DE COMPROMISSOS E LEITURAS

É sempre bom ainda ter tempo de cumprir seus compromissos. É o que fiz agora. E com que prazer!

Justifico-me.

Em junho do ano passado, adquiri pelo comércio eletrônico o livro Crônicas – Cotidianas, humorísticas e fantásticas, de H. Francisconi, publicado pela editora Viseu.

À época, tinha iniciado a leitura de um outro livro, um calhamaço de mais de novecentas páginas, e resolvi, na ordenação de leituras que às vezes faço, deixar a leitura das crônicas de Francisconi para depois.

Após alguns dias que me chegara o livro, por via postal, recebi de presente, autografado pelo autor, outro exemplar. Não disse a ele que já o tinha, pois não poderia prescindir de um com a dedicatória a que fazem jus os amigos dos escritores. Pois H. Francisconi, sobre ser autor de vários livros, foi meu aluno na faculdade e, via de consequência, tornou-se meu amigo. O outro volume, pensei logo, daria para minha mãe, também leitora atenta e interessada.

Ocorreu, no entanto, que, durante o tempo em que decorria a leitura do calhamaço, fizemos – minha mulher e eu – um novo arranjo num dos quartos do apartamento, justamente onde fica a minha coleção de livros. Tiramos tudo de dentro dos velhos armários, para receber os móveis novos; voltamos a colocar tudo nos lugares, já distintos dos antigos; e o livro do meu amigo se perdeu na confusa arrumação de agora.

Embora já o tivesse procurado por vários lugares, não logrei encontrá-lo, o que só ocorreu agora, por conta da quarentena a que fomos impostos pela pandemia desse maldito Covid-19, de tão malfadada existência.

Toda essa introdução é muito mais para me justificar com o amigo H. Francisconi, do que para informar ao caro leitor acerca da minha experiência de leitor com o que lá se contém. E é o que passo a fazer.

Francisconi, não por ter sido meu aluno, longe disso, escreve bem à beça, para ficar numa expressão muito ao gosto do brasileiro, sem os exageros a que se pode chegar com outra expressão. Ele tem o domínio da língua, de seus recursos estilísticos e da fabulação que todo ficcionista deve possuir.

No livro, os contos estão divididos nos três tons destacados no título: cotidianos, humorísticos e fantásticos. E não há, em nenhum deles, o menor resquício de descuido na abordagem do tema.

Francisconi sabe lidar com a língua; sabe ser correto com o idioma e dele tirar o frescor da frase, a inteligência da argumentação e o inusitado das imagens. Eu diria, para ficar no plano descontraído, que ele sabe brincar com as palavras e tira delas o maior proveito possível na e para a intenção do seu texto.

Se, em algumas frases, brinca com as aliterações e os trocadilhos, em outras, utiliza de sugestões históricas implícitas no tema que desenvolve, como a puxar do leitor a memória de coisas vistas e sabidas anteriormente.

E pode ser tanto lírico, como satírico e delirante, como sugerem os vocábulos que servem de título de suas crônicas. Mas, em qualquer tom, seu texto dá um prazer danado – olhem aqui outra expressão doméstica – de ser lido.

E tem, como fabulador, a capacidade de penetrar no outro, de ter sua visão e seu sentimento. Passeia entre o eu do narrador e o da personagem com uma sem-cerimônia criativa. E isto me chamou bastante a atenção. E disfarça, com a astúcia do escritor, seu sentimento de avô em textos sensíveis, criados por e para seu netinho.

No caso de suas crônicas fantásticas, inclusive, se permite passear pelo tempo, flagrando momentos não registrados pela história oficial, para criar uma narrativa irônica, humorística e sensível. Como Dante, chega até a ir ao inferno e trocar uns dedos de prosa com o Decaído.

Felizmente, sob esse aspecto, a quarentena produziu algo bom: permitiu empreender uma busca mais detalhada, que me fez encontrar o livro e ter o prazer de o ler. De cabo a rabo, de enfiada. Como também se diz popularmente.

Ave, H. Francisco!

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Francisconi, H. Crônicas – Cotidianas, humorísticas, fantásticas. Maringá, Ed. Viseu, 2018. 80p.

HISTORINHAS RÁPIDAS XIII

HISTORINHAS COM DENDÊ (cont.)

26. NA EMERGÊNCIA

No aglomerado de gente à porta do hospital público, toca o celular da senhora ao lado. Ela atende e começa a explicar o ocorrido:

– Foi uma livração, fulana! Ele pegou a faca e foi para cima dela, para dar uma facada na coitada. Aí a cachorra avançou nele e não deixou. Protegeu a dona! Foi o Senhor Jesus e a cachorra que salvou (sic) ele!

É a primeira vez que ouço falar do auxílio de um cachorro a Jesus.

27. NA ALTA

À saída do hospital público, com alta médica, a paciente comenta com a oftalmologista que fez sua avaliação final e que a via pela primeira vez, após a cirurgia:

– Eu tive um desmaio, já na hora de me dirigir para o ônibus da excursão para ir embora, ao fim do passeio. Caí com o rosto no chão e tive esse problema todo no olho.

