PÍLULAS DE MARIA 

Maria, nossa netinha, acabou de completar três vastos anos na sua vidinha. Mas, como um tsunami incontrolável, faz estragos de alegria e amor nas nossas. Aos avós é um pouco permitido que falem de seus netos aos amigos, sem que isso pareça cabotinismo ou vanglória. Está nos Estatutos dos Avós, desde que de forma ponderada.
Baseado nesse direito, é que trago aqui algumas pílulas da sabedoria infantil da Maria, malgrado sua Idade.

1. Nós a trazíamos da casa da outra avó no Rio de Janeiro,  para passar um dia em nossa casa. Sentada ao lado da pequena, no banco de trás do carro, a avó Jane faz uma observação:

– Você pintou os olhos, Maria?

– Não! É maquiagem, vovó!

2. Jane e Maria estão deitadas, após o almoço, para tentar tirar uma soneca. A menina observa a raiz do cabelo da avó, com o branco saliente, a reclamar uma nova tintura:

– Vovó, não pinta o seu cabelo de branco. Fica feio!

3. Dentre as instruções passadas pelo pai, a fim de que soubéssemos como lidar com a pequena, vieram informações sobre preferências alimentares: macarrão com carne moída, arroz, feijão e brócolis.

A avó então foi confirmar com ela, antes de preparar a comida:

– Você gosta de macarrão, não é, Maria?

– Gosto! Mas é de espaguete.

4. Ao almoço, a avó arruma o prato da Maria. Ela, toda orgulhosa, diz para o avô que se prepara para lhe dar a comida:

– Vovô, eu não sou mais bebê. Eu sou uma menina grande. Eu sei comer sozinha. Na escola eu como sozinha.

– Está bem, Maria! Então coma aí.

E lhe passei a colher.

Ela come umas cinco ou seis colheradas e diz para mim:

– Pronto, vovô! Agora pode me dar.

5. Estávamos em Cunha-SP, para comemorar seus três anos. Na tarde de sábado, ela e o primo Francisco estavam desenhando na varanda do chalé. Até que os chamamos para fazer uma caminhada pelos ateliês dos arredores. No início, Maria ia no colo do pai, que quis saber dela onde estava o lápis vermelho com que pintava. Ela, sem saber onde ele se encontrava, respondeu ao pai, que disse que o lápis estava com ela:

– Recentemente, eu tavo.

O pai nem acreditou no que ouvira, e eu tive de confirmar a frase da miúda:

– Ela disse: recentemente, eu tavo.

Eis Maria e sua sabedoria!

Os primos Francisco e Maria, em Cunha-SP (foto do autor).

HISTORINHAS RÁPIDAS XI

21. HISTORINHA ORTOPÉDICA

Gavião era meu aluno na faculdade e me contou esta historinha.

Morava com a família, havia algum tempo, o seu avô viúvo, que tinha como maior característica não resistir a uma promoção do comércio. Era um perigo o avô passar diante de um produto em promoção, sem ser tentado a levá-lo para casa.

Certo fim de tarde, após um périplo pelas ruas próximas, o avô chega a casa com um reluzente par de muletas de madeira, muito bem-acabado e envernizado, com o apoio dos braços em couro acolchoado. A família ficou espantada com aquilo e indagou dele o porquê das muletas, já que não havia ninguém estropiado em casa.

– É que eu passei em frente aquela loja de material hospitalar, e as muletas estavam na promoção por um precinho ótimo. Aí não resisti.

– Mas, vovô, agora o senhor exagerou! – reclamou Gavião – Ninguém aqui está precisando disso!

– Mas vai que, um dia – Deus nos livre! Nunca se sabe! –  alguém precise! – retorquiu o velho com segurança.

Cerca de três meses depois, ao tomar banho, o avô escorregou no banheiro e fez pequena fratura num ossinho do pé direito. Ao voltar para casa, após ser atendido na clínica ortopédica, de onde saiu com uma bota de gesso, falou para o neto:

– Pega lá aquele par de muletas que comprei por um preço baratinho. Não disse que, um dia, alguém iria precisar!

 

22. HISTORINHA SEXY

Minha amiga colocou aquela braçada de roupa suja na máquina de lavar, ajustou a programação e foi assistir à novela. Ao fim da lavagem, tratou de estender a roupa no varal. Vai uma peça, vai outra, e mais outra, até que pegou entre os dedos uma calcinha feminina, tipo fio dental, no padrão oncinha, com um piercing insinuantemente fixado na parte frontal da mimosa peça.

