HOSPEDARIA DA DONA FINAZINHA

Dona Finazinha enterrou o finado marido Diomedes num fim de semana caracaxento e, sete dias depois, já tinha posto pedreiro e ajudante para obra de remodelação de um dos quartos. Queria aproveitar o próximo festival de sanfona e viola a ocorrer daí a quatro meses, a fim de começar a amealhar uns trocados a mais com o aluguel. Ela não podia contar apenas com a pensão minguada que, por certo, o marido defunto lhe deixaria.

Diomedes dos Santos deu baixa em sua habilitação de vivente numa sexta-feira treze, sem tugir, nem mugir. Estava de prosa com os amigos no bar da praça da igreja, quando sentiu uma espécie de coice no peito, do lado esquerdo, que só lhe franqueou levar a mão ao peito, soltar um ãh forte e cair do banco, para se estatelar nos paralelepípedos do chão, com o cigarro de papel especial a chamuscar o bigode esbranquiçado. Estava morto.

Quando levaram a notícia à Dona Finazinha, Delfina de Souza Santos na certidão de casamento, com todo o jeitinho para que ela também não sofresse um afrontamento, ela marejou os olhos miúdos, disse ai meu deus e, em seguida, emendou baixinho uma oração, já encomendando a alma do finado.

Por isso é que o sepultamento de Diomedes se deu no sábado seguinte, com o céu apedrejado de nuvens escuras, golpeando trovões para os lados de Mimoso do Sul, como se o céu fosse desabar sobre morros e grotas, vilas e descampados, pastagens e roçados.

São Pedro do Itabapoana, às vezes, sofre desses destemperos naturais, porque está encarapitado no alto de um morro, a não mais de quinhentos metros de altura, no meio de uma morraria circundante mais alta, na serra capixaba ao sul, quase na fronteira com o Rio de Janeiro.

Mas o enterro se deu sem maiores aguaceiros. O que era ameaça mais ficou só em ameaça. Sem percalços, cantando “Com minha mãe estarei”, o cortejo dolente subiu o morro do cemitério, de onde se tem uma vista bonita do casario colonial que compõe a vila, esquecida do tempo e do mapa do Brasil, não fosse o interesse do povo miúdo que lá habita por essas questões de cultura, música, sanfona, viola, orquestra e coral, que movimentam suas ruas vez em quando. E um modo todo especial de fazer uma das melhores cachaças que se pode beber. De modo que, caso um desconhecido chegue lá e contemple aquele bem cuidado amontado de casas do tempo de Tiradentes, no sossego da hora de depois do almoço, não há de imaginar que ali mora um povo que gosta de festa.

Por esse motivo é que Dona Finazinha, que tinha lá seus guardados de dinheiro e um plano montado há algum tempo, resolveu mandar iniciar a obra de reforma da casa, um pouco antes da missa de sétimo dia, visando a atender a alta demanda por conta do tal festival, que ocorre sempre no fim do mês de julho de cada ano.

Além do finado Diomedes, também moravam na casa de antigos estuques, cobertura de telha canal e recortes de eira e beira, a filha do casal, Joana, e suas trigêmeas univitelinas Sandra, Sônia e Soraia. As meninas, então com nove anos, eram tão parecidas, que os nomes ficaram quase idênticos como as três, de forma que resolveram atender a quem as chamasse, não importa o nome usado. E desenvolveram, talvez por isso mesmo, a habilidade de aprontarem traquinagens com todos, apenas com o intuito de se divertir. Nem mesmo a avó, Dona Finazinha, conseguia distinguir uma neta da outra. Apenas a mãe, por um desses milagres que só a maternidade explica, é que sabia com certeza que esta é a Sandra; aquela ali, a Sônia e aquela outra lá, a Soraia.

Foi só o tempo de a obra durar, para que Dona Finazinha recebesse o primeiro pedido de hospedagem para o festival daquele ano. Cristina e mais outra amiga souberam da nova opção bem no centro da vila e se adiantaram na reserva. O quarto era amplo e comportaria com conforto as amigas, que dividiriam o espaço restante da casa com a família.

Pois as duas amigas chegaram para o festival já na quinta-feira no fim da tarde, deixaram as bagagens na casa de Dona Finazinha e partiram para curtir o primeiro dia da festa.

