HOJE EU FICO EM CASA

Hoje não saio de casa
Hoje não vou para a rua
E não irei para a praia
Por uma pálida lua
Não calçarei meus sapatos
Não vestirei roupas novas
Hoje o pijama está posto
Sobre meu corpo cansado
E até que venha o sono
Estarei enclausurado
Na minha casa quieta
Como sempre tenho estado

Hoje eu fico em casa
Bebo um conhaque e mais nada.



Imagem colhida em blog.montacasa.com.br

GORGULHO

Os dois moleques enchem a boca com uma boa chupada na laranja, engolem o caldo e mantêm os caroços na boca, para a disputa.
- Gorgulho!
- Eu entro!
- Com quantos?
- Com oito!

A voz não sai muito boa, porque as bocas estão com vários caroços, a atrapalhar a dicção.

E o desafiante começa a cuspir, um por um, os caroços que ficaram depois daquela primeira sucção na laranja, enquanto conta:
- Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete. Acabou!
- Acabou nada! Você está escondendo um caroço no fundo da boca.
- Não estou! Acabou mesmo!

E abre a boca, põe a língua para fora, a mostrar que não trapaceava no jogo.

Agora era a vez do outro, que para provocar troca sua frase de entrada na brincadeira:
- Gorgulho!
- Te entro!
- Vai à merda! Com quantos?
- Com sete!

E o adversário, por sua vez, repete o procedimento:
- Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito!

Os caroços de laranja voam longe, pela força com que o moleque os expele da boca.

Aquela primeira etapa estava empatada. Mas ainda sobravam duas ou três rodadas por cada fruto.

E continuavam o jogo, sem que nenhum dos dois acertasse a quantidade exata dos caroços que restavam na boca, após a sucção do caldo doce.

Para a disputa, só servem laranjas com caroços. A lima, por exemplo, é muito boa, pois vem normalmente com diversos deles. A seleta e a campista também se prestam à disputa. A laranja-Bahia, por sua vez, não serve, já que não os tem. Aliás, rarissimamente se encontra uma com um ou dois caroços.

E os dois moleques estavam sempre a se desafiar nesse jogo-brincadeira. Cada um tinha seu canivete amolado no bolso do calção para descascar os frutos maduros, sentados no chão sob os arbustos do pomar da casa da avó, que precisava autorizar que os netos periodicamente se fartassem com aqueles cítricos tão apreciados.

Eram vários os tipos de laranjas ali plantados: lima, Bahia, campista, coroa de rei, serra d’água e seleta. Os pés de laranja lima eram os mais numerosos. Dos outros tipos, eram dois ou três de cada. 

Na hora de descascar a fruta era preciso cuidado, de modo a não afundar muito o corte na polpa e expor os gomos. E por aí já começava a disputa: ver quem conseguia tirar a casca mais comprida. Depois era fazer o tampo, que podia ser cacimbinha, caso o canivete tivesse a lâmina pontuda. Enfiava-se a ponta perpendicularmente ao topo da laranja e, com cuidado, se fazia o corte circular, de modo a deixar exposta em uma espécie de base de pequeno cilindro onde o caldo se acumulava a cada aperto suave. A outra técnica, mais fácil, era a tampinha, conseguida com um corte longitudinal da parte superior da laranja.

Para aqueles dois moleques tudo era motivo de disputa. Depois de totalmente esgotada de seu caldo, o resto, a que eles chamavam chupe-chupe, era arremessado longe. E então vencia quem conseguisse a maior distância.

No entanto, o cerne do desafio era o gorgulho, brincadeira vinda de tempos anteriores, de que eles mesmos não tinham conhecimento, e que consistia em reter na boca, após a ingestão do caldo, os caroços que saíam a cada sorvo.

E a disputa continuava até que estivessem empanturrados de caldo de laranja, ou que ouviam o comando da avó, suspendendo a concessão dada. 

- Já vamos, Maína! Só mais uma!

E fechavam a disputa, como quem pede a saideira no bar. 
- Gorgulho!
- Eu entro!
- Com quantos?
- Com cinco!

Imagem colhida na Internet.

OH, TEMPO!

Chegou dezembro.
Ainda anteontem a ano começava auspicioso
E já badalam os sinos precursores do réveillon.
Oh tempo escorregadio
Frenético
Irrefreável
A nos precipitar indefesos
Para o fim!
Quem é capaz de conter tua marcha
Irrevogável
Senão a memória
E esta saudade que nos tornam eternos?

