SONHOS

Quando vou ao encontro dos meus sonhos de menino
Não mais os encontro
Sinto apenas que tais sonhos
Perderam-se no tempo
Quedaram-se no limbo
Daquilo que sonhava enquanto pequenino
São sonhos apenas
Eram lindos? Não importa
Pois a vida me exigiu ir adiante
Oferecendo-me a cada caminho novo destino
E não pude me furtar a isso

Hoje não sonho mais como antes
Apenas insisto em manter o barco apontado à frente
Naquilo que daqui a pouco
Será o dito pelo não dito

Mas não me sinto aflito
Meus sonhos não satisfeitos
Não me puseram em conflito
Ficaram como memórias tranquilas
Dos meus tempos de menino

Barco na Baía de Guanabara (foto do autor).

FUTEBOL: TEORIA E PRÁXIS

  1. O jogador discute com o adversário a correta posição da bola para a cobrança da falta, vence a disputa e consegue adiantar um metro, em relação ao ponto de ocorrência da infração, sob a indiferença de Sua Senhoria. O árbitro autoriza a cobrança, e o jogador recua a bola ao seu companheiro mais atrás.
  2. O jogador vai cobrar o escanteio e tenta ser esperto, adiantando a bola cerca de dois centímetros além da marca do semicírculo do escanteio, impossível de ser percebido pelo árbitro. Isso representa cerca de 0,0058823529% da distância até o meio da pequena área.  Nada que uma ínfima força a mais no chute não supere com sobras.
  3. Numa bola cruzada sobre a pequena área, defensor e atacante se precipitam em sua direção na ânsia ou de mandá-la para fora, ou de metê-la na rede. Os dois chegam juntos. A bola, capciosamente, esbarra na cabeça do defensor e vai para as redes. Como os dois estivessem ao mesmo tempo no lance, o atacante sai comemorando o tento, como se tivesse sido sua cabeçada a impulsionar a pelota para o fundo da meta. Os companheiros correm para abraçá-lo, e ele joga beijinhos para a câmara colocada à margem do campo. Só depois o VAR confirma o gol contra.
  4. O futebol é o único esporte que, após noventa minutos do tempo normal e, às vezes, mais trinta minutos de prorrogação, permite que um jogo termine sem um único gol e, ainda assim, que este mesmo jogo seja motivo de mesas redondas, comentários e análises profundas de suas causas e consequências, por uma vasta equipe de especialistas.
  5. O futebol é o único esporte em que, num jogo, um time seja superior ao outro em posse de bola, em domínio de campo, em chutes a gol, e, ainda assim, saia derrotado pelo time de pior desempenho, que atirou uma única vez a pelota em direção à meta do adversário.
  6. Não há nada mais desonroso do que, numa goleada, o famigerado gol de honra. Seria melhor assumir a desonra, sem incomodar o vencedor.
  7. O VAR, no futebol brasileiro, leva mais tempo para revisar um lance do que em outros países mundo afora, porque aqui a nossa incredulidade é tão grande, que não nos permite crer naquilo que vemos, senão naquilo que gostaríamos de ver.
  8. A cotovelada, que não é autorizada em nenhum outro esporte, é recurso comezinho na prática no nobre esporte bretão. Leonardo, jogador da seleção brasileira que foi à Copa do Mundo dos Estados Unidos em 1994, muito fez em prol da sua difusão.
  9. Dado o início do jogo, tudo que foi conjecturado antes da partida fica em suspenso, até que posteriormente as mesas-redondas tentem explicar o inexplicável: a derrota do time de melhor desempenho nos noventa minutos.
  10. O jogador que comete uma falta violenta, é expulso e reconhece, ao ser entrevistado ao final da partida, que o árbitro agiu corretamente ainda não foi inventado.
Imagem em wikipedia.org.

VIAGEM POR NUESTRA AMÉRICA

Amigos leitores, 

incentivado pela amiga Imara Reis, registrei as memórias da viagem que eu, minha mulher e meus amigos Eduardo Pacheco de Campos, Rogério Andrade Barbosa e Mara, empreendemos pelo Cone Sul da América, em janeiro de 1976.