Entre uma e outra apresentação das várias atrações programadas, passeavam pelas muitas barraquinhas armadas na rua principal, a partir da praça da igrejinha, até quase a saída para as roças do entorno, e pelos diversos bares e botequins, alguns de ocasião, bebendo aqui e ali, beliscando tira-gosto, confraternizando com outros amigos que para lá também foram. E seguiram na função durante o tempo que duraram os shows e até bem depois, já então apenas no desfrute de libar o que fosse líquido e mordiscar aquilo que fosse sólido.

Foram dormir lá pelas tantas!

Ao acordar no dia seguinte, Cristina levou um susto. Mal levantara do travesseiro a cabeça, um tanto pesada em função da noite anterior, viu à entrada do quarto três meninas loirinhas, com a mesma roupa, o mesmo penteado e o mesmo sorriso maroto naqueles rostinhos lindos. Pediu socorro à amiga:

– Bete, pelo amor de Deus, não estou bem! Ontem eu bebi tanto assim, Bete? Me diga!

E voltou a olhar em direção à porta e já não viu mais aquela aparição inesperada.

Bete, que saía do banheiro naquele instante, quis saber a razão do desespero matinal. E Cristina tentou explicar:

– Acho que estou mal, Bete! Tive visão tripla. Sempre soube que porre e ressaca podem provocar visão dupla, mas tive visão tripla. Vi três anjinhos loirinhos aqui na porta do quarto. De repente, olhei outra vez e eles já haviam desaparecido. Do jeito que apareceram, desapareceram! Vou marcar neurologista, para quando voltar, Bete! Realmente, não estou nada bem!

Bete não vira nada e bebera os mesmos álcoois que Cristina, na véspera.

Um pouco depois, durante o café da manhã tomado à mesa colocada na grande cozinha da casa, Dona Finazinha, avó das meninas, explicou a visão tripla. É que as traquinas sempre faziam tais aparições inesperadas para as pessoas que ainda não as conheciam, só para ver a reação.

Cristina, ainda um tanto zonza, sorveu um gole generoso de café e se sentiu aliviada. A mistura da noite anterior não fora por demais exagerada.

 

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Imagem em elo7.com.br.

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CRÔNICA DE ROMA: PAULINHA

Paulinha entrou na nossa vida por um acaso, há mais de vinte anos, e ainda não saiu. E nosso contato não durou mais de uma semana, naquele janeiro de 1996, numa viagem a Recife por uma já extinta agência de turismo. Até a empresa acabou, mas sua presença não.
Paulinha tinha cerca de dois ou três anos e viajava com seus jovens pais. Era morena como a mãe, irrequieta e bastante comunicativa. Tinha os olhinhos vivos e um sorriso de dentes de leite muito fácil. Estava sempre disponível para quem a chamasse, à cata de uma brincadeira, de um carinho. Todos como que a adotaram como mascote, já que era a mais novinha turista do grupo que foi passar uma semana num hotel de frente para o mar pernambucano, na praia do Pina.
Guardei até seu nome completo, pronunciado apenas em voz alta, em tom bravo, por sua mãe, quando ela estava aprontando além do previsto:
– Paula Beatriz!
Algumas atividades estavam previamente agendadas como parte da excursão, de modo que era comum tê-la conosco algumas vezes por dia. O que ocorria também durante o jantar no hotel, incluído no pacote. No entanto, durante algumas horas por dia, ou em alguns dias, tínhamos o tempo livre para as atividades de interesse pessoal e não a víamos.
Pois foi numa dessas ocasiões em que se deu o fato que fez marcar Paulinha até hoje em nossa vivência. Sua família, durante o almoço em algum lugar do Recife, andou comendo algo que não fez bem aos intestinos dela e da mãe. Como fosse verão e a temperatura estivesse bem elevada, ambas tiveram desidratação, por força do incômodo. Por isso seu pai, que nos informou do mal-estar das duas, foi visto sozinho num dos jantares da semana.
No jantar da noite seguinte, já lá estava a Paulinha, toda eufórica, jantando com o pai, sem a presença da mãe. Jane, então, comunicativa como sempre, quis saber dela como estava. Do alto de sua autoridade infantil, informou para nós, numa frase dita de forma clara, bem pronunciada, com todos os erres:
– Eu meriorei; minha mãe não meriorou!
A partir daquele instante, instituí em minha relação com a Jane, no quesito saúde x doença a forma verbal pauliniana “meriorar”, em substituição à forma regular “melhorar”, um tanto sem o charme da pronúncia da pequena. Acho, inclusive, que assim dizendo se abranda um pouco mais a situação da doença e melhora a saúde geral, por conseguinte.
Como acabei de fazer neste instante, em que a Jane está cuidando dos pés, que sofreram na longa caminhada que empreendemos hoje em Roma, a partir da Basílica de Santa Maria Maior, até a Via Nazionale, onde foi ver umas coisinhas, para aproveitar a temporada de liquidações, ou “soldi”, como eles dizem.
– O pé meriorou?
Sim, já melhorou e está pronto para o programa noturno deste sábado. Iremos assistir a um show de jazz tradicional, com o grupo de Emanuelle Urso, no belo espaço da Villa Borghese, no sistema zero oitocentos, sob o céu estival de Roma, como é comum nesta época do ano na Cidade Eterna.
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PS: Ao fim da bela apresentação, a Lua Minguante deu o ar da graça.