Foto do autor.

A NÃO SER QUE VOCÊ DIGA QUE ME AMA

A vida sempre me deu dores suportáveis
E alegrias comedidas
Nem sempre o sol abrasou demais
Nem o frio queimou a pele ao extremo
Aprendi a viver sem excessos
E a tirar das coisas mais simples
Os prazeres que nos deixam mais humanos
Menos egoístas
E a beleza que nos encanta
Desde o canto triste de um pássaro engaiolado
Até o pio soturno de um bacurau no mato 
Nada do que é natural me espanta
E tiro lições das coisas e dos fatos
Para não me achar mais valioso que os outros
Não valho um centavo a mais do que valho
A não ser que você diga que me ama

Foto do autor.

TRAQUINAGEM POÉTICA





Aristóteles e Horácio, na Antiguidade Clássica, lançaram as bases da arte poética, posteriormente atualizadas ao espírito do Renascimento por Boileau, poeta francês do século XVII, que também lançou sua Arte poética, em Paris, em 1674.
Como não desejo passar em brancas nuvens neste universo, mas tendo o senso de minhas limitações caboclas, permito-me também marcar minha estada no ambiente com estas minhas observações acerca do fazer poético, que resolvi chamar de Traquinagem poética, em que arte assume outro de seus sentidos, coisa que toda criança sabe muito bem o que é.
E seja lá o que Boileau quiser!

I.
O POETA E O VERSO
O poeta tenta
Num esforço de besta
Um verso de esteta.
Esquenta a cabeça
Rasga folhas
Racha a testa
E a porra do verso
Não presta. 

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II.
VERSO DE PÉ QUEBRADO
Distraído
O poeta ébrio
Tropeça no metro 
Do seu próprio verso
De pé quebrado
Como aliás ficou
O inglório pé
Do poeta ébrio
Após esse tropeço.

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III. 
VERSO LIVRE
O poeta está preso
Ao verso livre
E disso não escapa.
Recusa o metro sincrônico
Que amarra o verso.
Mas não tergiversa
E continua controverso
Em sua luta
Pela liberdade do verso.

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IV.
RIMA RICA I
A rima rica
Escrita	
Sobre a folha em branco
É como pérola perdida
Daquelas lançadas aos bichos
Que se depositam em bancos
De jardins de lixo. 
Se tanto!

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V.
RIMA POBRE
Às vezes
Quando pode
O poeta se socorre
De uma rima pobre.
E se alguém lhe censura
Tal recurso antiesteta
Como um urso vocifera:
Vá à merda!

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VI.
O COROLÁRIO DO POEMA
Versos iâmbicos 
Versos esdrúxulos
Palíndromos
Anacolutos 
Palimpsestos
Papiros incompletos.
Todo poema
É um susto do poeta.
E o leitor insone
Que de poesia nada entende
Fica com cara de anteontem.

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VII.
ALQUIMIA POÉTICA
O lavor do poeta não cessa:
Metáforas herméticas
Metonímias diretas
Elipses cortantes
Preciosos hipérbatos
Silepses perfeitas
Linguagem escorreita
E alguma coisa imprecisa
Que faça do seu verso
Uma festa. 

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VIII.
DILEMA DA FORMA
Entre um poema clássico
E um moderno
O estro do poeta vacila.
Ora uma rima inesperada
Ora uma aliteração cristalina
E a liberdade de versos brancos
Pululam em sua oficina
De poesia bissexta.
E o poeta hesita
Se publica ou não publica
Aquela poesia esquisita.

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IX.
RIMA RICA II
A rima é rica
Mas o poeta é pobre
A rima escorre
Como uma baba mole
Pelos dedos magros
Do poeta insone
Pela madrugada
Aberta sobre o nada.
E pela manhã cedinho
Aflora mais um poema disforme...

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X.
VERSOS E ESTROFES
Tercetos e quartetos
Quintilhas e sextilhas 
Alexandrinos debordados
Trovas incontidas
Dísticos e sonetos
Espalhados aos quatro ventos.
Mas para o ano
Só martelo alagoano.

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XI.
A GÊNESE DO POETA
Não nasceu Horácio
Não nasceu Homero
Não é Petrarca
Camões não é
Ou Virgílio
Ou Dante Alighieri
Muito menos Baudelaire
Rimbaud Bocage Chaucer
Shakespeare 
Gregório ou Góngora
Drummond de Andrade
Prévert ou Poe.
Como poeta
Soa como um grou 
Um corvo 
Uma acauã soturna.
Sua voz cavernosa
Canta versos sombrios
Anunciando o inferno
E seus desafios.

