HISTORINHAS RÁPIDAS X

19. HISTORINHA FRATERNA

Esta já contei há tempos, mas repito para os novos leitores.

Catito e Maria Lúcia, pais dos meus sobrinhos Dondinho e Dudu, hoje rapazes feitos, num domingo aprazível, foram almoçar em restaurante na Praia dos Cavaleiros, em Macaé.
Enquanto esperavam pelo pedido, os dois pequenos brincavam, brincavam, até que começaram a brigar.

Catito, para tentar acalmar os ânimos, leva os dois para a área em frente ao restaurante. Lá já estava um menininho um pouco mais novo, lourinho dos cabelos espetados e óculos redondo de lentes fundo de garrafa.

Catito, na tentativa de constranger os brigões, vira-se para o loirinho e pergunta:

– Você não acha feio dois irmãos brigando?

Do alto de sua sabedoria infantil de cerca de um metro, se tanto, o menino diz:

– Eu não se meto em briga de irmão dos outros!

 

20. HISTORINHA FUTEBOLÍSTICA

Gentil Cardoso era técnico de futebol, ativo entre as décadas 30 e 60 do século passado. Era um dos treinadores mais folclóricos do futebol brasileiro, em função de suas tiradas bem-humoradas e surpreendentes.

Uma das suas muitas histórias conta que, certa vez, durante treinamento, chamou às falas um dos seus jogadores, que andava maltratando a bola com chutões sem propósito para onde o nariz apontasse, utilizando o método socrático de busca da verdade, a fim de levar o pupilo ao seu ponto de vista:

– Meu filho, me diga aqui: a bola é feita de quê?
– De couro, seu Gentil. – Na época não se chamava o treinador de professor.
– E o couro vem de onde?
– Da vaca, seu Gentil.
– E a vaca come o quê, meu filho?
– Come grama, seu Gentil.
– Então põe a coitada da bola na grama, infeliz!

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HISTORINHAS RÁPIDAS IX

17. HISTORINHA IMPRUDENTE

No posto de saúde do Vital Brasil, seu Prudêncio, 95 anos, aguardava, sentado numa cadeira especial, o começo da vacinação contra a gripe. Sua acompanhante informou que ele tinha quebrado a bacia, por isso a cadeira especial naquela fila de diversos outros idosos, inclusive eu e a Jane.

Meses antes, a mulher de seu Prudêncio quis subir na escada de abrir, para pegar algo na parte superior do armário, e ele não permitiu. Era um perigo. Ele mesmo faria isso. Subiu, caiu lá de cima sobre a companheira e fraturou a bacia. A mulher teve luxações generalizadas.

Agora o imprudente seu Prudêncio aguardava pacientemente que o atendimento do posto a começar às oito horas da manhã se iniciasse com meia hora de atraso.
Tomou a agulhada ali mesmo, sentado sobre a cadeira colocada no corredor. E ainda agradeceu com um sorriso lúcido e simpático à enfermeira que lhe furou o braço.

 

18. HISTORINHA FARMACÊUTICA

Na minha adolescência, em Carabuçu, fui aprendiz de barbeiro com o Moreninho, exímio craque da tesoura e da navalha. Próximo à barbearia, ficava a farmácia do Zé Rezende, onde Ronaldo, meu amigo e colega do grupo escolar, trabalhava. Eu não gostava muito daquela sujeira que o cabelo cortado fazia e, ao contrário, gostava do cheiro das poções e dos álcoois da manipulação de remédios. E tinha comentado isso com o Ronaldo. Mas, em lugar pequeno, nem sempre há vagas para mais um nos estabelecimentos comerciais, também pequenos.

Certo dia chegou à vila um circo, que tinha como atração alguns animais, dentre os quais uma hiena. Um amarra-cachorro do circo se fez de engraçadinho e foi urinar junto à jaula da hiena. Aí não prestou! O bicho enfiou o focinho através das grades e mordeu o pênis do mané, que foi levado à farmácia. Lá chegou ele com mais um furo no dito cujo a requerer cuidados.

Ronaldo, então, teve de atendê-lo. Antes porém de iniciar os trabalhos, mandou me chamar para saber, diante daquela cena, se eu ainda tinha desejos de ser auxiliar do Zé da Farmácia. Claro que abri mão do meu sonho na hora. Pelo menos, como barbeiro, eu só alisava cara de homem. E não outros setores da anatomia masculina.