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DAQUI DE CIMA

O avião da Alitalia passou por uma zona de turbulência, e a Jane reclamou que ele não era bom, estava trepidando muito. Um pouco antes parece que tinha passado sobre um quebra-molas seco, daqueles fininhos, que se põem no meio de uma reta na estrada, só para sacanear o motorista, dizer a ele que não precisa correr tanto, embora a pista o convide. E provoca aquele baque seco, de juntar os discos da coluna vertebral. Um pouco depois ele voltou à pista lisa, ou melhor, à navegação tranquila.

Nesta terça-feira, último dia de julho, a viagem começara como todas as outras. Aqueles mesmos avisos de segurança que as companhias têm a obrigação de repetir, exigindo nossa atenção, tenho a impressão, não servem para nada. Agora, é bem verdade, sem a pantomima do pessoal de bordo: tudo via telas individuais atrás de cada poltrona. No entanto, caso a aeronave se precipite de uma altura que ultrapassa as nuvens mais renitentes, tenho quase certeza de que o comportamento dos passageiros será de desespero, de gritaria, de apelo aos céus. Ninguém se lembrará de nenhuma daquelas recomendações. Eu mesmo nunca participei de um evento de tais proporções, tanto que estou aqui neste texto fazendo conjecturas. Mas, daqui de cima, a coisa de uns dez mil metros, todos os pensamentos são possíveis, embora eu seja uma pessoa desassombrada no quesito aviação civil.

Mas avião é um bicho capcioso, dado a trapaças de mau gosto. Vinicius de Moraes, apesar de ter voado costumeiramente por aí enquanto vate encarnado, dizia ter medo dessa geringonça, porque ela tem sua oficina de reparos lá embaixo, em terra firme. E, em caso de pane, não dá para chegar lá ainda com a fuselagem intacta.

Ainda há pouco, um pequeno avião deu uma cambalhota na pista de chegada de um aeroporto em São Paulo. E só não morreram todos os seus ocupantes, por um simples capricho do destino. Coisa em que, aliás, eu não acredito.

Voltando ao nosso voo, daí a instantes, após a pequena turbulência, a tripulação começou a servir a refeição. E fiquei com saudades das refeições que se serviam há alguns anos. Se a tecnologia aeronáutica progrediu muito nesses últimos tempos, o treinamento do pessoal aprimorou, em contrapartida a comida de bordo piorou proporcionalmente.

Lembro-me da primeira vez em que fomos a Paris pela Air France. No jantar, as comissárias distribuíram uma folha elegantemente impressa, com os pratos oferecidos. Eram três ou quatro. Um deles, o que comi pela primeira vez, era o tradicional “boeuf bourguignon”, que foi acompanhado com um singelo vinho tinto nacional. Francês, é óbvio!

Hoje os comissários, ao passar empurrando os carrinhos, perguntavam “carne ou pasta?” e nos serviram uns pratozinhos bem mixurucas, que muito desmerecem a prestigiada culinária italiana. O ravioli, por exemplo, já teve melhores dias, até mesmo no quilo que eu frequentava, ali na Rua Debret, no centro Rio de Janeiro, nos meus últimos anos de trabalho, quando a grana já encurtava e o final do mês espichava. Ele tinha mais paladar no quilo de massas.

