E NO ENTANTO AMAR DÁ PÉ

 Amar não é só sorver o sumo doce do sexo
 Da pessoa amada
 Ou um romeu e julieta – queijo com goiabada – 
 De beijos que começam cedo
 E varam a madrugada
 Como se não houvesse amanhã
  
 Amar é um troço mais complicado 
 Do que cerveja com tremoços
 Num botequim de beira de estrada
 Mais escorregadio que baba de quiabo
 Língua de vaca ensopada
  
 Amar é mais trabalhoso que criação de galinha
 Caçar tatu no meão da noite enluarada
 Com lanterna sem pilha alcalina
 E garrucha de mira angulada
  
 Amar não é só o suspiro que vem do nada
 Como se tudo estivesse pronto
 E se se pudesse dormir tranquilo
  
 Amar é um trem esquisito
 Um jeito aflitivo de viver chapado
  
 Amar no entanto dá um pé danado! 

Foto do autor.

SOBRE COMER

Dia desses, o amigo Marcelino Medeiros compartilhou no Facebook alguns pensamentos rabínicos muito pertinentes. Um deles me chamou a atenção. É este:

                “Aquele que come sozinho morre sozinho.”

O pensamento é também a tentativa de um ensinamento, porque porta um conceito moral, capaz de melhorar a vida dos que o leem, caso queiram aplicar seu ensinamento: melhor é ter amigos e familiares à volta do que viver e morrer só.

Contudo o que me despertou o desejo de escrever este texto é um sentido escondido dentro da própria frase que escapa às pessoas que não passaram pelo curso de Letras, não estudaram a tal Etimologia, que é a parte dos estudos da língua voltada para a origem das palavras, e que vai justificar muito bem o sentido primordial da sentença.

Repare bem o meu leitor.

A nossa bela língua portuguesa é uma evolução natural do chamado latim vulgar, isto é, o latim popular, falado pelas tropas romanas que, por volta do século I da nossa era, após vencerem os lusitanos de Viriato e Sertório, se estabeleceram no extremo oeste da Península Ibérica, onde está Portugal. Como parte de sua política expansionista, Roma exigia que os povos dominados falassem sua língua, o latim.

O processo evolutivo do latim ao português levou séculos, até que aquela língua falada na região estivesse tão distinta da língua-mãe, que levasse ao surgimento de uma nova língua – o galaico-português e, posteriormente, o português arcaico –, sem que houvesse solução de continuidade no uso da língua, porém já revelando estrutura gramatical e vocabular distinta do latim.

O verbo comer atual, moderno, passou por todo esse período evolutivo, até chegar a este jeitão reconhecido hoje por qualquer falante. Mas guarda em sua trajetória uma história interessante.

Em latim clássico, forma da linguagem que os soldados naturalmente não usavam, comer era edere (com a sílaba forte no primeiro /e/). A forma é composta de um radical ed-, que guarda o sentido básico – “ingerir alimento, alimentar-se” –, seguido da vogal identificadora da segunda conjugação, a famosa vogal temática, -e-,  e terminando pela desinência de infinitivo –re.

Aqui é interessante observar que a forma latina tem o radical bem próximo da forma inglesa: eat. Ambas as línguas vieram de um tronco comum a que os estudiosos dão o nome de indoeuropeu, a língua-mãe da maioria das línguas europeias e de outras tantas da Ásia. Também em sueco, outra língua-irmã, o termo é äta, em que a primeira vogal tem do som do /e/ aberto.

Como o romano, diferente de outros povos, entendesse que o ato de se alimentar não era um ato isolado, individual, mas, sobretudo, um ato social, em que se pressupõe a companhia de outros, isto se refletiu na língua, que acrescentou à forma edere o prefixo indicativo de companha: cum-. Desta maneira, a forma que chegou até à Península Ibérica trazida pelos legionários romanos foi cumedere – “ingerir alimento em companhia de outro”.

A partir daí é que se processa a gradual mudança evolutiva da forma latina até chegar ao que temos hoje.

