PERPLEXIDADES

Estou na solidão do quarto
Deitado sobre o nada
Olhando o teto quase incólume
Não fosse o pernilongo que me espia

Estou no bulício da sala
Ao som de Jorge Ben Jor
E sua Tábua de Esmeraldas
A comemorar nossa existência vazia

Estou no sorvedouro das horas
Embora confinado em casa
À espera de uma janela aberta para a incerteza
Enquanto o vírus nos avalia

Estou perplexo
Olhando pela varanda dos fundos
A lua crescente cruzando o céu de maio
Como se nada de estranho se constate

A vida com todas as suas peripécias solertes
A nos conduzir cordeirinhos para o abate

 

Foto do autor.

MARIA FALA (Histórias de avós e neta)

Maria fez ligeiros quatro anos este mês, mas fala como se tivesse bem mais. Embora seja Cebolinha total, em relação ao chamado erre duro – de caro, barata, prata, que ela diz calo, balata, plata – consegue falar com fidelidade todos os demais fonemas e capricha nos plurais e nas concordâncias, no uso do subjuntivo e do futuro do pretérito, que até espanta os adultos. E ainda fez comentário desairoso sobre a personagem de Maurício de Souza:

– O Cebolinha não sabe falar o erre!

Evidentemente que há aí o estímulo das mídias modernas, mas, quero crer, muito também de uma habilidade inata, daquele tipo que faz uma pessoa ter facilidade para desenhar, esculpir, cantar, dançar, por exemplo. Pois Maria tem uma habilidade danada para falar. E como fala!

Dia desses fomos apanhá-la para passar uns dias conosco. Seus irmãos mais velhos vieram juntos. O encontro com o pai, que os trazia, se deu no estacionamento do aeroporto Santos Dumont. Já de volta para casa, ao passarmos sobre a ponte Rio-Niterói, ela começou com um assunto que a preocupava então: queria conhecer o mar aberto. E observou que a baía sobre que trafegávamos não era mar aberto. E quisemos saber o porquê desse interesse dela por esse mar aberto. Então ela explicou que era por causa da Moana, que desobedeceu sua avó e foi para o mar aberto. Assim ela queria saber onde era esse tal mar.

Aqui cabe uma digressão para os que não estão atualizados sobre a indigitada Moana. Moana é a personagem de uma bela animação cinematográfica de 2016 – Moana – um mar de aventuras. Ela é uma menina maori, filha do chefe da tribo, que vê como missão salvar seu povo de uma catástrofe natural. O desenho é plasticamente muito bonito e a mensagem, altamente positiva.

Para atender sua curiosidade, numa tarde, levamos Maria até Piratininga, para que ela visse o mar aberto. Em lá chegando, a imaginação da pequena voou de passarinho, e ela conseguiu instalar sua heroína numa das ilhas próximas e dali fazê-la partir na jornada pelo oceano afora, com todas as peripécias, como no roteiro do filme.

Jane, que não vira o filme (Eu levei o Francisco ao cinema e sabia do que se tratava.), quis saber da netinha a razão que fez com que Moana se lançasse ao mar:

– Maria, o que a Moana foi fazer?

– Óbvio! Foi pla morrer!

Claro que no filme a personagem não morre, mas na cabeça dela, tendo desobedecido a avó, a princesa estaria correndo sérios riscos e procurando a morte no mar aberto.

Na volta para casa, assunto puxa assunto, Jane referiu uma história do pai da miúda quando também pequeno:

– Maria, uma vez o seu pai, quando era pequeno, se perdeu na praia. A vovó ficou desesperada, a praia estava cheia, e eu saí gritando por ele: Pedro! Pedro!

Maria, muito solidária nessas situações, disse para a avó:

– Vovó, ela só me chamar, que eu glitalia meu glito plóplio: PAPAI!

Na noite da véspera da volta à sua casa, eu e ela estávamos deitados, já preparando a hora de a pequena dormir. Contei histórias, cantei antigas canções suaves, mas ela dizia que estava sem sono. Então ela propôs brincar de fazer perguntas. Quem acertasse, poderia fazer duas perguntas seguidas. A brincadeira começou: eu pergunto, ela responde; ela pergunta, eu respondo. Instantes depois, era a minha vez. Como levei pequeno tempo a imaginar pergunta mais complicada para lhe fazer, ela dá tapinhas no meu ombro e diz, em forma de desafio:

– E aí, parceilão?!