A médica ouvia tudo com atenção, exclamando a instantes, com o acento baiano:
– Ah, foi?!

E a paciente continuou a narrar os detalhes da situação por que tinha passado. Até que no final, ouviu da médica:

– Graças a Deus!

A paciente, sem entender, perguntou o porquê do “graças a Deus”. E a médica com a lógica afiada:

– Porque foi no fim do passeio. Você já tinha visto tudo, passeado à vontade, conhecido todos os pontos turísticos de Salvador. Já pensou se fosse na chegada? Você vai ter história para contar daqui.

28. COM OU SEM EMOÇÃO?

A paciente aguarda na maca, na emergência do hospital público de Salvador, o momento de ser conduzida à sala de cirurgia.

Daí a instante, atendendo o grito “Apoio!” da enfermeira acompanhante, chega o maqueiro simpático, que a cumprimenta, diz seu nome, fala que a conduzirá e pergunta:

– Quer com emoção ou sem emoção?

Na Bahia, até mesmo a simples condução de uma prosaica maca hospitalar, pode ser com este diferencial.

A paciente responde, então, que quer da melhor forma possível.

O maqueiro empunha a maca e sai pelos corredores, em velocidade de cruzeiro, curvando aqui e ali; desviando-se de um e outro obstáculo; produzindo sonoplastia de ambulância – Uó! Uó! Uó! – para abrir passagem; acenando a cada um que o cumprimenta – Aí, Valtinho! -; e brecando o veículo alucinado, com a descarga da pressão dos freios, à porta da sala: Shiiiiii! Shiiiiii! Shiiiiii!
Valtinho é um maqueiro beatbox.

Daquela viagem, a paciente estava salva. Espantada, mas salva.

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FRANCISCO E O BICHO

Francisco examina o maçarico,
Como se fosse um estranho bicho
Nunca visto.
Aperta aquilo, aperta isso,
Examina o bico,
Como se fosse de um pterodáctilo esquisito
Vindo de um tempo muito antigo.

Ainda bem que não está vivo,
Não é, Francisco?
———-

Franscisco, em setembro de 2015, um mês antes de completar três anos, em uma pousada em Lumiar. (Fotos do avô.)

FIM DO MUNDO

Estou com certa nostalgia daqueles fins de mundo, anunciados periodicamente alguns anos atrás, por um sem-número de malucos. Ficava contando com eles, para ver o fim de boletos e impostos, taxas e governos, deputados e senadores, esquerda e direita, intolerâncias e tolerâncias.

Nem mesmo o meteoro desgovernado, anunciado recentemente pela NASA, de credibilidade científica até então intacta para mim, cumpriu a previsão de passagem triscante com a Terra, que se daria entre o Natal de 2019 e o Dia de Reis de 2020. Foi um fiasco completo, de nem ser noticiado. Passou batido por aqui, de não deixar nem uma poeirinha tóxica, nem uma pequena catástrofe localizada. Nada que se pudesse comparar àquela outra, de alguns milênios atrás, que acabou com os dinossauros e seus companheiros de fauna e flora.

Aí fico nostálgico de sobressaltos e medos. Nunca fui testemunha de uma catástrofe natural de grandes proporções. Só mesmo a nossa política me dá certa sensação dela. Parece que este mundo não se irá acabar mesmo. Perco até a esperança de um futuro zero-gente, zero-natureza, como diz meu netinho Francisco.

Que pena que o mundo não se tenha acabado! Tinha tantos planos por não realizar!

 

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FELIZ NATAL E BOM ANO!

Ando com muita preguiça de desejar os mesmos desejos a cada fim de ano. Por isso, tomei a liberdade de repetir aqui um poema lá dos idos de 2011. Que sejam eficazes tais votos, embora um tanto velhos.

Vejam:

O Natal aí vem vindo,

A seguir um novo ano,

E, a cada fim de jornada,

Todos os novos planos

Para o que vem pela frente,

Cheio de augúrios,

Desejos

E renitentes promessas,

Que quase nunca cumprimos.

Mas o que se há de fazer,

Se somos todos humanos?

Assim,

Na medida do impossível,

Desejo aos meus amigos,

Aos meus possíveis leitores,

Aos meus queridos parentes,

Do mais usado ao mais jovem,

Do mais tristonho ao contente,

Do mais magrinho ao mais fofo,

Os votos de que para o ano

Possamos estar por aí

Para reclamar de novo.

 

Feliz Natal e Bom Ano!

HISTORINHAS RÁPIDAS XII

HISTORINHAS COM DENDÊ

23. CARTÃO DE VISTA

Chegamos ao aeroporto de Salvador no domingo, por volta das 11h30. Pegamos um táxi até o hotel, onde deixaríamos as malas, para depois nos encaminhar ao hospital público do estado.

Durante a viagem, comentamos o motivo da nossa vinda à cidade com a simpática motorista do táxi, a quem perguntamos se o hospital é longe do hotel. Ela disse que não muito distante.