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XII.
PROSA E VERSO
O avesso do verso
É bem que não presta
Na imaginação do poeta.
Tudo que se diz em letra
Há de ter o ritmo certo
O metro correto
Uma dolente cadência. 
A estética do canto
Está acima do desencanto
Da prosa.
E só o poema se salva
Desde que Adão e Eva
Se perderam
No paraíso primevo
Crê o poeta.
Nicolas Boileau, poeta francês do século XVII (imagem colhida na Internet).

SONHOS

Quando vou ao encontro dos meus sonhos de menino
Não mais os encontro
Sinto apenas que tais sonhos
Perderam-se no tempo
Quedaram-se no limbo
Daquilo que sonhava enquanto pequenino
São sonhos apenas
Eram lindos? Não importa
Pois a vida me exigiu ir adiante
Oferecendo-me a cada caminho novo destino
E não pude me furtar a isso

Hoje não sonho mais como antes
Apenas insisto em manter o barco apontado à frente
Naquilo que daqui a pouco
Será o dito pelo não dito

Mas não me sinto aflito
Meus sonhos não satisfeitos
Não me puseram em conflito
Ficaram como memórias tranquilas
Dos meus tempos de menino

Barco na Baía de Guanabara (foto do autor).

FUTEBOL: TEORIA E PRÁXIS

  1. O jogador discute com o adversário a correta posição da bola para a cobrança da falta, vence a disputa e consegue adiantar um metro, em relação ao ponto de ocorrência da infração, sob a indiferença de Sua Senhoria. O árbitro autoriza a cobrança, e o jogador recua a bola ao seu companheiro mais atrás.
  2. O jogador vai cobrar o escanteio e tenta ser esperto, adiantando a bola cerca de dois centímetros além da marca do semicírculo do escanteio, impossível de ser percebido pelo árbitro. Isso representa cerca de 0,0058823529% da distância até o meio da pequena área.  Nada que uma ínfima força a mais no chute não supere com sobras.
  3. Numa bola cruzada sobre a pequena área, defensor e atacante se precipitam em sua direção na ânsia ou de mandá-la para fora, ou de metê-la na rede. Os dois chegam juntos. A bola, capciosamente, esbarra na cabeça do defensor e vai para as redes. Como os dois estivessem ao mesmo tempo no lance, o atacante sai comemorando o tento, como se tivesse sido sua cabeçada a impulsionar a pelota para o fundo da meta. Os companheiros correm para abraçá-lo, e ele joga beijinhos para a câmara colocada à margem do campo. Só depois o VAR confirma o gol contra.
  4. O futebol é o único esporte que, após noventa minutos do tempo normal e, às vezes, mais trinta minutos de prorrogação, permite que um jogo termine sem um único gol e, ainda assim, que este mesmo jogo seja motivo de mesas redondas, comentários e análises profundas de suas causas e consequências, por uma vasta equipe de especialistas.
  5. O futebol é o único esporte em que, num jogo, um time seja superior ao outro em posse de bola, em domínio de campo, em chutes a gol, e, ainda assim, saia derrotado pelo time de pior desempenho, que atirou uma única vez a pelota em direção à meta do adversário.
  6. Não há nada mais desonroso do que, numa goleada, o famigerado gol de honra. Seria melhor assumir a desonra, sem incomodar o vencedor.
  7. O VAR, no futebol brasileiro, leva mais tempo para revisar um lance do que em outros países mundo afora, porque aqui a nossa incredulidade é tão grande, que não nos permite crer naquilo que vemos, senão naquilo que gostaríamos de ver.
  8. A cotovelada, que não é autorizada em nenhum outro esporte, é recurso comezinho na prática no nobre esporte bretão. Leonardo, jogador da seleção brasileira que foi à Copa do Mundo dos Estados Unidos em 1994, muito fez em prol da sua difusão.
  9. Dado o início do jogo, tudo que foi conjecturado antes da partida fica em suspenso, até que posteriormente as mesas-redondas tentem explicar o inexplicável: a derrota do time de melhor desempenho nos noventa minutos.
  10. O jogador que comete uma falta violenta, é expulso e reconhece, ao ser entrevistado ao final da partida, que o árbitro agiu corretamente ainda não foi inventado.
Imagem em wikipedia.org.