Em seguida chega a avó e propõe que ela durma conosco, no meio da cama. A princípio ela aceita a ideia, mas um pouco depois diz para a avó:

– Vovó, pensei bem. Eu não falei com a Lela (a irmã) e acho que ela não vai gostar. Eu vou pla lá.

E foi para o outro quarto, dividir a cama com a irmã adolescente, como vinha fazendo.

Para não me alongar e ser taxado de avô babão, vai a última.

Maria olhava a decoração sobre o rack da sala e, observando o conjunto que aparece na ilustração deste texto, pergunta à avó:

– É sua, vovó, essa família indo embola?

Fecha o pano!

Foto do autor.

CERTOS AMORES

(Para meus netinhos.)

São tão mínimos meus amores
Tão ingênuos
Tão sem tempo
Tão intensos
Tão magnificamente grandes
Esses pequenos
Que conto aos quatro
Cantos do universo
E os canto em verso
Em prosa e o que mais possa
Provar que nada mais importa
Que tê-los entre os presentes
Que a condição humana nos regala
Se não nos furtamos a viver
Assim intensamente
A cada clarão do dia:
Gabi, Bruno, Francisco e Maria.

Children With A Cart Painting by Francisco Goya

Francisco de Goya (1746-1828), Crianças com um carrinho (imagem na Internet).

VELÓRIO SUSPENSO

Apaguem as velas
Desfaçam as coroas
Suspendam as orações sinceras
As encomendas fúnebres
Não estou defunto ainda
Posso parecer um pouco fraco
Talvez meio alquebrado
Um tanto à beira do fim
Mas respiro sem auxílio de aparelhos
Cuido bem dos meus joelhos
E ainda tenho o prazer de fruir a beleza
Que gira grácil em torno de mim.

Cemitério de Carabuçu (foto do autor).

MANHÃ DE JUNHO

Manhã de junho
O azulzinho pálido do céu
Tem como fundo o canto de bem-te-vis ao longe
Latidos de cães vozes de crianças
E barulhos de obra bem próximos

Às vezes entra pela varanda
Um sopro fresco do vento matutino
Contrapondo-se aos raios quentes do sol de outono
A queimar a pele das pernas entorpecidas

A vida está suspensa
Embora o calendário escoe na ampulheta dos dias
Nossa tragédia mais temida
E nossa existência tão prosaica

Um dia após o outro sucessivamente
Um azul celeste após uma lua crescente
Bem que pouco
E assim se desenrola o novelo dos dias
Que irão compor a memória de um tempo sombrio
Catastrófico

Paisagem matutina, Miracema-RJ (foto do autor).

UM CHOCOLATE QUENTE NA LEITERIA

Era um sábado à noite. Fazia certo frio na Bom Jesus do Itabapoana do início dos anos sessenta do século passado.

Andorinha, Zé Fábio e eu fomos até a Leiteria Bom Jesus, junto à Praça Governador Portela, beber um chocolate quente. Cornélio, o cozinheiro da Leiteria, era famoso por fazer coisas gostosas, apesar de alguns detratores reclamarem da higiene da manipulação, por conta de uma sinusite renitente que o perseguia.

Sentamos a uma mesa e logo fizemos o pedido. Em seguida, chega nosso contemporâneo Índio, com alguns amigos, e todos se sentam próximos. E todos, lá também, solicitaram o mesmo, famoso e denso chocolate quente.

Por essa época, nós três trabalhávamos nas oficinas gráficas do jornal O Norte Fluminense, enquanto o Índio era um dos gráficos do jornal A Voz do Povo. Por conta disso, havia velada ciumeira entre uns e outros, sem, contudo, declaração de animosidade.

Daí a pouco Cornélio traz os canecos com a bebida, e Andorinha, sempre muito sacana, combinou com ele de aplicar uma peça no Índio. Ia reclamar que o chocolate estava frio, assim que ele estivesse trazendo o pedido do Índio.