Agora o texto, com o título Viagem por nuestra América, foi lançado pelo Clube de Leitores, onde também já publiquei meus outros livros (Asfalto&mato, contos; Itinerário para quem chega a Liberdade, poemas; e Pensamentos bem-pensados, frases).

Caso tenham interesse em adquiri-lo sob a forma impressa ou virtual (e-book), é só clicar no link abaixo da capa, para ser direcionado ao sítio da editora.

Antecipadamente, agradeço seu interesse.

LUDWIG MEU BEETHOVEN

Hoje meu sogro Beethoven faria 105 anos. Faleceu aos 96, no mesmo dia em que o Francisco, seu bisneto, nasceu: 19 de outubro de 2012.
Meu filho Pedro Neiva de Mello escreveu o texto a seguir em sua homenagem.
Com certeza, seu Beethoven merece.

“[Ludwig Meu Beethoven]

Pediu um copo d’água à empregada, estava com sede. Bebeu, deitou-se e descansou. Para sempre.

Foi assim que meu avô saiu de cena há alguns anos. É assim que contamos como foram os seus últimos minutos, para nos confortar de que ele teve uma morte tranquila. Palhaçada! Seu Beethoven Neiva teve, foi, uma vida fantástica, ou fez dela memorável. A morte foi somente a cena final de sua epopeia.

Um homem e vários nomes. Beethoven você já sabe. Lhe foi dado para ser uma homenagem viva ao gênio da música. Além deste chamava-se Betove, Bertoza. Até Bethovem O´Neida, como vi grafado num convite de casamento entregue em sua casa em Miracema. Nunca se importou em ser chamado por todos estes nomes e acho que os adotou com o mesmo sorriso no rosto que levou a vida. O vô tinha preocupações mundanas, como a temperatura da Skol que deveria passar 24hs na geladeira antes de ser servida. Mas jamais com a pronúncia de seu nome. Até porque do Ludwig de Viena ele só compartilhava a surdez.

Dos meus grandes prazeres da vida de menino era ser convidado pra “ir ali na rua” com ele. Como não morávamos na mesma cidade, nos víamos nas férias e, logo, toda vez que me encontrava eu estava maior e, para ele, mais bonito e inteligente. Mais gordo também. Vovô era fitness e sempre implicou com as minhas curvas. Bom…voltemos para rua. Dava-me a mão ou me colocava na garupa da sua mobilete e saíamos em direção à Rua Direita. Por lá me mostrava aos amigos donos de bar, farmácia, ao povo na rua. Exibia-me como um troféu genealógico e esperava dos amigos um elogio. Caso este não viesse, ele mesmo o fazia “Meu neto mais velho, esse rapaz bonito”. Aquilo me dava um orgulho danado, apesar de um constrangimento natural pelo ato de ser vitrine.

Como tinha muitos amigos, o passeio era demorado. Vez ou outra me dava um salgadinho para retardar a visita na venda e dar mais tempo de um ou outro compadre carregar nos elogios. “Bertoza, esse filho da Jane parece o Jorge.” – falavam os amigos do bar. “Bertoza” sempre vinha de vozes ébrias e roucas por conta da lida com a “marvada”. Era a turma do bar. “Betove, esse menino já tá deste tamanho?” – era a dúvida das amigas da minha avó que encontrávamos nas calçadas. “Betove” era o jeito doce pelo qual lhe chamavam.

Concluído o passeio, chegava em casa com a certeza de que meu avô era uma estrela do passeio público. Benquisto, simpático e, principalmente, orgulhoso de eu ser seu neto, apesar de roliço. Um galã da terceira idade de um saudoso interior fluminense dos meus tempos de menino.

Hoje celebramos seus 105 anos. Cheios de histórias e memórias marcantes de sua epopeia. Por mais legal que ele tenha sido como avô, e sei, como pai, acho que seu melhor papel deu-se sendo “Bertoza” ou “Betove”. Sendo o protagonista das histórias das ruas de sua cidade.