VIAGEM POR NUESTRA AMÉRICA

Amigos leitores, 

incentivado pela amiga Imara Reis, registrei as memórias da viagem que eu, minha mulher e meus amigos Eduardo Pacheco de Campos, Rogério Andrade Barbosa e Mara, empreendemos pelo Cone Sul da América, em janeiro de 1976.

Agora o texto, com o título Viagem por nuestra América, foi lançado pelo Clube de Leitores, onde também já publiquei meus outros livros (Asfalto&mato, contos; Itinerário para quem chega a Liberdade, poemas; e Pensamentos bem-pensados, frases).

Caso tenham interesse em adquiri-lo sob a forma impressa ou virtual (e-book), é só clicar no link abaixo da capa, para ser direcionado ao sítio da editora.

Antecipadamente, agradeço seu interesse.

LUDWIG MEU BEETHOVEN

Hoje meu sogro Beethoven faria 105 anos. Faleceu aos 96, no mesmo dia em que o Francisco, seu bisneto, nasceu: 19 de outubro de 2012.
Meu filho Pedro Neiva de Mello escreveu o texto a seguir em sua homenagem.
Com certeza, seu Beethoven merece.

“[Ludwig Meu Beethoven]

Pediu um copo d’água à empregada, estava com sede. Bebeu, deitou-se e descansou. Para sempre.

Foi assim que meu avô saiu de cena há alguns anos. É assim que contamos como foram os seus últimos minutos, para nos confortar de que ele teve uma morte tranquila. Palhaçada! Seu Beethoven Neiva teve, foi, uma vida fantástica, ou fez dela memorável. A morte foi somente a cena final de sua epopeia.

Um homem e vários nomes. Beethoven você já sabe. Lhe foi dado para ser uma homenagem viva ao gênio da música. Além deste chamava-se Betove, Bertoza. Até Bethovem O´Neida, como vi grafado num convite de casamento entregue em sua casa em Miracema. Nunca se importou em ser chamado por todos estes nomes e acho que os adotou com o mesmo sorriso no rosto que levou a vida. O vô tinha preocupações mundanas, como a temperatura da Skol que deveria passar 24hs na geladeira antes de ser servida. Mas jamais com a pronúncia de seu nome. Até porque do Ludwig de Viena ele só compartilhava a surdez.

Dos meus grandes prazeres da vida de menino era ser convidado pra “ir ali na rua” com ele. Como não morávamos na mesma cidade, nos víamos nas férias e, logo, toda vez que me encontrava eu estava maior e, para ele, mais bonito e inteligente. Mais gordo também. Vovô era fitness e sempre implicou com as minhas curvas. Bom…voltemos para rua. Dava-me a mão ou me colocava na garupa da sua mobilete e saíamos em direção à Rua Direita. Por lá me mostrava aos amigos donos de bar, farmácia, ao povo na rua. Exibia-me como um troféu genealógico e esperava dos amigos um elogio. Caso este não viesse, ele mesmo o fazia “Meu neto mais velho, esse rapaz bonito”. Aquilo me dava um orgulho danado, apesar de um constrangimento natural pelo ato de ser vitrine.

Como tinha muitos amigos, o passeio era demorado. Vez ou outra me dava um salgadinho para retardar a visita na venda e dar mais tempo de um ou outro compadre carregar nos elogios. “Bertoza, esse filho da Jane parece o Jorge.” – falavam os amigos do bar. “Bertoza” sempre vinha de vozes ébrias e roucas por conta da lida com a “marvada”. Era a turma do bar. “Betove, esse menino já tá deste tamanho?” – era a dúvida das amigas da minha avó que encontrávamos nas calçadas. “Betove” era o jeito doce pelo qual lhe chamavam.

Concluído o passeio, chegava em casa com a certeza de que meu avô era uma estrela do passeio público. Benquisto, simpático e, principalmente, orgulhoso de eu ser seu neto, apesar de roliço. Um galã da terceira idade de um saudoso interior fluminense dos meus tempos de menino.

Hoje celebramos seus 105 anos. Cheios de histórias e memórias marcantes de sua epopeia. Por mais legal que ele tenha sido como avô, e sei, como pai, acho que seu melhor papel deu-se sendo “Bertoza” ou “Betove”. Sendo o protagonista das histórias das ruas de sua cidade.

Dane-se a morte pra quem foi um popstar! Viva a vida do meu vô!”