Cornélio, que também gostava de uma brincadeira sem graça, esquentou o mais que pode o pedido do Índio e o trouxe, no justo momento em que Andorinha levanta a voz:

– Pô, Cornélio! Esse chocolate está frio. Você nem esquentou, caramba!

De imediato, Índio pegou na alça da caneca e sorveu um gole generoso daquele suposto líquido apenas morno. E, no que o pôs na boca, devolveu de imediato, fazendo uma sujeira sobre a mesa.

E rimos às bandeiras despregadas, conforme expressão que ainda tinha certa circulação por aquela época.

E Cornélio ainda se aproveitou para dizer que aquilo que se via à tona da caneca não era nata, mas sim o couro do céu da boca do Índio.

5 receitas para te transformares no mestre do chocolate quente ...

Imagem em fnac.pt.

DE COMPROMISSOS E LEITURAS

É sempre bom ainda ter tempo de cumprir seus compromissos. É o que fiz agora. E com que prazer!

Justifico-me.

Em junho do ano passado, adquiri pelo comércio eletrônico o livro Crônicas – Cotidianas, humorísticas e fantásticas, de H. Francisconi, publicado pela editora Viseu.

À época, tinha iniciado a leitura de um outro livro, um calhamaço de mais de novecentas páginas, e resolvi, na ordenação de leituras que às vezes faço, deixar a leitura das crônicas de Francisconi para depois.

Após alguns dias que me chegara o livro, por via postal, recebi de presente, autografado pelo autor, outro exemplar. Não disse a ele que já o tinha, pois não poderia prescindir de um com a dedicatória a que fazem jus os amigos dos escritores. Pois H. Francisconi, sobre ser autor de vários livros, foi meu aluno na faculdade e, via de consequência, tornou-se meu amigo. O outro volume, pensei logo, daria para minha mãe, também leitora atenta e interessada.

Ocorreu, no entanto, que, durante o tempo em que decorria a leitura do calhamaço, fizemos – minha mulher e eu – um novo arranjo num dos quartos do apartamento, justamente onde fica a minha coleção de livros. Tiramos tudo de dentro dos velhos armários, para receber os móveis novos; voltamos a colocar tudo nos lugares, já distintos dos antigos; e o livro do meu amigo se perdeu na confusa arrumação de agora.

Embora já o tivesse procurado por vários lugares, não logrei encontrá-lo, o que só ocorreu agora, por conta da quarentena a que fomos impostos pela pandemia desse maldito Covid-19, de tão malfadada existência.

Toda essa introdução é muito mais para me justificar com o amigo H. Francisconi, do que para informar ao caro leitor acerca da minha experiência de leitor com o que lá se contém. E é o que passo a fazer.

Francisconi, não por ter sido meu aluno, longe disso, escreve bem à beça, para ficar numa expressão muito ao gosto do brasileiro, sem os exageros a que se pode chegar com outra expressão. Ele tem o domínio da língua, de seus recursos estilísticos e da fabulação que todo ficcionista deve possuir.

No livro, os contos estão divididos nos três tons destacados no título: cotidianos, humorísticos e fantásticos. E não há, em nenhum deles, o menor resquício de descuido na abordagem do tema.

Francisconi sabe lidar com a língua; sabe ser correto com o idioma e dele tirar o frescor da frase, a inteligência da argumentação e o inusitado das imagens. Eu diria, para ficar no plano descontraído, que ele sabe brincar com as palavras e tira delas o maior proveito possível na e para a intenção do seu texto.

Se, em algumas frases, brinca com as aliterações e os trocadilhos, em outras, utiliza de sugestões históricas implícitas no tema que desenvolve, como a puxar do leitor a memória de coisas vistas e sabidas anteriormente.

E pode ser tanto lírico, como satírico e delirante, como sugerem os vocábulos que servem de título de suas crônicas. Mas, em qualquer tom, seu texto dá um prazer danado – olhem aqui outra expressão doméstica – de ser lido.