Ainda que eu seja um bom dorminhoco em viagens, ainda não consegui dormir. E estou aproveitando para riscar no teclado do celular essas considerações, que postarei tão logo chegue a terra firme, na Cidade das Sete Colinas. O wifi da aeronave, a que o telefone está conectado há pelo menos umas duas horas, me mantém fora de órbita. Por isso, esse gosto de texto requentado como o ravióli da Alitalia.

Buongiorno!

PICTURES AT AN EXHIBITION*

Na parede da sala do meu coração desprevenido
Tenho cravados pregos a sustentar retratos
Cada qual com seu peso
Com suas cores
Uns mais esmaecidos
Outros pulsantes em tons fortes
Cada prego sangrante com seu quadro
Exibido em uma exposição interna
Sem espectadores
Apenas eu a visito com frequência
Estão lá meus muitos mortos queridos
Cujas figuras me olham com comiseração e piedade
Por ter restado espectador
O olhar severo do meu pai agora é sereno
Meus avós têm o vivo dos tons de azul de quando comigo
Há sorrisos de meus tios
De vários parentes e afins que selecionei ao acaso
Enquanto caminho por sobre o barro o chão duro a pedra quente o asfalto liso
Até que um buraco negro venha engolir meus passos distraídos
Felizmente da parede não pende nenhum olhar mais novo que o meu
Todos os que lá estão cumpriram seu fado
Na longevidade que me ultrapassou
E por isso não choro ao vê-los
Apenas agradeço à vida por sobreviver até agora
E poder assistir à exibição destes quadros na parede.

 

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Capa dupla do álbum Pictures at an axhibition (1971), do grupo Emerson, Lake & Palmer.

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(*Título do álbum do grupo inglês Emerson, Lake & Palmer, com a obra do compositor russo Modest Mussorgsky, Quadros de uma exibição. Para mais informações sobre a obra, clique aqui. Para ouvir a versão do ELP, clique aqui. Para a versão do maestro Herbert von Karajan, com a Orquestra Filarmônica de Berlim, clique aqui)

PROGRAMADO

Eu não sou inusitado
Inesperado
Surpreendente
Vim programado por DNA há decênios
Quiçá milênios
Talvez bem antes dos macedônios
Dos priscos lusitanos
Plausíveis iorubanos
E se alguma coisa deu errado
Neste exato instante
Em que transito meus enganos
Abstraída qualquer presunção de fama
Não sou culpado
Também pago o alto preço
Por este erro
De programa.

 

Chapéus (foto do autor).

EDILBERTO, O CORAJOSO

O Brasil acabara de declarar guerra às potências do Eixo e precisava convocar soldados em todos os rincões da pátria.

E Bom Jesus do Itabapoana não poderia ficar fora do esforço patriótico de barrar a expansão do império do mal liderado por Hitler e Mussolini, ou não estaria incluída no mapa do Brasil.

O jovem Edilberto, no entanto, não pensava assim. Não declarei guerra a ninguém, dizia ele na roda de amigos, enquanto jogava sinuca no bar da Praça Governador Portela. E, na iminência de ser convocado para a guerra, resolveu antecipar um acidente que o livrasse do compromisso com os Aliados: deu um jeito de meter a catana, um instrumento avantajado de cortar cana-de-açúcar, no dedo fura-bolo da mão direita, aquele mesmo que seria destinado a puxar o gatilho para matar o inimigo, a fim de decepar-lhe a tal falangeta, deixando intactas a falange e a falanginha. Como era bem frouxo de coragem e para não ver a cabeça do dedo voando entre jorros de sangue, fechou os olhos no instante de desferir o golpe sobre seu desamparado dedo indicador repousado num toco de madeira, próximo ao chiqueiro dos porcos na chácara dos pais, à saída da cidade em direção ao Rebenta Rabicho.

A mão – esquerda – que segurava a arma fatídica não se prestava a muitas coisas e vacilou na precisão do corte. O dedo fura-bolo de Edilberto escapou de ser guilhotinado, mas sofreu sérias avarias.

Gritando como um alucinado, correu até a casa dos pais a cem metros do local do sacrifício, com uma banda do dedo dependurada por parte de pele e de nervos. Em desespero, a mãe cuidou de enrolar a vítima em um paninho branco e acompanhar o filho desastrado ao Hospital São Vicente de Paula, onde Edilberto deu entrada com anotações de acidente ao picar abóbora para os porcos.