 

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HISTORINHAS RÁPIDAS VIII

15. HISTORINHA NUPCIAL

Teteca, meu cunhado, bebia como sempre num dos pés-sujos do mercado de Miracema. E bebia bem. Naquela noite, nos idos dos 80, já um tanto avultado nos espíritos do destilado de cana, recebeu convite para ser padrinho de um casamento gay (Miracema sempre foi avançada!), a se realizar daí a pouco, na parte superior do prédio. F*, a noiva, o convidou para a cerimônia.

Como não estivesse fazendo nada, além de beber, e fosse desprovido de preconceitos, até mesmo por certo embotamento alcoólico, subiu para testemunhar o enlace, que teve juiz de paz de mentirinha, livro de mentirinha e padrinhos de mentirinha. Na época, é claro!

Terminada a cerimônia, a noiva resolveu subir até o quartinho que alugava, no andar acima, para tirar o vestido de ocasião, colocar algo mais vaporoso e voltar para a comemoração, em que reinavam bebidas e salgadinhos.

Só que, ao descer as escadas de volta, F* encontrou certo tipo bem-apessoado, com o qual acabou se agarrando nos degraus. O noivo, estranhando a demora, decidiu ir atrás da noiva e a flagrou engalfinhada com o tal tipo, o que gerou a distribuição de tapas, rabos de arraia e pescoções, no varejo e no atacado.

O conflito se generalizou de tal forma, que pegou meu cunhado no desaviso e produziu na sua pessoa contusões e pisaduras diversas.

Quando conseguiu se desvencilhar daquela chusma de contravapores, Teteca reclamou no meio dos circunstantes briguentos:

– Por que eu apanhei, gente? Não sou gay! Nem paquerei ninguém aqui! Nem adianta mais me chamar para padrinho de casamento gay! Nunca mais aceito!

 

16. HISTORINHA IMPRUDENTE

No posto de saúde do Vital Brasil, em Niterói, seu Prudêncio, 95 anos, aguardava, sentado numa cadeira especial, o começo da vacinação contra a gripe. Sua acompanhante informou que ele tinha quebrado a bacia, por isso a cadeira especial naquela fila de diversos outros idosos, inclusive eu e a Jane.

Meses antes, a mulher de seu Prudêncio quis subir na escada de abrir, para pegar algo na parte superior do armário, e ele não permitiu. Era um perigo. Ele mesmo faria isso. Subiu, caiu lá de cima sobre a companheira e fraturou a bacia. A mulher teve luxações generalizadas.

Agora o imprudente seu Prudêncio aguardava pacientemente que o atendimento do posto a começar às oito horas da manhã se iniciasse com meia hora de atraso.
Tomou a agulhada ali mesmo, sentado sobre a cadeira colocada no corredor. E ainda agradeceu com um sorriso lúcido e simpático à enfermeira que lhe furou o braço.

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Imagem em vivamaiscricacoelho.wordpress.com.

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*Por prudência, omiti o nome da noiva.

HISTORINHAS RÁPIDAS VII

13. HISTORINHA VOCABULAR

 

Era o final da década de 60. Eu tinha começado a fazer Letras. Na faculdade encontrei um conterrâneo que não conhecia de Bom Jesus, Aldany, já advogado, casado, pai de filho, e diretor de uma subsidiária da antiga Cia. Siderúrgica Nacional. Ficamos bons amigos. Saíamos sempre juntos do Instituto de Letras, tomávamos o mesmo ônibus 30 na Rua Dr. Celestino, mas cada um saltava em pontos diferentes.

Sobre ser mais velho do que eu, ainda era mais culto, mais experiente e mais erudito.

Certa vez, esperávamos o 30, enquanto conversávamos, e ele soltou lá uma de suas palavras que me eram desconhecidas, ao comentar sobre uma pessoa conhecida:

– Fulana é muito iracunda. – e colocou o primeiro pé no estribo do ônibus que atendera ao nosso sinal.

Subi atrás, segurando firme minha então pasta James Bond (Os mais velhos hão de saber.), e indaguei:

– O que é iracunda!

E ele, com a solenidade de um lord inglês:

– Iracunda é irascível.

– Ah! Entendi!

Na verdade, só fui entender ao chegar à pensão da Dona Dinorah, onde morava, e consultar o “pai dos burros”.