– Que isso?! – indagou, entre indignada e surpresa, de si para consigo.

Ela mesma, embora ainda uma jovem senhora, mãe de um casalzinho de crianças, não era dada a esse tipo de saliência. E não teve dúvidas. Foi até o quarto, onde o marido, esparramado na cama, via o jogo do seu time, naquele horário que coincide com a novela e tem sua exibição em outro canal.

– Marcelo, isso é seu?! – inquiriu em molde de investigador de polícia da famosa Invernada de Olaria, de elucidadas memórias.

– Claro que não! Eu uso cueca!

– Não se faça de desentendido! Você entendeu muito bem o que estou perguntando!

E a inquirição tinha por base o fim de semana que fora passar com as crianças na casa da mãe, lá pelos lados de Niterói. Enquanto ele, o marido, teve férias conjugais por três noites.

A situação do casamento chegou a um estágio periclitante. De nada adiantavam as explicações e justificativas do marido, que asseverava não saber a origem de peça tão sexy.

Até que minha amiga de se lembrou de que alugara sua casa, pelo Airbnb, enquanto passava uma temporada em Bali. Pegou sua agenda telefônica e ligou para a locatária do imóvel:

– Mônica, boa tarde! Tudo bem com você? Olha, encontrei aqui em casa uma calcinha de oncinha, com um piercing. Por acaso é sua?

– Que vergonha, fulana (Omito o nome para evitar processo.)! É minha sim. Desculpe! Já tinha arranjado uma confusão com o Gérson, porque a tinha perdido. Ele que gosta tanto da calcinha. Pode mandar pra mim pelo Sedex?

E assim, esclarecido o imbróglio, se salvou o casamento da minha amiga.

 

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Faltou o piercing. (Imagem em mercadolivre.com.br)

HISTORINHAS RÁPIDAS X

19. HISTORINHA FRATERNA

Esta já contei há tempos, mas repito para os novos leitores.

Catito e Maria Lúcia, pais dos meus sobrinhos Dondinho e Dudu, hoje rapazes feitos, num domingo aprazível, foram almoçar em restaurante na Praia dos Cavaleiros, em Macaé.
Enquanto esperavam pelo pedido, os dois pequenos brincavam, brincavam, até que começaram a brigar.

Catito, para tentar acalmar os ânimos, leva os dois para a área em frente ao restaurante. Lá já estava um menininho um pouco mais novo, lourinho dos cabelos espetados e óculos redondo de lentes fundo de garrafa.

Catito, na tentativa de constranger os brigões, vira-se para o loirinho e pergunta:

– Você não acha feio dois irmãos brigando?

Do alto de sua sabedoria infantil de cerca de um metro, se tanto, o menino diz:

– Eu não se meto em briga de irmão dos outros!

 

20. HISTORINHA FUTEBOLÍSTICA

Gentil Cardoso era técnico de futebol, ativo entre as décadas 30 e 60 do século passado. Era um dos treinadores mais folclóricos do futebol brasileiro, em função de suas tiradas bem-humoradas e surpreendentes.

Uma das suas muitas histórias conta que, certa vez, durante treinamento, chamou às falas um dos seus jogadores, que andava maltratando a bola com chutões sem propósito para onde o nariz apontasse, utilizando o método socrático de busca da verdade, a fim de levar o pupilo ao seu ponto de vista:

– Meu filho, me diga aqui: a bola é feita de quê?
– De couro, seu Gentil. – Na época não se chamava o treinador de professor.
– E o couro vem de onde?
– Da vaca, seu Gentil.
– E a vaca come o quê, meu filho?
– Come grama, seu Gentil.
– Então põe a coitada da bola na grama, infeliz!

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Imagem em significadodossonhos.inf.br.

HISTORINHAS RÁPIDAS IX

17. HISTORINHA IMPRUDENTE

No posto de saúde do Vital Brasil, seu Prudêncio, 95 anos, aguardava, sentado numa cadeira especial, o começo da vacinação contra a gripe. Sua acompanhante informou que ele tinha quebrado a bacia, por isso a cadeira especial naquela fila de diversos outros idosos, inclusive eu e a Jane.

Meses antes, a mulher de seu Prudêncio quis subir na escada de abrir, para pegar algo na parte superior do armário, e ele não permitiu. Era um perigo. Ele mesmo faria isso. Subiu, caiu lá de cima sobre a companheira e fraturou a bacia. A mulher teve luxações generalizadas.