Dois fenômenos de pronúncia foram sistemáticos. As consoantes sonoras entre vogais (no caso do verbo, o /d/) desapareceram, o mesmo ocorrendo com a vogal final do infinitivo. Num primeiro instante – e isso tem comprovação escrita –, cumedere passou a cumeer. Em seguida, comeer (o /u/ inicial, por ser breve, passou a /o/ fechado em português) e, finalmente, comer (com a crase entre os dois /e/), dando a forma atual.

Embora o radical da palavra tenha desaparecido, aquilo que era o prefixo cum- se manteve e assumiu o valor do sentido da palavra. Passou a ser o radical em português.

Assim é fácil perceber que o ato de comer, por tudo isso, representa uma atividade a que nós, falantes de português, atribuímos um valor social, de confraternização e compartilhamento. Nossos alimentos mais emblemáticos refletem isso: feijoada, bacalhoada, cozido, moqueca, dentre os mais famosos.

Por isso é que me parece bem fundamentada a frase inicial: Aquele que come sozinho morre sozinho.

Até a próxima feijoada!

Conheça a feijoada do restaurante O Jardineiro
Imagem em clubegazetadopovo.com.br.

TEMPESTADE

Há nuvens no céu
Borrando o azul
Tingindo de cinza a vasta imensidão
De um paraíso tranquilo

Há prenúncios de chuva
Anunciada pelo serviço de meteorologia
Enquanto se aguarda o desfecho dos dias

Há esperanças fortuitas
Desejos insanos
Carências aflitas
E tantos desenganos
Que a vida parece tão-somente
Um arremedo de viver

E as nuvens do céu vagueiam solertes
Sob os influxos do vento sudoeste
No horizonte que já se afigura sombrio

A tempestade antevista está a caminho.

Tempestade em Icaraí (foto do autor).

DO PRINCÍPIO AO FIM

No princípio, bem na entrada da vila, está o Morro do Marta. Um homem de sobrenome Marta, há muitos anos, morou lá e acabou identificando o lugar. Hoje os mais novos não sabem disso e o chamam de Morro do Mato. O epônimo acabou se perdendo.

No meio da praça em frente à capela, o descampado. Sem capim, sem mato, sem bancos, sem canteiros. A praça era como um terreno baldio nu. Era onde as crianças aprendiam a andar de bicicleta. Seu nome, então, era Praça do Sabiá, apelido do fundador da vila.

Na beirada do valão Liberdade, os moleques improvisaram uma rampa de salto. Pulava um, pulava outro, e outro mais. Como se fosse uma ingênua olímpiada infantil.

Atrás do muro do campo do Liberdade, ficava o espaço proibido do gramado, onde o time da vila disputava seus jogos do campeonato. Nos momentos sem uso, os moleques o invadiam sorrateiramente, através do muro, e disputavam partidas inolvidáveis.

À frente o grupo escolar, estava a casa da minha avó. Todos os dias ia lá, pegar os pequenos latões de alumínio e me dirigir ao curral do meu tio-avô, irmão dela, pegar o leite que ele nos dava. Quase sempre, quando ele lá estava, eu tomava uma caneca de leite quentinho com açúcar, cheio de espuma e saído diretamente das tetas da vaca.

Acima das nossas cabeças, revoavam as andorinhas nos fins de tarde, antes de procurar abrigo no forro da capela. Chilreavam tanto, que pareciam alegres como gente. E faziam com que os moleques também sonhassem em poder voar um dia.

Abaixo da terra, a sete palmos, no cemitério da vila, enterram-se sonhos e esperanças. Mas nunca há choro desesperado dos que ficam. No interior, se aprende que a morte é quase igual à vida. Apenas um pouquinho mais dolorida.

Do lado de fora, quem passasse pelas ruas de paralelepípedo imaginaria, ao ver as casas sossegadas de janelas abertas, as mulheres cozinhando, os meninos se aprontando para a escola, os maridos coçando o bigode à espera do almoço.

Dentro das casas, nunca havia dramas irresolvíveis, nem tragédias anunciadas. Vivia-se a pacífica vida do interior, sem muitas novidades, mas também sem sobressaltos. O desespero do progresso sempre lá chegou de mansinho, sem bulício.

Na subida do morro da escola, ficava o pau-d’alho frondoso, ao lado de uma serraria a céu aberto, com um balanço – que então chamávamos balango – dependurado de um galho alto por cordas de juta. Vez e outra um moleque se despencava dele.