Eu não podia dormir com aquele tijolaço vocabular tilintando nos meus ouvidos.

 

14. HISTORINHA RELIGIOSA

Lá pelos idos de 60, em Carabuçu, certo conhecido da minha mãe, já meio entrado em anos, analfabeto de berço, disse a ela que iria fundar uma igreja, porque não estava satisfeito com seu pastor. Minha mãe, então, quis saber como ele faria para difundir a Bíblia, sob seu ponto de vista, já que não sabia ler. Com toda a segurança, ele disse:

– Minha muié lê, e nós tepreta.

 

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HISTORINHAS RÁPIDAS VI

11, HISTORINHA DESCARADA

 

Era lá pela década de 90 do século passado. Jane e eu fomos com minha irmã e seu ex-marido assistir a um show do Ed Motta, numa casa de show em Ipanema hoje inexistente, o Jazzmania.

Daí a pouco começa o show, e Ed Motta começa a cantar:

– Eu não nasci pra trabalho…

Da mesa atrás de mim, cantou uma voz masculina, no ritmo e no tom do artista:

– Nem eu!

Todos nos voltamos na direção da voz. Era um rapaz, cara de pau, tipo rato de praia, acompanhado de uma senhora generosa, que sorria com a situação. Ela estava feliz com o seu protegido.

 

12. UMA HISTORINHA DE BOM JESUS

No domingo à tardinha, tinham jogado Ordem e Progresso e Olímpico, as duas forças antagônicas no futebol das duas Bom Jesus: o primeiro, do ES; o segundo, do RJ. O Progresso, como dizemos sempre, aplicou um 4×1 impiedoso no time de Bom Jesus do Itabapoana.

Zé Cabeça, por essa altura, tinha um bar, em salão único, comprido, junto de sua casa, na Rua Ten. José Teixeira, a que vai dar na ponte. Ex-jogador e torcedor fanático do Progresso, de Bom Jesus do Norte, escreveu a tinta, no grande espelho da parede do fundo do seu bar, o placar desmoralizante.

E conversava com outros três amigos, sentados à volta de uma das mesas da casa, quando chegou o Alceste Sá Viana, pai do meu colega de escola Altever e amigo de todos os que ali estavam, mas torcedor também fanático do Olímpico.

Ao ver o placar estampado no espelho, Alceste nem colocou o segundo pé na soleira do bar. Puxou o revólver que trazia à cintura, deu três tiros no espelho e disse para o grupo à mesa:
– Está empatado o jogo!

E, de imediato, saiu do local indignado.

Passado o susto, dizem as más línguas que o Zé Cabeça, também pai de outro contemporâneo meu, o Gaiola, perguntou aos outros trocadores de prosa:

– De quem mesmo a gente estava falando mal?

 

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A arquibancada do Estádio Carlos Firmo, em Bom Jesus do Norte-ES (imagem em reliquisdofutebol.blogspot.com).

HISTORINHAS RÁPIDAS V

9. HISTORINHA SALARIAL

Lá pelos anos 80, a faculdade em que eu trabalhava passava por problemas financeiros e atrasava salários.
Com a situação já periclitando, fomos reivindicar – meu dileto amigo Fernando Lemos e eu – nosso pagamento.
Então o tesoureiro resolveu liberar parte do que nos devia e preparou o documento para que o assinássemos: “RECIBO DE ADIANTAMENTO DE SALÁRIO”.
Ferrando Lemos pegou o dinheiro, a esferográfica oferecida, riscou a palavra ADIANTAMENTO e escreveu acima: ATRASAMENTO.
O tesoureiro protestou, mas o professor Fernando Lemos, do alto de sua autoridade profissional, disse não aceitar assinar um documento que não era verdadeiro. Virou as costas e saiu.

 

10. HISTORINHA BAIXINHA

 

Baixinho era uma pessoa metódica. Sua vida, após o trabalho diuturno na antiga CERJ, era programada para todos os dias úteis da semana e quase sempre terminava com uma cerveja gelada no bar do Zé Português, na esquina das ruas Moreira César e Pereira da Silva, em Icaraí. Certa noite, me contou a história que reproduzo aqui.

Um dia, pelas vinte e três horas, voltava para casa no ônibus da linha 53. Àquela hora, o coletivo tinha poucos passageiros. Ele se sentou junto à janela, num dos bancos um pouco à frente do cobrador. Ao lado dele, foi sentar-se um homem que portava um jornal dobrado em quatro.