Agora o imprudente seu Prudêncio aguardava pacientemente que o atendimento do posto a começar às oito horas da manhã se iniciasse com meia hora de atraso.
Tomou a agulhada ali mesmo, sentado sobre a cadeira colocada no corredor. E ainda agradeceu com um sorriso lúcido e simpático à enfermeira que lhe furou o braço.

 

18. HISTORINHA FARMACÊUTICA

Na minha adolescência, em Carabuçu, fui aprendiz de barbeiro com o Moreninho, exímio craque da tesoura e da navalha. Próximo à barbearia, ficava a farmácia do Zé Rezende, onde Ronaldo, meu amigo e colega do grupo escolar, trabalhava. Eu não gostava muito daquela sujeira que o cabelo cortado fazia e, ao contrário, gostava do cheiro das poções e dos álcoois da manipulação de remédios. E tinha comentado isso com o Ronaldo. Mas, em lugar pequeno, nem sempre há vagas para mais um nos estabelecimentos comerciais, também pequenos.

Certo dia chegou à vila um circo, que tinha como atração alguns animais, dentre os quais uma hiena. Um amarra-cachorro do circo se fez de engraçadinho e foi urinar junto à jaula da hiena. Aí não prestou! O bicho enfiou o focinho através das grades e mordeu o pênis do mané, que foi levado à farmácia. Lá chegou ele com mais um furo no dito cujo a requerer cuidados.

Ronaldo, então, teve de atendê-lo. Antes porém de iniciar os trabalhos, mandou me chamar para saber, diante daquela cena, se eu ainda tinha desejos de ser auxiliar do Zé da Farmácia. Claro que abri mão do meu sonho na hora. Pelo menos, como barbeiro, eu só alisava cara de homem. E não outros setores da anatomia masculina.

 

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HISTORINHAS RÁPIDAS VIII

15. HISTORINHA NUPCIAL

Teteca, meu cunhado, bebia como sempre num dos pés-sujos do mercado de Miracema. E bebia bem. Naquela noite, nos idos dos 80, já um tanto avultado nos espíritos do destilado de cana, recebeu convite para ser padrinho de um casamento gay (Miracema sempre foi avançada!), a se realizar daí a pouco, na parte superior do prédio. F*, a noiva, o convidou para a cerimônia.

Como não estivesse fazendo nada, além de beber, e fosse desprovido de preconceitos, até mesmo por certo embotamento alcoólico, subiu para testemunhar o enlace, que teve juiz de paz de mentirinha, livro de mentirinha e padrinhos de mentirinha. Na época, é claro!

Terminada a cerimônia, a noiva resolveu subir até o quartinho que alugava, no andar acima, para tirar o vestido de ocasião, colocar algo mais vaporoso e voltar para a comemoração, em que reinavam bebidas e salgadinhos.

Só que, ao descer as escadas de volta, F* encontrou certo tipo bem-apessoado, com o qual acabou se agarrando nos degraus. O noivo, estranhando a demora, decidiu ir atrás da noiva e a flagrou engalfinhada com o tal tipo, o que gerou a distribuição de tapas, rabos de arraia e pescoções, no varejo e no atacado.

O conflito se generalizou de tal forma, que pegou meu cunhado no desaviso e produziu na sua pessoa contusões e pisaduras diversas.

Quando conseguiu se desvencilhar daquela chusma de contravapores, Teteca reclamou no meio dos circunstantes briguentos:

– Por que eu apanhei, gente? Não sou gay! Nem paquerei ninguém aqui! Nem adianta mais me chamar para padrinho de casamento gay! Nunca mais aceito!

 

16. HISTORINHA IMPRUDENTE

No posto de saúde do Vital Brasil, em Niterói, seu Prudêncio, 95 anos, aguardava, sentado numa cadeira especial, o começo da vacinação contra a gripe. Sua acompanhante informou que ele tinha quebrado a bacia, por isso a cadeira especial naquela fila de diversos outros idosos, inclusive eu e a Jane.

Meses antes, a mulher de seu Prudêncio quis subir na escada de abrir, para pegar algo na parte superior do armário, e ele não permitiu. Era um perigo. Ele mesmo faria isso. Subiu, caiu lá de cima sobre a companheira e fraturou a bacia. A mulher teve luxações generalizadas.

Agora o imprudente seu Prudêncio aguardava pacientemente que o atendimento do posto a começar às oito horas da manhã se iniciasse com meia hora de atraso.
Tomou a agulhada ali mesmo, sentado sobre a cadeira colocada no corredor. E ainda agradeceu com um sorriso lúcido e simpático à enfermeira que lhe furou o braço.