Dane-se a morte pra quem foi um popstar! Viva a vida do meu vô!”

O TEMPO NÃO PARA

O conceito de tempo é um problema para a Filosofia e a Literatura. Para o resto das disciplinas humanas, não; principalmente para as indisciplinas.

Quando fiz o Curso de Letras, lá pelos idos de 60/70 do século passado (Isso é tempo!), aprendi a diferença entre o tempo físico – entidade concreta da realidade, mensurável por um aparelho então mecânico à época – e o tempo psicológico – entidade que se incorpora na pessoa conforme, por exemplo, o aperto por que passa e o tempo que tem para dele se safar.

Além disso, volta e meia surge um estudioso a dizer que o tempo simplesmente não existe, que é um conceito inventado pelo ser humano, para tentar organizar a zona em que transformou sua vida, a partir da primeira fogueira acesa numa caverna lá nos tempos paleolíticos (“antiga pedra”, em grego antigo). Ou será que esses tempos também não existiram?

Contudo o problema se tornou maior quando as tribos resolveram sentar praça num sítio mais propício à agricultura e passaram a observar a sucessão de estações do ano: outono, inverno, primavera e verão. E viram que aquilo as ajudava a obter maior vantagem das sementes que atiravam à terra. Era preciso prestar atenção a tal sucessão de tempo.

Quando, enfim, (Olha a noção de tempo novamente na conjunção!) domesticaram o gado e inadvertidamente deixaram talhar o leite de um dia para o outro, sob o escaldante calor de um verão qualquer do neolítico (“nova pedra”, em grego antigo – Outra vez esse tempo reincidente!), chegaram ao impasse de ter de beber todo o produto da ordenha num mesmo dia, ou passar a fazer queijo com a transformação láctea ocorrida. Até porque ainda não existia a geladeira, que seria inventada nos anos 1900 de um tempo de que ainda nem tinham noção.

Um pouco tempo depois, 3500 a.C. (Será verdade isso?), foi criado o primeiro relógio de sol no antigo Egito, a fim de sistematizar os trabalhos a serem desenvolvidos na construção das pirâmides enquanto o astro rei estivesse presente no firmamento.

Bem depois vieram os suíços e sua mania de precisão a produzir relógios mecânicos, por volta do século XVIII, embora a traquitana já tivesse sido inventada no século XIV (Estão notando como tudo tem a marca de tempo?). Desde então ninguém pôde mais alegar perder a hora, como me disse certa vez meu finado dentista, quando cheguei atrasado para a consulta do dia:

– Saint-Clair, depois da invenção do relógio, ninguém mais tem o direito de perder a hora.

E ele estava cheio de razão, já naquela ocasião, na dobra da primeira para a segunda metade do século XX. Aliás, tal lição aprendi-a de tal forma, que passei a ser quase um suíço, ou um alemão, que dizem ser o verdadeiro psicótico com o tempo, no cumprimento de horários. Segundo um amigo me disse, na Alemanha nenhum trem parte em horário cheio, mas sempre em horário fracionado: Berlim > Munique: 8h17, plataforma 1.

Entretanto – e sobretudo – creio que o que definitivamente põe por terra o argumento do filósofo de que o tempo não existe foi a consagração do crediário. Principalmente o de longo prazo, aquele de trinta anos, por exemplo, para a quitação da casa própria. Quando, a cada ano (Olha o tempo escorrendo novamente!), o adquirente recebe da instituição financeira o bloco de boletos de pagamento de suas prestações, ele tem a certeza insofismável de que o tempo não para. Que veio lá desde o sinal para a aquisição do imóvel, até o último boleto, quando então será o rei de seu castelo doméstico. Caso não tenha falecido durante a vigência do contrato, e não tenham os herdeiros de se beneficiar pela cláusula de seguro contra morte.