Depois de algum tempo de viagem, o vizinho de banco levanta um pouco o jornal, exibe um revólver e lhe diz;

– Passe seu relógio e fique quietinho!

Baixinho recuperou-se rápido da surpresa e tentou argumentar com o assaltante:

– Que isso, cara?! Meu relógio não tem valor. Só valor sentimental. Foi presente do meu pai. E você vai vendê-lo por qualquer dez mil réis.

– Não interessa! O relógio vai ser meu e eu vendo pelo preço que quiser. Passe o relógio e fique quieto!

E aproveitou para cutucar o cano do trabuco nas costelas do Baixinho. Com tal argumento convincente, Baixinho não teve como não se desfazer de seu relógio de pulso, com pulseira de metal, todo dourado, marca Lanco, uma beleza de dar na vista.

O ladrão desceu no ponto seguinte, levando o relógio que Baixinho tinha adquirido na Grand Joias há um tempo.

Duas semanas após, cumprindo parte do seu ritual, numa quarta-feira, vai até o Caneco Gelado do Mário, por essa época a décima parte do que é hoje, e vê o ladrão sentado ao fundo, acompanhado de uma mulher. Baixinho, abusado como todos os baixinhos, vai em direção a ele e diz, para que os demais frequentadores ouvissem:

– Aqui, você é o cara que me roubou o relógio de pulso no 53 há quinze dias! Cadê o meu relógio?! Devolva o relógio que você me roubou!

– Que isso, cara?! Tá maluco?! Ficou doido?! Nem te conheço! Nunca te vi!

– É você sim! Estou te reconhecendo! – E se virou para os demais, reiterando a acusação.

O sujeito, constrangido, colocou uma nota sobre o balcão e escafedeu-se do local.

Passada uma semana do ocorrido, Baixinho, em outro dia da semana em que ia beber cerveja com fígado de galinha acebolado num boteco nas imediações do Estádio Caio Martins, mal pôs os pés na porta do estabelecimento e dá de cara com o ladrão, de copo à mão, pronto a virar um gole.

Assim que o viu e antes que o Baixinho lhe fizesse qualquer acusação pública, o assaltante foi saindo do bar e gritando a plenos pulmões:

– Não te conheço, cara! Nunca te vi! Você é um maluco!

E sumiu no oco do mundo, de nunca mais encontrar o Baixinho pela quarta vez.

 

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HISTORINHAS RÁPIDAS IV

7. HISTORINHA PRAIEIRA

Era lá pelo início do Plano Real. Jane e eu fomos passar uns dias em Iriri-ES e levamos conosco os pais dela, seu Beethoven e dona Judith.
Certa manhã, resolvemos ir até a Praia da Areia Preta. Encontramos um lugar elevado para sentar à beira da praia e lá ficamos.
Seu Beethoven resolveu dar um mergulho. Ele nadava bem. Dona Judith foi com ele até o mar.
Daí a pouco voltaram até onde estávamos, e ele meteu a mão no bolso do calção, porque se lembrou de que tinha deixado ali uma nota de cinco reais.
– Perdi a nota que estava no meu bolso!
Ele sempre foi, como diria, muito cioso de seu dinheiro, que tratava com grande cuidado. Até um tanto exagerado.
Então olhei em direção ao mar – naquele instante da manhã, só nós ali estávamos -, e vi boiando n’água uma nota. De imediato, ele foi recuperar a nota e voltou encantado:
– Hahahaha! Perdi cinco reais e achei uma nota de dez reais!
Foi a maior aplicação já feita no país: em cinco minutos, o valor aplicado duplicou.

 

8, HISTORINHA DE FÓSFORO

O freguês caipira entra na venda do meu pai, lá pelo início dos anos 60, e pede à minha mãe, que então atendia ao balcão:
– Dona Zezé, quero uma ca’ de fosso.
Minha mãe pega a caixa de fósforo e entrega a ele, que indaga dela onde era produzida aquela maravilha que dispensava a pedra de fogo para acender o cachimbo.
– Acho que é no Paraná. Vou ver aqui.
Ela pegou a caixa de volta e leu em voz alta o endereço da fábrica: Rua Tal, número tal, Curitiba.
Aí o caboclo corrigiu;
– Ah! Então é um Puritiba e não, no Panará.

 

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