Na descida do morro do cemitério, chega-se à Coreia, uma espécie de bairro da vila pequenina. Em minha cabeça de menino, havia mais distância entre a Coreia e a Rua, como chamávamos a vila, do que os passos que a distavam geograficamente.

No fim do dia, a iluminação pública começava a alumiar as ruas com lâmpadas de amarelada fraqueza, quase tomates de vez. Que apenas não deixavam as visagens noturnas do entorno assombrar nossa vida singela.

Revoada das andorinhas faz festa no céu de Teresina

Imagem colhida na Internet (meionorte.com).

NOVO LIVRO: PENSAMENTOS BEM-PENSADOS

Acabo de lançar mais um livro pelo Clube de Autores. Nele, coletânea de meus “pensamentos bem-pensados” publicados no PENSADOR UOL, os leitores estarão livres de bons conselhos, mensagens altruístas ou reflexões pundonorosas. Já temos muita coisa com que nos preocupar. Talvez encontrem um motivo de sorrir. Se isso ocorrer, já terá cumprido sua missão.

Aí uma amostra do que lá encontrarão:

Sempre que um economista acerta uma previsão econômica, é sinal de que a Economia errou.

Caso se interessem, é só acessar o endereço eletrônico abaixo, que os remeterá para o sítio da editora.

https://clubedeautores.com.br/livro/pensamentos-bem-pensados-2

PERPLEXIDADES

Estou na solidão do quarto
Deitado sobre o nada
Olhando o teto quase incólume
Não fosse o pernilongo que me espia

Estou no bulício da sala
Ao som de Jorge Ben Jor
E sua Tábua de Esmeraldas
A comemorar nossa existência vazia

Estou no sorvedouro das horas
Embora confinado em casa
À espera de uma janela aberta para a incerteza
Enquanto o vírus nos avalia

Estou perplexo
Olhando pela varanda dos fundos
A lua crescente cruzando o céu de maio
Como se nada de estranho se constate

A vida com todas as suas peripécias solertes
A nos conduzir cordeirinhos para o abate

 

Foto do autor.

MARIA FALA (Histórias de avós e neta)

Maria fez ligeiros quatro anos este mês, mas fala como se tivesse bem mais. Embora seja Cebolinha total, em relação ao chamado erre duro – de caro, barata, prata, que ela diz calo, balata, plata – consegue falar com fidelidade todos os demais fonemas e capricha nos plurais e nas concordâncias, no uso do subjuntivo e do futuro do pretérito, que até espanta os adultos. E ainda fez comentário desairoso sobre a personagem de Maurício de Souza:

– O Cebolinha não sabe falar o erre!

Evidentemente que há aí o estímulo das mídias modernas, mas, quero crer, muito também de uma habilidade inata, daquele tipo que faz uma pessoa ter facilidade para desenhar, esculpir, cantar, dançar, por exemplo. Pois Maria tem uma habilidade danada para falar. E como fala!

Dia desses fomos apanhá-la para passar uns dias conosco. Seus irmãos mais velhos vieram juntos. O encontro com o pai, que os trazia, se deu no estacionamento do aeroporto Santos Dumont. Já de volta para casa, ao passarmos sobre a ponte Rio-Niterói, ela começou com um assunto que a preocupava então: queria conhecer o mar aberto. E observou que a baía sobre que trafegávamos não era mar aberto. E quisemos saber o porquê desse interesse dela por esse mar aberto. Então ela explicou que era por causa da Moana, que desobedeceu sua avó e foi para o mar aberto. Assim ela queria saber onde era esse tal mar.

Aqui cabe uma digressão para os que não estão atualizados sobre a indigitada Moana. Moana é a personagem de uma bela animação cinematográfica de 2016 – Moana – um mar de aventuras. Ela é uma menina maori, filha do chefe da tribo, que vê como missão salvar seu povo de uma catástrofe natural. O desenho é plasticamente muito bonito e a mensagem, altamente positiva.

Para atender sua curiosidade, numa tarde, levamos Maria até Piratininga, para que ela visse o mar aberto. Em lá chegando, a imaginação da pequena voou de passarinho, e ela conseguiu instalar sua heroína numa das ilhas próximas e dali fazê-la partir na jornada pelo oceano afora, com todas as peripécias, como no roteiro do filme.