E, para pôr um fim a essa baboseira toda e reforçar meu argumento contra a temeridade da afirmação do filósofo, posso referir Caetano Veloso (Oração ao tempo), Cazuza e Arnaldo Brandão (O tempo não para), Camões (Mudam-se os tempos, muda-se a vontade), Manuel Bandeira (Canção do vento e da minha vida), que não me deixam mentir. Porém, principal e definitivamente, o carnê do IPTU que me aponta o mês de dezembro de 2021 como minha obrigação de estar presente no tempo, para que eu não caia na seção de Dívida Ativa da municipalidade de Niterói.

Meu tempo acabou. Até a próxima oportunidade.

Relógio de sol de Machu Picchu, Peru (foto colhida na Internet, embora eu já tenha estado lá.).

BENÇA, MÃE!

Mãe,
Por quanto tempo ainda devo seguir teus conselhos?
Já sou bem crescido, mãe,
Já tenho idade!
Por que ainda tenho de ser correto,
Andar na linha,
Respeitar os mais velhos?
Não sujar a roupa,
Ter atenção no que faço,
Não brigar na rua?
Já posso sair sozinho, mãe,
Tenho juízo.
Já uso até calça comprida!
Será que basta
Ou ainda preciso seguir tuas orientações:
Ser honesto,
Respeitar a professora,
Ser dedicado aos estudos
Cumprimentar as pessoas?
Tá bem, mãe,
Vou fazer assim.
Bença, mãe!
Já vou dormir.
Amanhã tenho de levar meu neto à escola.

Van Gogh, Mãe e filho, 1885 (imagem colhida na Internet).

——–

PS: Este poema foi escrito para comemorar o Dia das Mães. Entretanto meu computador entrou em estado de coma duas semanas antes e até hoje não foi curado. Consegui fazer uma cópia do disco em que o poema está registrado. Pelo atraso, peço desculpas às mães, a quem ele é dedicado.

O TORCEDOR

O cara acorda no futuro, tempos após entrar em estado de coma, num hospital particular da zona sul da capital.

Ao recobrar a consciência vê uma mulher já com pés-de-galinha a contornar os olhos, alguns cabelos brancos e o rosto de bochechas negativas, ao lado da cama, e pergunta pela esposa:

– Cadê a Zoraide?

Surpresa com o fato, a mulher responde:

– Querido, sou eu, a Zoraide! Que bom que você acordou!

– Zoraide?! É vocês mesma?! – se espanta o homem diante da mulher mais velha que ali está, mas cujas feições não lhe eram estranhas.

A Zoraide não tinha cabelos brancos, nem pés-de-galinha, nem bochechas cavadas. Quando se deu o problema, era ainda uma mulher jovial, com os hormônios a funcionarem visivelmente em seu corpo bem-feito, em suas feições bem talhadas.

– Quanto tempo fiquei aqui, dormindo, inconsciente? Fale devagar para eu não tomar susto? Tem um espelho aí, para que eu me veja? E aquele jogo do Vasco contra o Flamengo pelo Campeonato Carioca, que ganhávamos por três a zero, como terminou?

– Calma, Frederico! Vamos por partes, senão é capaz de você voltar ao coma novamente.

– Então, mulher, me diga aí!

– Em primeiro lugar, o jogo terminou três a um para o Vasco. Embora alguns torcedores do Flamengo esperassem uma virada já aos quarenta e sete minutos do segundo tempo.

– Eles são incorrigíveis. E fomos campeões cariocas?

– Calma. Depois te falo isso.

O piripaque que o levou ao hospital fora exatamente no terceiro gol do seu time contra o Flamengo, na mais improvável das projeções de todos os especialistas em futebol. Quando o atacante deu o drible no lateral esquerdo adversário, deixando-o desmoralizado no gramado, e chutou no canto do goleiro, ele não viu mais nada e teve de ser rebocado para o hospital, às pressas, porque não atinava com mais nada.

Por isso que sua grande preocupação, no momento em que recobrava a consciência, era justamente o resultado do jogo.

– Vou pegar um espelho para você se ver.

