, linguiças, chouriços, torresmos, peles as mais diversas, feijoada, feijão carregado, feijão tropeiro, tutu à mineira. Tenho a impressão de que até o jiló e o chuchu refogados, que ficam com aquela carinha de santo sobre o fogão a lenha de quase todos os restaurantes, são agentes gordurosos infiltrados. Nem mesmo eles podem ser tomados como inocentes, neste quesito. A couve mineira, então, não deixa dúvidas: sempre com pequenos pedacinhos de toucinho de fumeiro – bacon em Minas é tido como odioso anglicismo – não pode ser considerada isenta.

Agora, suspeitíssima mesma é a alface picadinha, que eles colocam disfarçadamente ao lado de panelas de pedra ou de barro, abarrotadas de costelinha de porco fritas de dar dó do bichinho. Com aquele jeitinho suspeito, está ali para dizer ao comensal: vá com fé, que a fé te pode salvar.

Eu, quando vou a Minas, como nesses últimos três dias – cheguei de lá ontem -, vou incógnito em relação ao meu endocrinologista. Ele, às vezes, me pergunta se tenho a intenção de visitar o estado, e eu, com indisfarçável cara de pilantra, tenho de prometer que jamais porei meus pés nas Minas Gerais. Por tudo que é mais sagrado! Isto é, o tal resultado do exame que, a cada quatro meses, ele me exige, a fim de saber por quanto tempo ainda minhas veias suportam a carga de gordura que meto para dentro.

Como sou pessoa extremamente zelosa neste aspecto, sobretudo com os índices de glicose – não quero acabar esquartejado em vida, por conta de uma maldita diabetes –, para desfazer as bolas de gordura que, por acaso, possam acumular-se em minhas entranhas, inicio sempre os trabalhos sorvendo alguns goles da boa cachaça que se produz naquela terra. Como aconteceu em Pequeri, no almoço de sexta-feira. Diante de uma panela de pequenos e suculentos pedaços dourados de carne seca, senti que alguma coisa me chamava a um prazer maior. E pedi ao simpático gerente do restaurante, Renato Marconato, aquela que salvou o guarda e toda a corporação. Ele, então, sacou de um litro anônimo, sem a mínima indicação de inspeção sanitária, um líquido de cor ligeiramente âmbar, produzido na região, apetrechado de todas as indicações para destruir a concentração lipídica que pudesse prejudicar a saúde do turista.

E comi sem culpa, no sistema “preço fixo, coma o que puder”.

No fundo, no fundo, creio que o nosso maior risco é comer com culpa. E isso não há em Minas Gerais. Caso contrário, é melhor você nem pôr os pés lá!

Imagem em lounge.obviousmag.org.