Jane, que não vira o filme (Eu levei o Francisco ao cinema e sabia do que se tratava.), quis saber da netinha a razão que fez com que Moana se lançasse ao mar:

– Maria, o que a Moana foi fazer?

– Óbvio! Foi pla morrer!

Claro que no filme a personagem não morre, mas na cabeça dela, tendo desobedecido a avó, a princesa estaria correndo sérios riscos e procurando a morte no mar aberto.

Na volta para casa, assunto puxa assunto, Jane referiu uma história do pai da miúda quando também pequeno:

– Maria, uma vez o seu pai, quando era pequeno, se perdeu na praia. A vovó ficou desesperada, a praia estava cheia, e eu saí gritando por ele: Pedro! Pedro!

Maria, muito solidária nessas situações, disse para a avó:

– Vovó, ela só me chamar, que eu glitalia meu glito plóplio: PAPAI!

Na noite da véspera da volta à sua casa, eu e ela estávamos deitados, já preparando a hora de a pequena dormir. Contei histórias, cantei antigas canções suaves, mas ela dizia que estava sem sono. Então ela propôs brincar de fazer perguntas. Quem acertasse, poderia fazer duas perguntas seguidas. A brincadeira começou: eu pergunto, ela responde; ela pergunta, eu respondo. Instantes depois, era a minha vez. Como levei pequeno tempo a imaginar pergunta mais complicada para lhe fazer, ela dá tapinhas no meu ombro e diz, em forma de desafio:

– E aí, parceilão?!

Em seguida chega a avó e propõe que ela durma conosco, no meio da cama. A princípio ela aceita a ideia, mas um pouco depois diz para a avó:

– Vovó, pensei bem. Eu não falei com a Lela (a irmã) e acho que ela não vai gostar. Eu vou pla lá.

E foi para o outro quarto, dividir a cama com a irmã adolescente, como vinha fazendo.

Para não me alongar e ser taxado de avô babão, vai a última.

Maria olhava a decoração sobre o rack da sala e, observando o conjunto que aparece na ilustração deste texto, pergunta à avó:

– É sua, vovó, essa família indo embola?

Fecha o pano!

Foto do autor.

CERTOS AMORES

(Para meus netinhos.)

São tão mínimos meus amores
Tão ingênuos
Tão sem tempo
Tão intensos
Tão magnificamente grandes
Esses pequenos
Que conto aos quatro
Cantos do universo
E os canto em verso
Em prosa e o que mais possa
Provar que nada mais importa
Que tê-los entre os presentes
Que a condição humana nos regala
Se não nos furtamos a viver
Assim intensamente
A cada clarão do dia:
Gabi, Bruno, Francisco e Maria.

Children With A Cart Painting by Francisco Goya

Francisco de Goya (1746-1828), Crianças com um carrinho (imagem na Internet).

VELÓRIO SUSPENSO

Apaguem as velas
Desfaçam as coroas
Suspendam as orações sinceras
As encomendas fúnebres
Não estou defunto ainda
Posso parecer um pouco fraco
Talvez meio alquebrado
Um tanto à beira do fim
Mas respiro sem auxílio de aparelhos
Cuido bem dos meus joelhos
E ainda tenho o prazer de fruir a beleza
Que gira grácil em torno de mim.

Cemitério de Carabuçu (foto do autor).

MANHÃ DE JUNHO

Manhã de junho
O azulzinho pálido do céu
Tem como fundo o canto de bem-te-vis ao longe
Latidos de cães vozes de crianças
E barulhos de obra bem próximos

Às vezes entra pela varanda
Um sopro fresco do vento matutino
Contrapondo-se aos raios quentes do sol de outono
A queimar a pele das pernas entorpecidas

A vida está suspensa
Embora o calendário escoe na ampulheta dos dias
Nossa tragédia mais temida
E nossa existência tão prosaica

Um dia após o outro sucessivamente
Um azul celeste após uma lua crescente
Bem que pouco
E assim se desenrola o novelo dos dias
Que irão compor a memória de um tempo sombrio
Catastrófico

Paisagem matutina, Miracema-RJ (foto do autor).