Zoraide trouxe o espelhinho que carregava na bolsa e lhe permitia dar um tapa no visual, como se diz comumente, durante todo o tempo que passava no hospital. Pelo menos duas vezes por semana, vinha sentar-se ao lado da cama onde seu marido se mantinha sob a parafernália médica que o conservava vivo, embora inconsciente. E não percebeu que, aos poucos, foi perdendo o restinho de viço que ainda portava.

Frederico se olhou no espelho que a mulher lhe estendeu e não gostou do que viu.

– Esse sou eu?!

– Exatamente, sem tirar, nem pôr.

– Como sem tirar, nem pôr?! Você vê o que eu estou vendo?

– Sim! Exatamente! Espelhos não mentem jamais. Lembra do espelho da Rainha Má da Branca de Neve?

– Que isso, mulher? Estou falando sério! Esse que vi parece meu irmão mais velho e não eu.

– Pois então. Você ficou a cara dele.

– Mas ele é mais velho do que eu quatro anos! Quanto tempo estou aqui neste hospital? Isso é um hospital, não é mesmo?

– Claro que é um hospital! E você está aqui há praticamente quatro anos. Ou pensa que eu passei maquiagem, pintei os cabelos ou fiz bichectomia? São quatro anos de sofrimento, em que venho aqui duas vezes por semana, sento-me ao seu lado, pego um livro para ler, futuco o celular para ver as redes sociais, rezo meu terço, enquanto aguardo você voltar, ou… Sei lá! – e não deu vida àquele pensamento funesto.

– Eu perdi quatro anos da minha vida inconsciente, Zoraide? É isso que você me diz?

– Frederico, veja pelo lado positivo: você ganhou quatro anos de vida. Agora está aqui de volta, conversando comigo de um jeito inesperado e surpreendente. Aquele terceiro gol do Vasco, em abril de dois mil e vinte e um, poderia ter sido seu atestado de óbito. E você ainda reclama?!

Neste ínterim, chega o médico de plantão a fazer a inspeção dos pacientes internados. Dirige-se ao leito de Frederico e se surpreende com sua saída do coma.

– Dona Zoraide, há quanto tempo seu marido recuperou a consciência?

– Há uns três ou quatro minutos, doutor.

– E por que a senhora não nos comunicou imediatamente? Estávamos no instante da troca de plantão.

– É que ele já acordou cheio de perguntas, de questões, e fiquei aqui envolvida com ele. Desculpe.

– Sem problemas, dona Zoraide. Melhor assim, já que não houve nenhuma intercorrência.

O médico pediu licença à mulher, pois iria fazer uma série de avaliações, para entender o atual estado do paciente. Durante quatro anos, ele tinha estado naquele mesmo lugar, conferindo todos os índices dos aparelhos, avaliando o estado geral de Frederico e, justamente agora, queria saber se a volta era definitiva, ou apenas um rebate falso, preparativo para um desenlace fatídico.

Ao final dos exames, chama Zoraide de volta e comunica que, surpreendentemente, seu marido estava muito bem, que talvez até pudesse ter alta, com as recomendações de acompanhamento fisioterápico doméstico e uma batelada de medicamentos, para uma completa recuperação.

Dois dias depois, a ambulância do hospital leva Frederico para casa, toda preparada para recebê-lo. Os enfermeiros o levam em cadeira de rodas até o apartamento, acomodam-no numa poltrona confortável da sala e se despedem, desejando boa recuperação.

Frederico se sentia confortável e feliz. Pede à mulher meio copo de água fresca e que ela procure na smarttv de última geração, comprada durante sua estada no hospital, o vídeo da partida entre Vasco e o Flamengo. Aquela mesma! Queria rever tudo, sobretudo os minutos finais. A mulher ainda ponderou que não seria aconselhável, já que fora exatamente o jogo que o metera naquela enrascada.

– Que nada, Zoraide! Eu agora já sei o resultado da partida. Não há mais o fator surpresa, a emoção, a adrenalina desenfreada.