Chegamos ao hotel, e ela gentilmente se prontificou a aguardar que fizéssemos o check-in, a fim de nos levar até o hospital. Agradeci. Jane e eu nos dirigimos à recepção, onde fomos informados de que o apartamento ainda não estava liberado.

Voltei ao táxi e disse à motorista que iria demorar, que ela estaria livre.

Ela então, baianamente, falou:

– Trinta ou quarenta minutos? Tem problema não. Tou com pressa não.

Fomos com ela até o hospital.

Ah! E não demoramos nem dez minutos.

 

24. VOLTANDO DE SALVADOR

Fizemos o check-in de embarque no portão 16 do aeroporto de Salvador, fila preferencial, e aguardamos por um instante para nos dirigir ao avião.

Assim que a fila começou a andar, a mulher que estava atrás de mim começou a orar em voz alta, pedindo a proteção do sangue de Jesus para o bom encaminhamento da viagem, e repetia tanto a invocação ao sangue de Jesus, durante o trajeto e até entrar na aeronave, que, confesso, bateu um certo desconforto (medo?) de que aquele pássaro de metal não fosse se dar bem no ar.

A proteção dos céus pode até fazer bem, mas pedida assim com tanta insistência e certo desespero, provoca a quase certeza de que a coisa não sairá bem.

Mas chegamos sãos e salvos.

 

25. É BALALAU NA DIREÇÃO

A excursão estava saindo de Salvador, de volta a Campos dos Goytacazes, de onde partira. Na condução do veículo, dois motoristas que se revezavam. Um deles é o José Manuel, meu primo, que tem um apelido de infância só conhecido, até agora, dos familiares: Balalau.

Entre todos os passageiros adultos, estava o pequeno Gustavo, quatro anos, acompanhado de pais e avós. Falante, comunicativo e simpático, fez camaradagem com todos, inclusive com meu primo, cujo apelido ficou conhecendo.

Já sua avó, além de outras atividades, é também pastora evangélica e começou a orar, assim quer o ônibus se pôs em movimento:

– Amigos, vamos orar para que a viagem seja tranquila. Invoco o nome do Senhor Jesus para nos proteger. Colocamos em vossas mãos nossa vida. Aleluia! Senhor Jesus, guie nosso ônibus em segurança até nossa cidade.

Imediatamente Gustavo interveio na oração da avó:

– Vó, quem vai dirigir o ônibus é o Balalau!

 

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SEMPRE UMA NOVIDADE

Seu Fulano estava de saída para a banca de jornal, quando a mulher lhe pede que comprasse o remédio para o exame que iria fazer.

Quando se chega à idade dos estragos, há um sem-número de exames a se fazerem. Aquele, especificamente, era do tipo desastroso: colonoscopia. O leitor mais jovem, com toda a certeza, nunca ouviu falar disso. O que é até razoável. Mas, depois que o Cabo da Boa Esperança é ultrapassado, as invasões corpóreas se dão de norte a sul: examina-se o estômago, por cima; e os intestinos, por baixo. Este é a colonoscopia. A palavra, se meu caro leitor tiver passado por aulas de etimologia, há de ser conhecida. Se não, não me custa dizer: visão do cólon. Quer dizer, é coisa de se introduzir um tipo de mangueira, com uma câmara na extremidade, naquilo que Mussum chamava de forévis, para a prospecção do pré-sal, se é que me entendem. Só de pensar, é de dar arrepios a frade de pedra, aquele lá do Espírito Santo.

Por isso é que, para que a visão intestina não tenha atrapalhos, se faz necessário limpar as tripas de todo tipo de detrito. Então, a recomendação dela para que Seu Fulano trouxesse o laxante, o destranca tripa. Leu ele lá no papel com as indicações do laboratório e verificou: Ducolax ou Lacto Purga.

– Querida, vou trazer Lacto Purga.

– Ah, não! Traga outro! Esse, não!

– Por que não esse que já conhecemos?

– É que quero variar um pouco. Não gosto de ficar repetindo coisas.

Ah! a mulher e sua incontrolável mania de novidades!

O marido achou estranho. Que ela quisesse um novo sapato, uma bolsa diferente, um vestido de corte moderno, tudo bem! São novidades previstas no cardápio do estilo feminino de ser. Mas, diabos, querer novidades em laxante intestinal aí já chega às raias da insensatez. E tentou ponderar com ela que nem sempre é preciso estar inovando, procurando ser diferente. Ela não iria a um desfile de cagonas, onde certamente diria dos benefícios de um novo remédio. Iria, bolas, apenas desobstruir os intestinos, para que o médico pudesse verificar se não haveria novidades indesejadas lá dentro. Até lhe falou – há sempre de se ter muito tato com o espírito feminino – do acerto dessa preocupação dela em estar sempre descobrindo coisas novas, para apresentar nas conversas com as amigas. Mas, para tudo, há um limite. Não seria necessário que um simples remédio fosse motivo para seu desejo novidadeiro.

Depois de alguns minutos de idas e vindas de argumentos, a mulher resolveu não inovar no remédio desta vez. Ele havia ganhado a batalha do piriri programado. Foi à farmácia e voltou com o bendito Lacto Purga.