À época, fez-se o serviço possível, com tudo aquilo que a Medicina dispunha naquela cidade perdida do antigo Norte Fluminense, no que resultou, ao fim do período de recuperação, um dedo duro, no sentido referencial, que não permitia mais a Edilberto fechar a mão direita totalmente. Ficava aquele trambolho a apontar alguma coisa em lugar incerto e não sabido nas imediações de onde estivesse.

Passado o tempo das dores e da recuperação, ele foi-se habituando a conviver com o incômodo do dedo rígido.

Até que chegou à cidade, partindo de Niterói, a antiga capital do Rio de Janeiro, a sinistra junta de recrutamento de novos pracinhas a serem enviados aos campos de batalha da Europa, a fim de preservar a democracia no mundo, ou em parte dele, pelo menos.

O edital de convocação não discriminava ninguém. Apenas fixava os anos de nascimento para aqueles julgados aptos a desferir tiros dos mais diversos calibres contra  nazistas e fascistas recalcitrantes.

La foi tranquilo o Edilberto a atender o chamado da pátria nessa hora crucial, com a convicção de que o dedo o livraria do incômodo de matar inimigos.

A chamada para o exame dos candidatos a heróis da pátria se fez em ordem de chegada, já que não houve uma inscrição prévia dos chamados conscritos.

À medida que decorria o tempo de espera, Edilberto observava o semblante de cada um a sair da sala, na sede do Tiro de Guerra, após o encontro com a junta militar. Uns aliviados, por não terem sido convocados; outros circunspectos, por atenderem o chamado da nação; uns alegres, por poderem meter bala no inimigo; outros tristes, por terem de meter bala no inimigo.

E lá estava o Edilberto, sem muitos sobressaltos no espírito de porco que carregava em seu invólucro carnal, na confiança de que o dedo duro o livraria de qualquer enrascada mais séria.

E chegou sua hora!

A ordem era que todos se despissem, fossem pesados e medidos, em altura, largura e profundidade. Depois de anotados os números, o candidato se postava de pé, com a roupa com que veio ao mundo, diante do capitão médico responsável pela junta. Com tudo mole, mas com o dedo duro, o possível convocado foi indagado pelo capitão sobre o que acontecera. Edilberto, com certa hesitação na voz, informou sobre o tal acidente ao picar abóbora para os porcos e o resultado final que lhe deixara o indicador enrijecido. E acrescentou, tentando aumentar as chances de defesa, que ele era destro e que, portanto, não poderia nunca puxar o gatilho para disparar qualquer tipo de arma de fogo. Desde uma simples garrucha vinte e dois, até um perigoso fuzil Springfield, calibre 30-06, cujo acionamento dependia da ação muscular do atirador, e que era uma das armas da Força Expedicionária Brasileira.

E, para assegurar de que não mais dispunha do movimento regular do indicador, fez o gesto de abrir e fechar a mão direita algumas vezes, terminando por afirmar:

– Com o dedo assim, capitão, acho que não sirvo para a guerra.

O capitão olhou bem a cara do malandro Edilberto, pensou alguns instantes e lhe disse:

– Serve sim! Você irá à frente da tropa, indicando a posição do inimigo: Ali! Ali! Ali! – e fez o gesto com seu dedo, a mostrar a Edilberto que o dedo rígido dele também teria sua serventia no campo de batalha, apontando onde estaria escondido o inimigo.

Edilberto suou frio. Seus pertences inferiores, ante a notícia, murcharam, e ele se virou, após a ordem do capitão para que todos se vestissem.

Antes que o grupo saísse da sala, o militar chamou por seu nome, deu um sorriso debochado e disse para o corajoso Edilberto que aquilo tinha sido uma brincadeira. Ele não precisava ir à Europa dar tiro em nenhum tedesco.

 

Fuzil Springfield (segundaguerra.net).

CONTOS EM LIVRO

Incentivado e quase exigido pelos amigos Eduardo Pacheco de Campos e Rogerio Andrade Barbosa, resolvi juntar alguns contos que posto aqui e no meu outro blog Asfalto&Mato e publicá-los. Orientado pelo também amigo Hilário Francisconi, trago agora publicamente, pela editora Clube de Autores, ASFALTO & MATO, em formato impresso e em e-book.
Os leitores desta página que tiverem interesse em adquiri-lo é só se dirigirem ao endereço da Editora Clube de Autores.
Espero que gostem.

Editora Clube de Autores.