Zoraide procurou, procurou, até que achou. Pôs a rodar o vídeo e foi para a cozinha providenciar o almoço. De lá, ouvia a narração do jogo e os palpites do Frederico, sua vibração a cada gol, a cada lance bonito do seu time.

– Está tudo bem aí, Frederico? – perguntava de vez em quando, como a monitorar o marido.

– Tudo bem! Sem problemas! Só me divertindo novamente.

E continuava ela a refogar o arroz, a temperar o feijão, a preparar a sopa para o marido.

Então se aproximava o instante em que o Vasco faria o terceiro gol. Do grande círculo de jogo, o jogador vascaíno vê o colega na intermediária ofensiva, calibra o passe e lança a bola do lado esquerdo do companheiro, que parte na corrida. O último homem do adversário é justamente seu lateral esquerdo, com passagem no estrangeiro e na Seleção, que parte junto do vascaíno, a tentar barrar sua progressão em direção à grande área. Exatamente sobre a linha da grande área, o vascaíno trava a bola e a corrida, enquanto o flamenguista se esborracha no gramado. O vascaíno escolhe o canto e mete a bola no gol, com tal perícia, que ao goleiro rubro-negro, sobre a linha da pequena área, resta apenas, desolado, vê-la morrer no fundo das redes.

Neste instante, o coração de Frederico parou. E agora definitivamente.

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Imagem colhida na Internet.

CONTOS LIGEIROS DE PANDEMIA

(Dedicado, com profundo respeito, às vítimas desta terrível pandemia.)

O ESPIRRO

O cara de chapéu de palha adentra o coletivo, já cheio àquela hora da manhã. Chovia fino no momento, e todas as janelas estavam ou completamente cerradas ou com ligeira abertura, a permitir que entrasse um tiquinho de ar fresco. Ele espirra, assim que valida sua passagem. E, mesmo de máscara, é atirado fora do coletivo pelos dois fortões que se sentavam no primeiro banco da direita. Da calçada, ainda grita impropérios em vão contra os fortões.

A FEBRE

À entrada do shopping está o segurança munido de uma garrafa de álcool e um termômetro digital. O termômetro foi calibrado para marcar um grau a menos, a fim de não se perder cliente. Chega um cara de boné e máscara. Lá fora faz um sol intenso. O segurança borrifa álcool na mão do cara e lhe tira a temperatura, momento em que percebe 38° no mostrador e barra a entrada do cara. O cara, revoltado, retira a máscara e tosse em direção ao rosto do segurança, que sai correndo para o interior do shopping, borrifando-se de álcool.

A GARGANTA RASCANTE

No interior da padaria da esquina, há uma pequena fila a aguardar a saída da mais recente fornada de pães fresquinhos. O cara, de gorro e máscara, apressado, raspa a garganta rascante com insistência e dá bom dia fanhoso a todos. Há uma debandada geral, e ele passa a ser o primeiro da fila. A mocinha atendente não conseguiu fugir.

A FALTA DE AR

O elevador só comporta quatro passageiros, conforme normas em tempos de pandemia. Ao descer, para no décimo andar, quando o cara de chapéu de panamá e máscara entra e cumprimenta os outros três. Ninguém responde. O cara, então, começa a apresentar sintomas de falta de ar. Tenta puxar o ar do espaço exíguo, leva a mão à garganta e ofega com dificuldade. Um dos passageiros aperta o botão do quarto andar, após observar no painel a altura em que se encontra o elevador. Assim que a porta se abre, os outros três passageiros saem correndo do elevador. O cara, aliviado, expele o gás intestinal que o afligia com uma cólica. E escapa no térreo, sem olhar para trás. Azar de quem entre!

PROBLEMAS NO OLFATO

O cara de chapéu de feltro e máscara observa, assim que a porta do elevador se abre, a saída célere do outro cara de chapéu de panamá e máscara e entra no elevador, empesteado com o mau cheiro da flatulência deixada pelo outro. Vai até o décimo andar à consulta marcada com o clínico geral, reclamar que não consegue perceber cheiros. Nem do café oloroso que lhe faz a mulher. Deve ser o diabo da sinusite novamente, pensa ele.