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Imagem em vivamaiscricacoelho.wordpress.com.

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*Por prudência, omiti o nome da noiva.

HISTORINHAS RÁPIDAS VII

13. HISTORINHA VOCABULAR

 

Era o final da década de 60. Eu tinha começado a fazer Letras. Na faculdade encontrei um conterrâneo que não conhecia de Bom Jesus, Aldany, já advogado, casado, pai de filho, e diretor de uma subsidiária da antiga Cia. Siderúrgica Nacional. Ficamos bons amigos. Saíamos sempre juntos do Instituto de Letras, tomávamos o mesmo ônibus 30 na Rua Dr. Celestino, mas cada um saltava em pontos diferentes.

Sobre ser mais velho do que eu, ainda era mais culto, mais experiente e mais erudito.

Certa vez, esperávamos o 30, enquanto conversávamos, e ele soltou lá uma de suas palavras que me eram desconhecidas, ao comentar sobre uma pessoa conhecida:

– Fulana é muito iracunda. – e colocou o primeiro pé no estribo do ônibus que atendera ao nosso sinal.

Subi atrás, segurando firme minha então pasta James Bond (Os mais velhos hão de saber.), e indaguei:

– O que é iracunda!

E ele, com a solenidade de um lord inglês:

– Iracunda é irascível.

– Ah! Entendi!

Na verdade, só fui entender ao chegar à pensão da Dona Dinorah, onde morava, e consultar o “pai dos burros”.

Eu não podia dormir com aquele tijolaço vocabular tilintando nos meus ouvidos.

 

14. HISTORINHA RELIGIOSA

Lá pelos idos de 60, em Carabuçu, certo conhecido da minha mãe, já meio entrado em anos, analfabeto de berço, disse a ela que iria fundar uma igreja, porque não estava satisfeito com seu pastor. Minha mãe, então, quis saber como ele faria para difundir a Bíblia, sob seu ponto de vista, já que não sabia ler. Com toda a segurança, ele disse:

– Minha muié lê, e nós tepreta.

 

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Imagem em pt.depositophotos.com.

HISTORINHAS RÁPIDAS VI

11, HISTORINHA DESCARADA

 

Era lá pela década de 90 do século passado. Jane e eu fomos com minha irmã e seu ex-marido assistir a um show do Ed Motta, numa casa de show em Ipanema hoje inexistente, o Jazzmania.

Daí a pouco começa o show, e Ed Motta começa a cantar:

– Eu não nasci pra trabalho…

Da mesa atrás de mim, cantou uma voz masculina, no ritmo e no tom do artista:

– Nem eu!

Todos nos voltamos na direção da voz. Era um rapaz, cara de pau, tipo rato de praia, acompanhado de uma senhora generosa, que sorria com a situação. Ela estava feliz com o seu protegido.

 

12. UMA HISTORINHA DE BOM JESUS

No domingo à tardinha, tinham jogado Ordem e Progresso e Olímpico, as duas forças antagônicas no futebol das duas Bom Jesus: o primeiro, do ES; o segundo, do RJ. O Progresso, como dizemos sempre, aplicou um 4×1 impiedoso no time de Bom Jesus do Itabapoana.

Zé Cabeça, por essa altura, tinha um bar, em salão único, comprido, junto de sua casa, na Rua Ten. José Teixeira, a que vai dar na ponte. Ex-jogador e torcedor fanático do Progresso, de Bom Jesus do Norte, escreveu a tinta, no grande espelho da parede do fundo do seu bar, o placar desmoralizante.

E conversava com outros três amigos, sentados à volta de uma das mesas da casa, quando chegou o Alceste Sá Viana, pai do meu colega de escola Altever e amigo de todos os que ali estavam, mas torcedor também fanático do Olímpico.

Ao ver o placar estampado no espelho, Alceste nem colocou o segundo pé na soleira do bar. Puxou o revólver que trazia à cintura, deu três tiros no espelho e disse para o grupo à mesa:
– Está empatado o jogo!

E, de imediato, saiu do local indignado.

Passado o susto, dizem as más línguas que o Zé Cabeça, também pai de outro contemporâneo meu, o Gaiola, perguntou aos outros trocadores de prosa:

– De quem mesmo a gente estava falando mal?

 

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A arquibancada do Estádio Carlos Firmo, em Bom Jesus do Norte-ES (imagem em reliquisdofutebol.blogspot.com).