E tem, como fabulador, a capacidade de penetrar no outro, de ter sua visão e seu sentimento. Passeia entre o eu do narrador e o da personagem com uma sem-cerimônia criativa. E isto me chamou bastante a atenção. E disfarça, com a astúcia do escritor, seu sentimento de avô em textos sensíveis, criados por e para seu netinho.

No caso de suas crônicas fantásticas, inclusive, se permite passear pelo tempo, flagrando momentos não registrados pela história oficial, para criar uma narrativa irônica, humorística e sensível. Como Dante, chega até a ir ao inferno e trocar uns dedos de prosa com o Decaído.

Felizmente, sob esse aspecto, a quarentena produziu algo bom: permitiu empreender uma busca mais detalhada, que me fez encontrar o livro e ter o prazer de o ler. De cabo a rabo, de enfiada. Como também se diz popularmente.

Ave, H. Francisco!

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Francisconi, H. Crônicas – Cotidianas, humorísticas, fantásticas. Maringá, Ed. Viseu, 2018. 80p.

HISTORINHAS RÁPIDAS XIII

HISTORINHAS COM DENDÊ (cont.)

26. NA EMERGÊNCIA

No aglomerado de gente à porta do hospital público, toca o celular da senhora ao lado. Ela atende e começa a explicar o ocorrido:

– Foi uma livração, fulana! Ele pegou a faca e foi para cima dela, para dar uma facada na coitada. Aí a cachorra avançou nele e não deixou. Protegeu a dona! Foi o Senhor Jesus e a cachorra que salvou (sic) ele!

É a primeira vez que ouço falar do auxílio de um cachorro a Jesus.

27. NA ALTA

À saída do hospital público, com alta médica, a paciente comenta com a oftalmologista que fez sua avaliação final e que a via pela primeira vez, após a cirurgia:

– Eu tive um desmaio, já na hora de me dirigir para o ônibus da excursão para ir embora, ao fim do passeio. Caí com o rosto no chão e tive esse problema todo no olho.

A médica ouvia tudo com atenção, exclamando a instantes, com o acento baiano:
– Ah, foi?!

E a paciente continuou a narrar os detalhes da situação por que tinha passado. Até que no final, ouviu da médica:

– Graças a Deus!

A paciente, sem entender, perguntou o porquê do “graças a Deus”. E a médica com a lógica afiada:

– Porque foi no fim do passeio. Você já tinha visto tudo, passeado à vontade, conhecido todos os pontos turísticos de Salvador. Já pensou se fosse na chegada? Você vai ter história para contar daqui.

28. COM OU SEM EMOÇÃO?

A paciente aguarda na maca, na emergência do hospital público de Salvador, o momento de ser conduzida à sala de cirurgia.

Daí a instante, atendendo o grito “Apoio!” da enfermeira acompanhante, chega o maqueiro simpático, que a cumprimenta, diz seu nome, fala que a conduzirá e pergunta:

– Quer com emoção ou sem emoção?

Na Bahia, até mesmo a simples condução de uma prosaica maca hospitalar, pode ser com este diferencial.

A paciente responde, então, que quer da melhor forma possível.

O maqueiro empunha a maca e sai pelos corredores, em velocidade de cruzeiro, curvando aqui e ali; desviando-se de um e outro obstáculo; produzindo sonoplastia de ambulância – Uó! Uó! Uó! – para abrir passagem; acenando a cada um que o cumprimenta – Aí, Valtinho! -; e brecando o veículo alucinado, com a descarga da pressão dos freios, à porta da sala: Shiiiiii! Shiiiiii! Shiiiiii!
Valtinho é um maqueiro beatbox.

Daquela viagem, a paciente estava salva. Espantada, mas salva.

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Imagem em docplayer.com.br.

FRANCISCO E O BICHO

Francisco examina o maçarico,
Como se fosse um estranho bicho
Nunca visto.
Aperta aquilo, aperta isso,
Examina o bico,
Como se fosse de um pterodáctilo esquisito
Vindo de um tempo muito antigo.

Ainda bem que não está vivo,
Não é, Francisco?
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Franscisco, em setembro de 2015, um mês antes de completar três anos, em uma pousada em Lumiar. (Fotos do avô.)