AGLOMERAÇÃO

Já havia no local seis pessoas. Todos estão de máscara. O espaço era exíguo. Todos aguardavam atendimento, com reclamações contra o mau cheiro da água da CEDAE. Pelo menos, pensavam, se sentem o mau cheiro, é sinal de que não estão com a maldita COVID-19. Chega o cara de chapéu de couro e máscara, que cumprimenta os demais. Um que responde o cumprimento pergunta se ele também vinha reclamar do cheiro da água. O homem de chapéu de couro diz que não, que a reclamação é contra o hidrômetro, que parece marcar a mais. As outras seis pessoas desfazem a aglomeração instantaneamente, escapando porta afora.

ÓBITOS

O cara sem chapéu e máscara jogava pôquer em casa, quando recebeu a notícia da morte do parente. Era um primo que não resistira às complicações do maldito vírus. Um pouco depois, outra notícia de outro primo vitimado em Itaperuna. Algumas semanas após mais dois primos por afinidade sucumbiram à doença. Todos eles viraram estatística, na conta funesta da pandemia. Foram extraídos do círculo de afeto que enlaça as famílias e lançados entre as centenas de milhares de sacrificados, sem glória, sem honra, sem despedidas. E a desesperança começou a dar as cartas bem de pertinho, fazendo uma sequência macabra de straight flush. Ainda será possível um royal flush para reverter o jogo, pensou ele.

Pieter Bruegel, o Velho. O triunfo da morte; 1562 (Museu do Prado).

JUQUITA E O ISQUEIRO

Um dia Juquita amanheceu cismático, cheio de ípsilones, como nunca havia ocorrido. Ele não era uma pessoa assim. Muito ao contrário. Era um homem circunspecto, de poucas palavras, alheio ao interesse pela vida alheia e, sobretudo, tranquilo.

Mas naquele dia acordou cedo demais, ainda com o escuro da madrugada, e foi até o terreiro assuntar o céu. Como de hábito, acendeu o cigarro, que tragava em longas baforadas, enquanto procurava estrelas e as explicações que delas proviessem. Um pouco depois, durante o café da manhã, disse à mulher que o barulho do movimento das estrelas o incomodara durante a madrugada, de modo que não conseguira dormir direito. Tinha passado parte do tempo na cama, a rolar de um para outro lado, imaginando ouvir vozes misteriosas, numa língua desconhecida. Pensou tratar-se de fala de alienígenas. Como, porém, não fosse de todo sem ilustração, intuiu que qualquer língua diferente do português e do espanhol, que julgava um português malfadado, seria língua de etês. Pelo menos, no entanto, nunca ouvira nada semelhante, ainda mais porque, ao fundo, ouvia ruídos parecidos com os velhos rádios rabo-quentes da sua infância, a tentar sintonizar estações ao longo do dial.

A mulher ponderou que pudesse ser excesso de cera nos ouvidos, a produzir barulhos estranhos dentro da cabeça. Ainda mencionou uma tia já defunta, a tia Laurinda, que tivera sensação igual à dele e passou por uma lavagem, em que quase duzentos gramas de entulhos foram removidos de seus ouvidos. Depois disso ela até passou a ouvir o que não queria, mas tudo naturalmente.

Porém Juquita não admitiu o diagnóstico da mulher. Há dois, três meses fizera limpeza semelhante. E seus ouvidos não seriam capazes de gerar quantidade de cera necessária a produzir ruídos como os que ouvira. Agora mesmo, ali tomando o café com ela, não ouvia nada estranho. Eram os barulhos naturais da vida. Aquilo não foi normal. Foi algo muito estranho.

A mulher indagou, então, se, por acaso, por uma remota hipótese, ele não teria sonhado e, sonâmbulo, saído porta afora da casa no meio da noite, para pitar um cigarrinho, vício que ainda acabaria por levá-lo ao cemitério, como asseverava contrariada.

– Claro que não, mulher! Então eu não vou saber se estou dormindo ou acordado. Aliás só sei mesmo quando estou acordado, porque dormindo não tenho consciência de nada. Foi isso que eu te disse: ouvi o barulho das estrelas se movimentando no infinito e uma espécie de vozes estridentes, falando uma língua esquisita, entre ruídos de rádio sendo sintonizado.

Ele tinha certeza de que ouvira. Só não sabia o que ouvira.

A mulher olhou para ele incrédula, lambuzou de manteiga uma fatia de pão, molhou no café e tirou um bom pedaço. Deu um muxoxo, como que conformada.

– Realmente não sei o que lhe falar. Não sendo cera no ouvido, fica complicado. Vamos ver se isso se repete. Caso aconteça, é bom procurar um médico, para descobrir o que está acontecendo. Ninguém ouve ruídos de estrelas. Eles não chegam até aqui.

Aquela próxima noite passou sem novidades. O casal acordou no horário habitual e, durante o café, Juquita comentou:

– Hoje dormi sem novidades. Não ouvi ruído nenhum. Foi um sono só, até agora de manhã.

– Então, Juquita, não foi nada demais. Você deve ter sonhado. Já ouvi falar num tal sonho vívido, que a pessoa sente como se fosse realidade. E você sabe disso.

– Sei não, mulher! Sei não! Mas que foi esquisito, lá isso foi. Mas vamos tocar a vida em frente como se nada tivesse acontecido. Quero esquecer.

E o dia rolou tranquilo, sem novidades, naquela casa simples, na pequena cidade interiorana.

Na segunda noite do ocorrido, lá vai Juquita, sob o manto da madrugada, até o quintal, para atender ao mesmo incômodo sentido na antevéspera. Tirou o cigarro, que acendeu com o velho isqueiro Ronson, puxou uma longa baforada e se pôs a examinar o firmamento estrelado. Por um instante acreditou ter visto uma estrela piscar mais fortemente, enquanto passava o olhar pela quadra do céu bem acima do Morro das Andorinhas, a se insinuar no horizonte escuro. E tornou a experimentar a sensação de ouvir vozes e ruídos estranhos.

Mal a mulher acordou, contou a ela o ocorrido. E ela não teve dúvidas:

– Vamos marcar uma consulta com o doutor Modesto, para saber o que está acontecendo.

O resultado da consulta, quatro dias depois, deu em nada. O otorrino nada encontrou a justificar os incômodos narrados pelo paciente. E o casal voltou para casa ainda mais desconcertado.

E uma terceira vez voltou a ocorrer o mesmo fenômeno com Juquita. Agora, um tanto receoso da sua condição, disse à mulher que a despertaria, quando se repetisse aquilo, para que ela fosse testemunha.

Na quarta vez, era véspera do Dia de São João, o céu abarrotado de estrelas, Juquita chamou a mulher, com um toque no ombro:

– Acorda, Zefa! Estou tendo aquela mesma sensação. Vou lá para o quintal.

E saiu, já levando o cigarro e seu isqueiro à mão, enquanto a mulher tentava arrumar os cabelos e vestir alguma coisa que a protegesse do sereno da madrugada.

Quando ela, por fim, passados talvez quatro, cinco minutos, chegou à soleira da porta, viu o marido entrando num objeto luminoso, que baixara uma rampa até perto da jaqueira do quintal. Ela, apavorada, ainda gritou pelo marido:

– Juquita!

E mais tempo não houve para nada. O objeto levantou voo, com um suave ruído de motor elétrico, erguendo do chão uma profusão de folhas caídas e subindo ao céu como um dardo de luz.

No chão, próximo à jaqueira, restou apenas o isqueiro antigo, presente que a Zefa lhe dera pelo primeiro Dia dos Namorados que comemoram juntos, dezenas de anos atrás.

Dias depois, Zefa foi levada pelos filhos para tratamento em uma clínica psiquiátrica. E do Juquita nunca mais se teve notícia.

Imagem colhida na Internet.